
Os projetos mais perigosos da história raramente se apresentam como tirania. Quase sempre chegam vestidos de virtude, proteção e justiça social.
— Jorge Henrique de Freitas Pinho
Uma das formas mais sofisticadas de poder talvez resida precisamente na capacidade de produzir cegueira moral coletiva, levando sociedades inteiras a enxergar no adversário os impulsos que silenciosamente já existem dentro delas próprias.
Talvez por isso a projeção política tenha se tornado um dos mecanismos psicológicos mais eficientes da história humana. O homem raramente reconhece os próprios fantasmas. Prefere quase sempre identificá-los refletidos no rosto do inimigo.
Acusar o adversário precisamente daquilo que, em grau mais profundo, já se encontra silenciosamente enraizado dentro de si transforma-se, então, numa poderosa forma de autodefesa moral e política.
O homem raramente reconhece os próprios fantasmas. Prefere quase sempre enxergá-los refletidos no rosto do inimigo.
Talvez nenhuma dinâmica contemporânea revele isso com tanta nitidez quanto a relação entre Luiz Inácio Lula da Silva, o lulopetismo e a acusação quase ritualística de “fascismo” lançada contra Donald Trump, Jair Bolsonaro, conservadores, nacionalistas e movimentos de direita ao redor do mundo.
A ironia talvez seja maior — e mais perturbadora — do que muitos percebem.
Porque, guardadas as proporções históricas absolutamente distintas, e isso precisa ser afirmado com rigor para evitar vulgaridades
intelectuais, os traços estruturais mais perigosos do totalitarismo moderno frequentemente parecem hoje mais próximos da lógica cultural e política da esquerda contemporânea do que dos populismos nacionalistas que ela insiste em denunciar como “nazifascistas”.
O problema não está em comparar personagens históricos de maneira infantil. Hitler pertence a uma experiência singularmente monstruosa da civilização ocidental, marcada por racialismo biológico, militarização expansionista e genocídio industrializado.
Fazer equivalências simplistas apenas empobrece o pensamento e destrói a precisão histórica. Mas ignorar os mecanismos estruturais do poder de massas também produz outra forma de cegueira.
Porque regimes totalizantes raramente começam pelos campos de concentração. O horror explícito é quase sempre a fase final da doença, não seu nascimento.
O processo raramente nasce no horror explícito. A fase brutal costuma surgir apenas quando a transformação interior da sociedade já avançou muito além do ponto de retorno.
Tudo começa de maneira quase imperceptível, quando o Estado passa gradualmente a ocupar regiões cada vez mais íntimas da experiência humana e a política abandona lentamente sua função de administrar tensões sociais para assumir a pretensão mais ambiciosa de reorganizar a própria consciência coletiva.
Nesse estágio, o poder já não se satisfaz em regular comportamentos externos. Passa a desejar algo mais profundo: definir moralmente os próprios critérios pelos quais a realidade será percebida, interpretada e julgada.
E talvez seja exatamente aqui que a semelhança estrutural se torna desconfortável.
O lulopetismo construiu ao longo de décadas algo muito maior do que um simples partido político. Construiu uma cosmologia moral.
Lula deixou progressivamente de ser apenas um governante para transformar-se numa espécie de símbolo ético da própria identidade popular brasileira. O operário. O pobre. O retirante. O homem do povo.
A biografia pessoal converteu-se em certificado moral permanente. Sua trajetória deixou de funcionar apenas como narrativa política e passou a operar como legitimação emocional de autoridade histórica.
E isso possui enorme força psicológica, uma vez que líderes carismáticos de massa raramente governam apenas pela administração.
Governam sobretudo pela construção emocional de pertencimento coletivo.
O povo, por aua vez, já não enxerga apenas um presidente. Passa a enxergar a si próprio simbolicamente encarnado naquele personagem político.
O líder transforma-se em espelho emocional de milhões de pessoas que passam a interpretar ataques ao governante como ataques à própria identidade coletiva.
É exatamente aí que o fenômeno se torna perigoso.
Porque a política deixa gradualmente de ser disputa democrática entre projetos imperfeitos de sociedade para transformar-se numa guerra moral entre o bem e o mal.
O adversário já não aparece apenas como alguém que pensa diferente. Passa a representar ameaça ética à democracia, aos pobres, aos direitos humanos, à justiça social e à própria ideia de civilização moralmente aceitável.
Talvez por isso o lulopetismo tenha desenvolvido relação tão profunda com hegemonia cultural, expansão estatal, ocupação universitária, captura progressiva de instituições narrativas e moralização crescente da linguagem pública.
Durante anos, artistas financiados por mecanismos estatais aprenderam rapidamente quais discursos produziam aplauso institucional e quais produziam ostracismo.
Universidades públicas transformaram-se progressivamente em ambientes onde determinadas posições passaram a circular com naturalidade quase automática, enquanto outras começaram lentamente a exigir autocensura preventiva para evitar linchamento moral, cancelamento simbólico ou exclusão acadêmica.
Jornalistas descobriram que certas críticas eram tratadas como “defesa da democracia”, enquanto outras passaram a ser enquadradas como ameaça institucional. Plataformas digitais começaram a sofrer pressão crescente para moderar conteúdos considerados “perigosos”, “antidemocráticos” ou “desinformativos”, quase sempre segundo critérios extraordinariamente assimétricos.
O problema não está apenas na existência de moderação, regulação ou responsabilidade jurídica. Toda sociedade minimamente organizada possui limites normativos.
O dilema civilizacional e ontológico começa quando tais mecanismos passam progressivamente a operar sob uma lógica moral seletiva, na qual determinadas correntes ideológicas desfrutam do monopólio informal da legitimidade ética enquanto outras passam a existir sob permanente suspeita moral.
E talvez seja exatamente isso que tornou tão simbólicos episódios recentes do Brasil contemporâneo.
Quando mercados preditivos começaram a produzir sinais negativos sobre a popularidade do governo Lula e sobre cenários eleitorais futuros, parte significativa da reação institucional não foi compreender por que a percepção popular se deteriorava, mas atacar o próprio mecanismo de leitura da realidade.
Em outro passo, a partir do momento em que críticas nas redes passaram a revelar desgaste crescente do governo, o impulso predominante deixou progressivamente de ser disputar convencimento político e passou a aproximar-se da tentativa de ampliar controle sobre circulação informacional, responsabilização discursiva e enquadramento narrativo.
A questão deixa então de ser apenas política.
Torna-se psicológica.
Porque todo poder que começa a enxergar diagnósticos independentes como ameaça existencial já iniciou silenciosamente seu processo de transformação moral.
Talvez por isso a esquerda contemporânea demonstre relação tão profunda com conceitos como “discurso de ódio”, “regulação democrática”, “responsabilidade informacional”, “proteção institucional” e “controle da desinformação”.
Em tese, muitos desses conceitos podem nascer de preocupações legítimas. O problema surge quando passam a funcionar como mecanismos flexíveis de expansão contínua do controle discursivo.
E aqui emerge uma das grandes ironias da política contemporânea.
A esquerda acusa constantemente a direita de autoritarismo enquanto expande progressivamente mecanismos de controle narrativo, normaliza censura indireta, amplia dependência estatal, moraliza dissidência, ocupa instituições culturais e transforma discordância em suspeita ética.
E faz tudo isso enquanto continua profundamente convencida de representar o campo automático do bem histórico.
Talvez porque o totalitarismo moderno mais perigoso já não se apresente com botas militares, estética brutalista ou discursos explicitamente violentos.
O novo totalitarismo frequentemente chega vestido de compaixão, com a afirmação de amor venceu.
Fala em inclusão, proteção, combate ao discurso de ódio, segurança democrática, responsabilidade coletiva e justiça social. Seu poder inicial não nasce do medo físico. Nasce da ocupação moral da linguagem.
E talvez seja exatamente por isso que o lulopetismo acuse Trump, Bolsonaro e movimentos conservadores de fascismo com intensidade quase ritualística.
Porque a acusação de fascismo produz um efeito psicológico extraordinário. Ela permite ao acusador ocupar automaticamente a posição moral de resistência histórica ao mal absoluto. Aquele que denuncia o “nazismo” transforma-se instantaneamente em defensor da civilização.
O problema é que, muitas vezes, essa acusação passa a funcionar menos como diagnóstico histórico rigoroso e mais como mecanismo sofisticado de ocultação psicológica dos próprios impulsos totalizantes.
Trump certamente possui traços fortes de personalismo, impulsividade, brutalidade retórica e nacionalismo agressivo. Bolsonaro frequentemente demonstrou inadequação verbal, simplificações perigosas e incapacidade de refinamento institucional.
Mas existe uma diferença estrutural importante que parte significativa da elite intelectual contemporânea parece incapaz — ou talvez indisposta — de reconhecer.
O trumpismo e os populismos nacionalistas frequentemente desejam concentração de poder político.
Já a esquerda contemporânea frequentemente deseja algo muito maior.
Deseja e trabalha diuturnamente para reorganizar os próprios critérios culturais, educacionais, linguísticos, morais e psicológicos pelos quais a sociedade interpreta a realidade.
E isso muda tudo.
Porque o perigo mais profundo para uma civilização não é apenas o líder vaidoso, histriônico ou agressivo. O perigo maior frequentemente nasce dos projetos políticos que expandem progressivamente dependência, infantilização social, captura institucional, centralização moral e transferência crescente da autonomia humana para estruturas tuteladoras de poder.
Talvez por isso alguns dos regimes mais destrutivos da história tenham surgido precisamente prometendo igualdade, proteção, redenção coletiva, justiça histórica e libertação humana.
Toda engenharia de controle começa prometendo cuidado.
A União Soviética prometia libertar os trabalhadores. O maoísmo prometia igualdade revolucionária. O chavismo prometia justiça social continental. A Revolução Cultural Chinesa prometia purificação moral da sociedade. Em cada caso, a expansão progressiva do controle veio acompanhada de uma narrativa ética de salvação coletiva.
Porque o poder raramente cresce apresentando-se como dominação. Ele cresce apresentando-se como necessidade moral.
E talvez seja exatamente isso que parte significativa da direita contemporânea tenta intuitivamente reagir, ainda que muitas vezes de forma intelectualmente imperfeita: a percepção de que o problema já não reside apenas no tamanho do Estado, mas na pretensão crescente de o Estado tornar-se mediador absoluto entre indivíduo, verdade, linguagem, moral e realidade.
Nesse sentido, a acusação obsessiva de fascismo dirigida contra Trump, Bolsonaro, conservadores e movimentos de direita talvez revele menos uma análise histórica rigorosa e mais um mecanismo clássico de projeção política.
Acusar no outro aquilo que silenciosamente se tornou parte de si.
Porque o poder raramente reconhece os próprios impulsos totalizantes. Prefere quase sempre enxergar sua própria sombra refletida no rosto do inimigo.
E talvez essa seja uma das grandes tragédias das democracias contemporâneas. Elas já não conseguem distinguir claramente a diferença entre proteger a liberdade e administrar moralmente a consciência coletiva.
No momento em que um sistema político passa a acreditar possuir autoridade ética para decidir o que pode ser dito, quais opiniões permanecem moralmente aceitáveis, quais interpretações podem circular legitimamente e quais cidadãos podem continuar plenamente integrados ao espaço moral da convivência pública, o problema já deixou de ser apenas político.
Tornou-se civilizacional.
Porque o estágio mais sofisticado do poder não é quando ele domina pela força. É quando consegue convencer a própria sociedade de que a perda gradual da liberdade constitui, na verdade, uma forma superior de proteção moral.
E talvez nenhuma forma de poder seja mais perigosa do que aquela que já não consegue perceber o quanto seus próprios métodos começaram silenciosamente a se parecer com aquilo que afirma combater.
Pós-escrito — o retorno silencioso da transcendência
Talvez exista, porém, um fenômeno ainda mais profundo acontecendo sob a superfície desse embate político contemporâneo.
Algo menos visível que eleições, pesquisas, redes sociais ou disputas partidárias, mas potencialmente muito mais decisivo para o futuro das democracias ocidentais.
O lento retorno da busca humana por transcendência.
Durante décadas, parte significativa do pensamento progressista acreditou que estruturas milenares como religião, tradição, filosofia clássica, família, pertencimento espiritual e identidade civilizacional poderiam lentamente ceder lugar à engenharia social, ao consumo, à tecnologia, à burocracia estatal e à moralização política.
A promessa parecia sedutora. Libertar o homem de todas as estruturas herdadas. Romper limites históricos. Desconstruir referências antigas. Produzir um indivíduo plenamente autônomo, emancipado de tradições, hierarquias, símbolos permanentes e vínculos transcendentes.
O problema é que o ser humano não suporta viver muito tempo dentro do vazio.
E talvez uma das maiores tragédias da modernidade tenha sido precisamente acreditar que prosperidade material, avanço científico e expansão tecnológica seriam suficientes para preencher aquilo que durante milênios foi ocupado pela filosofia, pela espiritualidade, pela religião, pela comunidade e pela busca de sentido.
Não foram.
Porque existe uma fome humana que não se resolve com consumo, algoritmo, entretenimento ou administração estatal.
E os sinais desse retorno começam lentamente a aparecer.
Jovens voltam a frequentar igrejas. Muitos já não buscam apenas militância política travestida de espiritualidade ou discursos sociológicos transformados em teologia.
Procuram algo muito mais antigo e muito mais profundo: pertencimento, verdade, transcendência, ordem moral, silêncio interior e sentido existencial.
Quem sabe resida aí uma das razões pelas quais a Teologia da Libertação, apesar de sua enorme influência sobre parcelas importantes do clero latino-americano, jamais tenha conseguido absorver integralmente o coração espiritual dos fiéis. Porque, no fundo, multidões continuam entrando nas igrejas não para ouvir sociologia revolucionária revestida de linguagem religiosa, mas para reencontrar Deus, redenção, perdão, transcendência e esperança.
O crescimento contínuo do evangelicalismo também revela parte desse fenômeno. Apesar de excessos, mercantilizações e distorções frequentemente legítimas de crítica, milhões de pessoas continuam encontrando nas igrejas evangélicas algo que o mundo moderno progressivamente deixou de oferecer: comunidade, disciplina moral, pertencimento, estrutura familiar, espiritualidade concreta e fidelidade direta à palavra de Cristo.
E talvez seja exatamente esse vazio espiritual produzido pela modernidade que ajude a explicar também o ressurgimento contemporâneo do conservadorismo.
Não porque figuras como Donald Trump, Jair Bolsonaro ou Viktor Orbán representem modelos perfeitos de refinamento intelectual, prudência filosófica ou equilíbrio moral.
Frequentemente não representam. São personagens por vezes toscos, impulsivos, personalistas e profundamente imperfeitos.
Mas a história raramente escolhe mensageiros perfeitos para anunciar mudanças civilizacionais.
E talvez o fenômeno mais importante não esteja propriamente nos homens, mas naquilo que eles simbolicamente passaram a representar para milhões de pessoas exaustas do vazio moral contemporâneo.
Porque, mesmo de maneira intuitiva e muitas vezes intelectualmente desorganizada, esses movimentos começaram a levantar novamente bandeiras que durante décadas foram tratadas como moralmente suspeitas pela hegemonia cultural progressista: família, identidade nacional, tradição, religião, soberania, distinção entre certo e errado, limites civilizacionais, mérito, responsabilidade individual e continuidade histórica.
No fundo, talvez parte significativa da sociedade esteja começando lentamente a perceber algo que a filosofia clássica já compreendia há muito tempo: civilizações não sobrevivem apenas de eficiência material.
Sobrevivem de sentido.
E aqui emerge uma das questões mais profundas do nosso tempo.
Porque o verdadeiro conservadorismo não nasce do medo irracional da mudança, nem da simples defesa nostálgica do passado. O conservadorismo filosófico saudável nasce precisamente da compreensão de que a evolução humana só permanece civilizacionalmente sustentável quando consegue preservar vínculos permanentes entre liberdade, responsabilidade, transcendência, natureza humana e continuidade histórica.
Toda sociedade precisa evoluir.
Mas nenhuma sociedade sobrevive por muito tempo quando rompe completamente com as estruturas simbólicas, morais e espirituais que sustentaram sua própria existência.
Talvez por isso as grandes revoluções modernas tenham produzido resultados tão devastadores. A Revolução Francesa terminou em terror. A Revolução Russa mergulhou milhões na máquina soviética. O maoísmo transformou engenharia social em tragédia humana de escala continental. O século XX tornou-se o maior laboratório histórico da tentativa de reconstruir o homem pela política.
E o saldo foi brutal.
Milhões de mortos. Famílias destruídas. Civilizações fragmentadas. E, ainda mais grave que tudo, um vazio existencial progressivamente incapaz de ser preenchido mesmo pelas sociedades tecnologicamente mais avançadas da história.
Porque existe um limite que ciência, tecnologia, inteligência artificial, consumo e engenharia estatal jamais conseguirão ultrapassar sozinhos: o problema do sentido.
E talvez seja exatamente por isso que a velha filosofia clássica continue silenciosamente sobrevivendo enquanto tantas utopias modernas envelhecem rapidamente. Aristóteles continua falando sobre virtude. Confúcio continua falando sobre ordem moral. Santo
Agostinho continua falando sobre inquietação interior. Viktor Frankl continua falando sobre sentido. Martin Buber continua falando sobre encontro humano.
Porque o homem continua sendo um ser humano.
E talvez nenhuma inteligência artificial, nenhum avanço tecnológico e nenhuma revolução política consigam substituir aquilo que durante milênios sustentou a própria experiência humana: transcendência, verdade, responsabilidade moral e busca sincera por sabedoria.
Provavelmente seja exatamente aí que resida a esperança silenciosa do Ocidente contemporâneo.
Não no retorno perfeito ao passado, mas na lenta redescoberta de que nenhuma civilização permanece viva quando perde completamente sua relação com o Logos, com a transcendência e com a própria dignidade espiritual do homem.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas