Manaus – Após anos na pasta de infraestrutura e atualmente como prefeito, Renato Júnior acaba de reconhecer que a cidade está tomada por buracos e agora responsabiliza a concessionária Águas de Manaus pelo problema. Para tantro ameaçou embargar todas as obras da empresa e aplicar mais de R$ 10 milhões em multas. A ameaça foi feita na manhã desta quinta-feira (28), em entrevista coletiva. A declaração esbarra em um dado incontestável: os problemas de recomposição asfáltica não são novos e eram de conhecimento da própria Prefeitura há, pelo menos, 2 anos.

(Foto: Reprodução / Facebook / Prefeitura de Manaus)
O prefeito afirmou que a concessionária “rasga” o asfalto recém-executado pela Prefeitura, ao classificou a empresa como desrespeitosa com a população e prometeu levar o caso “às últimas consequências”. Dados oficiais da Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman) mostram que a concessionária já vinha sendo fiscalizada e punida por falhas na recomposição de vias muito antes do anúncio do embargo.
As fiscalizações apontaram fissuras, afundamento de solo, ausência de recomposição definitiva e intervenções fora dos padrões técnicos exigidos pelo município.
Os dados revelam que a Prefeitura não apenas conhecia os problemas, como também os registrava oficialmente e aplicava penalidades administrativas à concessionária.
A declaração de Renato Júnior é feita como se ele desconhecesse que Prefeitura fiscaliza diariamente as obras da concessionária, aplica multas milionárias e emite dezenas de notificações todos os anos. Agora, a gestão reconhece que a cidade está tomada por buracos e responsabiliza a empresa pelo problema.
A Ageman informou que utiliza como parâmetro técnico o Manual de Recuperação de Vias da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), além de realizar vistorias constantes nas intervenções executadas pela concessionária.
No entanto, não existe um painel público informando:
- quantas recomposições foram reprovadas;
- quantas precisaram ser refeitas;
- quantas multas foram efetivamente pagas;
- quantos buracos existentes na cidade são resultado direto das obras da Águas de Manaus.
As informações permanecem sob controle interno da Prefeitura e da agência reguladora.
Contradição política
A nova postura do prefeito chama atenção por um aspecto político. Até poucos meses atrás, Renato Junior era vice-prefeito e secretário municipal de Infraestrutura, sendo um dos principais defensores do programa Asfalta Manaus, frequentemente aparecendo em agendas públicas ao lado do então prefeito David Almeida para anunciar novas frentes de pavimentação.
Agora, na condição de prefeito, o discurso mudou. A gestão reconhece que a cidade enfrenta graves problemas na malha viária e promete uma grande operação de recuperação de ruas. A mudança de narrativa ocorre em um momento em que o próprio programa Asfalta Manaus continua sendo alvo de questionamentos sobre a aplicação de recursos públicos.
Centenas de milhões em asfalto sob investigação
Levantamentos publicados pelo PORTAL D24AM mostram que os investimentos no programa de asfaltamento alcançaram cifras expressivas nos últimos anos.
Em maio de 2025, a Prefeitura renovou 13 contratos que somavam mais de R$ 144 milhões, mesmo com o Ministério Público do Amazonas mantendo um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na transparência e divulgação do cronograma de obras. O programa já havia recebido mais de R$ 200 milhões em recursos.
Em julho de 2025, o D24AM revelou que os contratos do programa já ultrapassavam R$ 371 milhões, levando parlamentares a questionarem a efetividade dos investimentos diante das reclamações sobre ruas deterioradas e obras inacabadas.
Em agosto do mesmo ano, novos aditivos contratuais elevaram os gastos em mais R$ 78 milhões, enquanto avançavam pedidos de instalação da chamada “CPI dos Buracos”.
Outros levantamentos apontam que os gastos acumulados com o programa de pavimentação já ultrapassaram a marca de R$ 1 bilhão desde sua criação.
Fiscalização
Se a Prefeitura vinha fiscalizando, notificando e multando a concessionária há anos, por que apenas agora decidiu adotar uma medida extrema e reconhecer publicamente o estado crítico das vias da cidade?
Até o momento, a administração municipal não apresentou um levantamento técnico que demonstre quantos dos buracos existentes em Manaus decorrem das intervenções da Águas de Manaus, nem esclareceu se as multas anteriormente aplicadas produziram resultados concretos na recuperação das vias.
Por meio de nota, a concessionária Águas de Manaus informou está cumprindo integralmente as determinações da Prefeitura de Manaus e atuando em conjunto com os órgãos municipais para a recuperação dos pontos indicados. Nesta semana, a empresa já iniciou um plano intensivo de recomposição asfáltica em diferentes regiões da capital.
A nota informa ainda que “Em alinhamento com os órgãos competentes, o cronograma prevê a aplicação de 130 toneladas de asfalto por dia, em uma força-tarefa voltada à recomposição dos trechos das vias que receberam obras”.
A concessionária não mencionou a ameaça direta do prefeito.