Legado de Milton Santos é reescrito por pesquisas inéditas


Nesta quarta-feira (24), completam-se 25 anos do falecimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. O marco é acompanhado por um processo de redescoberta de sua obra, impulsionado por pesquisas em um vasto acervo de 60 mil itens custodiado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). O trabalho acadêmico atual, influenciado pela nova geração de estudantes negros que acessou as universidades via cotas, busca desconstruir mitos e expandir o entendimento sobre o geógrafo baiano para além dos temas tradicionais da globalização.

Além da academia

O professor Maurício Costa, pesquisador de Milton Santos, destaca que a nova historiografia acadêmica tem evidenciado um pensador profundamente atento às questões raciais desde o início de sua carreira. “O primeiro livro dele, O Povoamento da Bahia, é uma obra que aborda questões raciais”, ressalta. O acervo também tem trazido à luz relatos de suas viagens à África na década de 50, como no livro Marianne em Preto e Branco, consolidando Santos como um dos pioneiros brasileiros a analisar as estruturas sociais do continente africano com olhar crítico.

O professor Sérgio Henrique de Oliveira, da Unila, enfatiza que o material inédito desmonta a ideia de que o intelectual nunca foi militante. Segundo o pesquisador, Santos não exercia uma militância tradicional, mas atuava como um elaborador de ideias sobre a exclusão do negro em escala global. Para Oliveira, o conceito de cidadania desenvolvido por Santos em O Espaço do Cidadão é a base teórica que hoje sustenta a luta de movimentos sociais, como o MST e o MTST, na ocupação e defesa do território.

Milton na periferia

A influência do pensador transcende os muros da universidade e chega ao cotidiano das comunidades. Regina Lucia Santos, geógrafa e coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU), aponta que conceitos niltonianos como as “redes invisíveis de solidariedade” e as formas de enfrentar a escassez são vivenciados organicamente pela população periférica. O objetivo das novas pesquisas é justamente fortalecer esse vínculo, levando a reflexão teórica para a organização política nos territórios.

Milton Santos, que enfrentou o racismo estrutural em sua trajetória acadêmica, consolidou uma obra que articula economia, política e sociedade. Nascido na Bahia em 1926 e exilado durante a ditadura militar, o geógrafo lecionou em diversos continentes antes de retornar ao Brasil, onde se tornou professor na USP. Hoje, sua teoria é referência global, sendo utilizada em estudos urbanos que variam de Gana, na África, até grandes metrópoles europeias.

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