Casos de abuso no jiu-jitsu expõem vulnerabilidade de crianças e mulheres


Manaus – A crescente onda de denúncias de abusos envolvendo professores de artes marciais no Amazonas tem levantado um alerta sobre a necessidade de tornar o esporte um ambiente cada vez mais seguro para crianças, adolescentes e mulheres.

(Foto: Marcos Henrique / GDC)

Em meio ao debate, a professora e faixa-preta de jiu-jitsu Maísa Ladislau decidiu quebrar o silêncio e revelou, pela primeira vez, ter sido vítima de importunação sexual no início da carreira.

“Eu nunca conversei com ninguém sobre isso. Essa é a primeira vez que vou falar. Já fui importunada sexualmente no início da minha carreira”, afirmou emocionada.

(Foto: Marcos Henrique / GDC)

Segundo Maísa, o episódio aconteceu em uma época em que as vítimas tinham menos ferramentas para denunciar.

“Na minha época não existia tudo isso que existe hoje: internet, redes sociais, a força da televisão. Eu simplesmente escolhi sair daquela equipe”, relembrou.

A experiência traumática se transformou em motivação para criar um espaço seguro para outras mulheres. Atualmente, a professora mantém em sua academia uma turma exclusiva para alunas.

“Nosso objetivo é capacitar essas mulheres para que elas saibam se proteger e tenham coragem de denunciar”, destacou.

O esporte que ensina defesa também precisa se defender

Considerado um dos principais instrumentos de inclusão social no Amazonas, o jiu-jitsu é conhecido por promover disciplina, respeito e autoconfiança. No entanto, uma série de denúncias de abuso sexual envolvendo professores tem abalado a credibilidade de parte da comunidade esportiva.

Nos últimos anos, diversos casos vieram à tona em Manaus, revelando que alguns profissionais utilizavam a posição de confiança dentro das academias para se aproximar e abusar de crianças e adolescentes.

Entre os investigados está o policial civil e empresário Melqui Galvão, proprietário de uma das academias mais conhecidas do país e pai do campeão mundial Mika Galvão. Ele segue preso em uma penitenciária de São Paulo, aguardando decisão da Justiça.

Outro investigado é Carlos Holanda, conhecido no meio esportivo como “Esquisito”, suspeito de abusar de crianças e adolescentes em Manaus. Ele é considerado foragido e continua sendo procurado pelas autoridades.

“O abusador age como um predador”

Além de delegado de polícia, Guilherme Torres também é faixa-preta de jiu-jitsu e professor de crianças e adolescentes. Segundo ele, os abusadores costumam identificar vítimas em situação de vulnerabilidade.

(Foto: Marcos Henrique / GDC)

“O abusador é como um predador no reino animal. Ele observa, identifica quem está mais vulnerável, quem tem menos apoio, e ataca justamente essa vítima”, explicou.

Diante dos casos registrados, o delegado iniciou uma campanha de conscientização nas academias de artes marciais.

“Estamos há um ano realizando ações de proteção à criança e ao adolescente dentro do esporte. A iniciativa começou no jiu-jitsu e já foi adotada por federações de outras modalidades, como o judô e a luta livre”, afirmou.

Academias adotam medidas de proteção

Na academia dos mestres Diego Marinho e Maísa Ladislau, os alunos recebem orientações constantes sobre prevenção ao abuso e importunação sexual. Entre as medidas adotadas estão regras de convivência, acompanhamento de professores auxiliares e turmas separadas.

“Seria importante que outras academias também adotassem métodos de proteção, com mais professores, mais acompanhamento e uma didática específica para cada faixa etária”, destacou Diego Marinho.

Segundo Maísa, após as recentes denúncias, muitas meninas passaram a procurá-la pelas redes sociais.

“Tenho recebido mensagens de meninas que se sentiram encorajadas a falar. Quero dizer às que ainda não conseguiram denunciar que elas não estão sozinhas. Meu telefone está disponível e vamos buscar a melhor forma de ajudá-las”, disse.

Meninas encontram no esporte um espaço de proteção

Para muitas adolescentes, a presença de uma mulher como professora faz toda a diferença.

As alunas Petra, Gabriela, Paola, Louise e Belinha, com idades entre 12 e 13 anos, afirmam que se sentem mais seguras treinando em um ambiente que prioriza o diálogo e o acolhimento.

“Escolhi o jiu-jitsu porque via muitos casos de meninas sendo agredidas e assediadas. Acho que todas deveriam aprender a se defender”, contou uma das alunas.

Outra destacou a importância da orientação familiar:

“Meus pais sempre me ensinaram que qualquer toque diferente eu preciso contar imediatamente. A denúncia é muito importante.”

Denuncie

Embora o medo e a vergonha ainda sejam barreiras para muitas vítimas, especialistas reforçam que denunciar é fundamental para interromper ciclos de violência e impedir que novos casos aconteçam.

Todos os casos citados seguem sob investigação da Polícia Civil do Amazonas (PCAM).

Professores procurados e suspeitos de abusar de crianças e adolescentes





VER NA FONTE