Olhando para trás – Folha BV



De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa…Cazuza

Era noite. O quarto escuro denunciava qualquer coisa assim inusitada. Vontade de fugir, de ir comprar algo na esquina e desaparecer no meio da multidão. De atiçar lembranças e revirar memórias. De esvaziar o baú de quinquilharias existenciais e arrumar tudo que valia a pena colecionar.

Ali, na geografia do silêncio forçado e da solidão quase patológica, mergulhamos na estrada, percebemos o vácuo, entendemos a ausência de nós mesmos.

A noite, regida pelos ponteiros da angústia, revelou tudo que se passava entre muros, paredes, janelas, corredores e avenidas. Diante dos olhos perdidos a mutilação psicológica. Os pedaços significativos que fomos perdendo durante a caminhada.

As estrelas viraram lágrimas, ainda que companheiras da insônia. O vento trouxe os detalhes que estavam armazenados no coração. O medo, amigo de todas as horas, trouxe flores amarelas e medrosas.

A inocência era palpável na escuridão, ainda que estivesse distante. Pensamos no tempo de criança, na ingenuidade perdida, no coração humano e solidário. Entretanto, já não havia espaço para oferecer flores ao desconhecido, para ajuntar os “samaritanos” vitimados pelo trágico. Não podíamos “falar com os estranhos”, pois a estrutura social maligna nos prendia numa bolha individual e utilitarista.

Debruçados na janela da inquietação, tentamos ajuntar os pedaços, os cacos coloridos que ficaram para trás. Perdemos a mãe, a ternura, a capacidade de indignar-se diante da injustiça e de todas as formas de perversidade. Ao perder o sono, achamos a dor da incompletude, do despedaçamento psicológico. Para trás ficou a água limpa da honestidade, a pureza do ético, o fogo da compaixão, o senso de coletividade.

Ali, entre o céu da virtude, a movediça realidade e o “pântano enganoso das bocas”, sentimos falta da amizade incondicional, do amor desinteressado, dos mais quentes afetos. Entretanto, ainda podíamos resistir a nós mesmos e àquilo que na vida nos vence. Tentar recuperar os fragmentos, a coisa morna e ingênua que ficou no caminho.

Era noite. Uma longa noite. Tempo de lançar fora todos os “rebotalhos” e trapos de autorrespeito e ajuntar o que sobrou da vida.

*Advogado, historiador, poeta, professor de filosofia, Mestre em Letras, membro da Academia Roraimense de Letras e da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia.  wd.aguiar @gmail.com.



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