Brasil registra oito vítimas de violência sexual infantil por hora, revela anuário


Manaus – No Brasil, a cada quatro casos de violência sexual, três têm como vítima uma criança ou adolescente, de acordo com dados da pesquisa ‘O Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2025’.

(Foto ilustrativa: Reprodução / Freepik)

A mesma pesquisa aponta que a maioria dos casos de violação acontece com vítimas do sexo feminino. Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 levantou uma questão importante: nem sempre o ambiente familiar representa segurança, já que, em 69,1% dos casos, o abuso ocorreu no ambiente residencial.

Segundo o mesmo anuário, no Brasil, oito crianças ou adolescentes são vítimas de violência sexual por hora.

Todos fazem parte da proteção

Das ocorrências de violência sexual registradas no ambiente familiar, em 59,5% dos casos as principais vítimas são menores de 14 anos. De acordo com dados do IPEA, apenas 8% dos casos de violência sexual chegam a ser efetivamente registrados no sistema policial.

Para Laís Peretto, Diretora Executiva do Childhood Brasil, o cenário coloca em evidência os estigmas da invisibilização da violência sexual infantojuvenil na sociedade brasileira.

“A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda enfrenta o desafio da subnotificação histórica e do silêncio, agravados pelo fato de que a maioria dos casos ocorre no ambiente doméstico e por pessoas do convívio da vítima”, destaca Laís Peretto.

Para ela, é preciso que a sociedade compreenda a proteção infantil como uma responsabilidade coletiva, e não apenas familiar ou institucional. A entrevistada também compartilha a necessidade de fortalecimento das redes de proteção e uma cultura social que reconheça sinais de violência sem naturalizá-los.

“É importante desconstruir o perigoso imaginário popular de que o abusador é um estranho ou desconhecido. As violências sexuais contra crianças e adolescentes frequentemente acontecem em relações marcadas por confiança, assimetria de poder e proximidade”, afirma Laís Peretto .

Conforme Laís, um passo importante na proteção de crianças e adolescentes foi o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, legislação federal brasileira que atualiza as proteções do ECA de 1990 para o ambiente online.

“Até pouco tempo, a responsabilidade pela proteção online de crianças e adolescentes recaía quase exclusivamente sobre as vítimas e os responsáveis legais. O ECA Digital traz mais clareza e respaldo jurídico ao estabelecer a responsabilidade compartilhada, fundamentada pelo dever de cuidado com o usuário, fazendo com que as empresas de tecnologia também sejam encarregadas de proteger esse público e mitigar violências no ambiente digital”, ressalta a Diretora Executiva.

Laís Peretto reforça que, de acordo com a SaferNet Brasil, apenas entre janeiro e julho de 2025, houve um crescimento de 18,9% nas denúncias de abuso e exploração sexual online de crianças e adolescentes. Além disso, o uso de Inteligência Artificial acelerou esses riscos, facilitando a criação de materiais ilícitos e deepfakes. Para ela, o diálogo aberto e a orientação fazem toda a diferença.

“Para se proteger, os responsáveis não devem delegar o cuidado unicamente aos filtros e controles parentais. É vital manter um diálogo aberto sobre a vida online, participar da escolha de aplicativos, estabelecer limites de tempo de conexão, exigir a vinculação de contas de menores aos perfis e evitar que o isolamento digital não se torne uma porta aberta para abusadores”, alerta Laís.

Esteja atento aos sinais

A entrevistada reforça que entender que todos devem estar atentos aos sinais de violação aos direitos infantojuvenis faz toda a diferença para a proteção.

“Os principais sinais de alerta que pais, responsáveis e educadores devem observar incluem mudanças repentinas de comportamento, isolamento, desinteresse em atividades cotidianas, alterações no sono, ansiedade excessiva ao usar o celular e reações negativas diante de certos adultos”, enfatiza Laís Peretto.

Além disso, ela também alerta para os cuidados no ambiente digital, é importante observar se a criança ou o adolescente aparece com presentes, roupas ou créditos em jogos virtuais que não foram comprados pela família, ou se passa a utilizar um vocabulário excessivamente sexualizado para a sua faixa etária, o que pode ser um indício de aliciamento.

Acolhimento faz toda a diferença

Diante de uma suspeita, o adulto deve agir com serenidade e garantir um acolhimento e escuta ativa, evitando questionamentos agressivos, detalhados ou repetitivos.

Sobre a escuta, Laís lembra que, para que as denúncias avancem com segurança, é indispensável a implementação plena da Lei da Escuta Protegida (Lei 13.431/2017) em todo o país, garantindo que crianças e adolescentes em situação de violência sejam atendidos pela rede de proteção de forma acolhedora e humanizada sem que precisem reviver o trauma ao contar o que aconteceu para diferentes pessoas, em diferentes serviços.

“Isso se chama revitimização e preveni-la é a finalidade central da lei. Ainda assim, a responsabilização é uma resposta tardia; o país precisa avançar na estruturação preventiva de ações para evitar que violações aconteçam para crianças e adolescentes”, completa a porta-voz do Childhood Brasil.

Para ela, o Estado precisa garantir que a rede de proteção esteja preparada para atuar de forma integrada, com capacidade de resposta efetiva envolvendo assistência social, saúde, educação, segurança pública e sistema de justiça.

O silêncio compactua e a espetacularização vulnerabiliza

Ao ser questionada sobre a maneira como a sociedade e a mídia tendem a tratar os casos de violência, Laís reforça que a exposição excessiva pode trazer as consequências tanto a vítima quanto aos familiares, fragilizando vínculos de cuidado e aprofundando situações de sofrimento, isolamento e estigmatização social.

“A circulação de imagens e a espetacularização dessas agressões não representam apenas um registro da violência, mas sua continuidade. Cada compartilhamento amplia o impacto da agressão, interrompe o desenvolvimento saudável das vítimas e promove uma revitimização pública, fazendo com que crianças e adolescentes revivam o trauma repetidamente”, destaca Laís Peretto.

Por isso, é necessário não apenas relatar, mas proteger e conscientizar, respeitando os limites e direitos de proteção da vítima.

“A responsabilização dos agressores é indispensável, mas ela acontece quando o dano já foi causado. Por isso, um passo fundamental para transformar essa realidade é investir de forma consistente na prevenção primária, por meio do letramento e da educação para a autoproteção. É essencial ensinar, desde cedo, crianças e adolescentes a reconhecer limites, identificar situações de risco e buscar ajuda diante dos primeiros sinais de violência”, finaliza Laís Peretto.

Denuncie

Em caso de suspeita ou confirmação de casos de violação aos direitos das crianças e adolescentes,  a ação mais segura é procurar imediatamente o Conselho Tutelar ou a autoridade policial mais próxima e utilizar o Disque 100, uma ferramenta gratuita e anônima que aciona a rede de proteção competente para retirar a vítima da situação de risco.

Conheça a Childhood Brasil

A Childhood Brasil é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 1999 pela Rainha Silvia da Suécia, dedicada exclusivamente à proteção de crianças e adolescentes contra o abuso e a exploração sexual.

A instituição atua como referência no país no desenvolvimento de soluções, pesquisas e ações de incidência política. Entre suas principais frentes de atuação, destacam-se: Proteção Corporativa; Defesa de Direitos; e Conscientização voltadas ao enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes.

Saiba mais em:  https://www.childhood.org.br/





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