Do lixo ao design sustentável: empreendedor transforma latinhas em móveis, inovação ambiental e conhecimento digital


Nascido há mais de 20 anos a partir de uma ideia voltada ao reaproveitamento de resíduos, o “Projeto Lata”, desenvolvido em Caracaraí, vem transformando latinhas de alumínio, que antes teriam como destino o lixo ou o descarte no meio ambiente, em móveis e peças utilitárias. Criada pelo empreendedor Adriano Bezerra, a técnica utiliza um conceito de sustentabilidade e, agora, também começa a ser compartilhada em plataformas digitais.

A proposta parte do princípio de reaproveitar a lataria sem derreter ou industrializar, criando estruturas modulares capazes de formar bancos, mesas, lixeiras, suportes e outros objetos de uso cotidiano.

Em entrevista, o criador do projeto, conta que a ideia surgiu em 1995, enquanto participava de uma feira de invenções no estado de São Paulo. Foi durante uma conversa sobre resíduos sólidos, que Adriano ouviu inventores discutindo sobre a possibilidade de produzir utilizando materiais como PET e latas, preservando sua estrutura original.

Segundo ele, essa possibilidade ficou guardada por anos como um desafio pessoal. “Naquela época, ouvi pessoas falando que o grande avanço seria encontrar uma forma de produzir usando PET e lata. Passei a olhar para esses materiais de outra forma, como algo que poderia ter utilidade de novo, sem precisar voltar para a indústria. Foi uma ideia que me acompanhou por muito tempo, até eu conseguir transformar isso em realidade”, relembra.

Entre 1995 e 2009, Adriano desenvolveu pequenos protótipos e ideias iniciais, como porta-retratos e suportes simples. A partir daquele ano, passou a estruturar um método próprio de produção baseado na reutilização direta das latinhas, com registros diários e testes contínuos. Dois anos depois, a metodologia já estava consolidada e pronta para uso.

Após seis anos, mais de 2 mil peças foram comercializadas. Mesas, bancos, lixeiras e cadeiras começaram a circular em exposições e eventos dentro e fora de Roraima. Uma das estruturas mais conhecidas é um bar construído com cerca de 200 mil tampinhas de latas, chamando atenção em manifestações culturais, como o carnaval do município.

A técnica, que hoje é patenteada, se baseia na desmontagem e reconfiguração da lataria. O processo envolve etapas como corte, preparação das tampas e a utilização de arame na montagem das estruturas, formando peças resistentes que podem ser adaptadas para diferentes finalidades.

“Não é apenas artesanato. Estamos falando de uma técnica desenvolvida, testada e aprovada ao longo de anos, que mostra que é possível transformar um resíduo descartado em algo útil, durável e funcional. É um novo conceito de produção sustentável, porque pega um material que iria para o lixo e dá a ele uma nova vida”, afirma.

Sustentabilidade e reaproveitamento

Mais do que uma técnica de fabricação, o projeto se consolida como uma proposta de sustentabilidade aplicada, transformando resíduos em produtos duráveis e funcionais, prolongando o ciclo de vida do material e reduzindo o descarte inadequado.

As peças produzidas com a técnica seguem em uso há mais de uma década, sem apresentar deterioração estrutural significativa, gerando economia circular.

“Eu tenho peças com mais de 15 anos de uso que continuam firmes. Isso mostra que não é algo descartável ou passageiro. Quando você cria um produto resistente a partir de algo que seria jogado fora, você evita descarte, reduz impacto ambiental e ainda mostra que sustentabilidade também pode significar durabilidade”, destaca.

Educação e expansão digital

O projeto passou a ganhar alcance fora da produção local. A técnica passou a ser ensinada por meio de vídeos e conteúdos publicados em redes sociais, com o objetivo de ampliar o alcance da metodologia, permitindo que outras pessoas aprendam o processo e e readaptem os modelos.

“Mais importante do que ensinar um modelo pronto é ensinar a técnica. Quando a pessoa entende o processo, ela pode criar diferentes peças, adaptar ideias e até transformar isso em uma fonte de renda. Não é sobre decorar móveis, é sobre aprender um conceito que pode abrir novas possibilidades”, resume.

O ensino digital abre caminho para um impacto que vai além de Caracaraí, transformando o conhecimento em ferramenta de geração de renda, especialmente para quem trabalha com reciclagem ou artesanato.

“Hoje eu vejo isso como um conhecimento que precisa ser compartilhado. Tem muita gente que pode aprender, produzir, vender e encontrar nisso uma oportunidade. Se uma técnica como essa pode ajudar famílias a gerar renda e ainda contribuir com o meio ambiente, então ela precisa alcançar mais pessoas”, afirma.

Sozinho em sua residência, Adriano grava, produz e edita os próprios vídeos, detalhando cada etapa do processo para tornar o aprendizado acessível, das demonstrações práticas à explicação sobre medidas, cortes e montagem.

Ao longo da trajetória de desenvolvimento, o projeto contou com o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Roraima (Sebrae/RR), que proporcionou consultorias, participação em feiras e deslocamentos para exposições em diferentes estados.

Entre as ações, estão participações em feiras de inovação, encontros empresariais exposições como a apresentação no Palácio da Cultura, em Boa Vista (2009); a Feira do Empreendedor e a Feira da Indústria, na capital roraimense (2010 e 2013); exposição no Shopping Manauara, em Manaus e na Amazontech, no Amapá (2012); além do II Fórum Mundial de Desenvolvimento Econômico Local, em Foz do Iguaçu (2013).

Esses espaços foram fundamentais para dar visibilidade ao projeto e aproximá-lo de diferentes públicos, incluindo universidades, engenheiros e especialistas em automação, que demonstraram interesse no modelo de produção.

Para o empreendedor, mais do que criar móveis ou desenvolver uma técnica, o Projeto Lata representa uma contribuição prática de devolver ao planeta parte do cuidado que ele precisa.

“Quando a gente reaproveita, está fazendo a nossa parte pelo planeta. O planeta agradece quando a gente entende que sustentabilidade não é discurso, é ação”, conclui.



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