Conciliar maternidade e universidade ainda é, para muitas mulheres, uma rotina atravessada por renúncias, sobrecarga e falta de estrutura. Na Universidade Federal do Maranhão, mães que estudam e trabalham têm encontrado no Coletivo Mães da UFMA uma rede de apoio para enfrentar os desafios de permanecer no ensino superior sem deixar de cuidar dos filhos.
A professora Maria Gislene Carvalho, integrante do coletivo e da Coordenação de Gênero e Diversidade da Diretoria de Diversidade, Inclusão e Ações Afirmativas (DIDAAF), resume esse cenário como uma experiência marcada por excesso de demandas e uma adaptação institucional ainda em processo. Segundo ela, o acúmulo de tarefas vai muito além da sala de aula e atinge diretamente a produção intelectual das mães.
“É desafiador para todas as mães que têm que trabalhar fora de casa, além do trabalho de casa, além dos trabalhos de cuidado. A nossa jornada é potencializada tanto pela quantidade quanto pela carga mental”, diz. Na prática, isso significa lidar com uma rotina em que o tempo nunca parece suficiente. “Desde eventos presenciais que não contam com espaço de cuidado. Quando amamenta, por exemplo, não tem onde amamentar ou não tem onde deixar as crianças”, explica.
A ausência de condições básicas de acolhimento faz com que a maternidade se torne um obstáculo constante na trajetória acadêmica. “Isso acaba aparecendo também como uma redução da nossa produção científica”, observa. Segundo ela, a dificuldade termina afetando outras etapas da vida universitária e cria “uma bola de neve de obstáculos”.
Grande parte dessas mulheres são mães solo e precisam sustentar a casa, cuidar dos filhos e seguir estudando ao mesmo tempo. Sem ajuda de terceiros — familiares, amigos, vizinhos e colegas —, a responsabilidade de dar conta de tudo se torna insustentável. “Sem essa rede de apoio, muitas estudantes acabam faltando aulas, perdendo conteúdo e acumulando dificuldades para concluir o curso”.
Por isso, a professora defende espaços mais preparados para acolher mães dentro da universidade. “A UFMA está trabalhando na construção de salas de amamentação”, destaca, lembrando ainda de ações em prol da instalação de trocadores em banheiros e outros espaços de circulação.
Coletivo Mães da UFMA
É nesse contexto que entra a atuação do Coletivo Mães da UFMA. O grupo, formado por estudantes, técnicas e docentes, surgiu da necessidade de transformar experiências individuais em luta coletiva pela permanência estudantil de mães universitárias. “O coletivo mobilizou-se para responder ao nosso mapeamento, para constituir essa imagem, esse retrato das mães na UFMA”, diz. A articulação entre departamentos da universidade e grupos de pesquisa ajudou a dar visibilidade às demandas de mães e pais de crianças pequenas dentro da instituição.

Se para a professora a pauta passa pela estrutura, para a comunicadora Sylmara Durans, ex-graduanda da UFMA e mãe de uma menina de sete anos, ela também envolve pertencimento. Ao falar sobre a própria experiência, Sylmara lembra que viver a maternidade enquanto cursava a graduação era emocionalmente desgastante.
“Essa tarefa de conciliar a maternidade e a vida acadêmica é muito desafiadora”, conta. “São atividades complexas, ambas, que exigem muita disponibilidade de tempo, e muitas vezes elas acabam conflitando.”
A rotina era marcada por uma sequência de responsabilidades que praticamente ocupavam todo o dia. “A minha rotina era muito estruturada: cuidar da minha filha, das minhas demandas domésticas e familiares e da universidade.” Em muitos momentos, isso significava abrir mão até do lazer. “Eu não participava de momentos de socialização com os meus amigos, extraclasse, porque não tinha como. Se eu fizesse isso, eu não conseguiria terminar o relatório que eu tinha para entregar”, relata.
Sylmara conta que o medo de não dar conta acompanhou quase todo o percurso dela na graduação. “Todo semestre eu tive que abrir mão de alguma coisa”, afirma. Ainda assim, ela diz que a rede de apoio, tanto familiar quanto da comunidade do coletivo de mães, foi determinante para concluir o curso.
“Encontrar outras mulheres que passavam por desafios semelhantes aos meus e encontrar caminhos para pensar a resolução desses problemas de forma coletiva” foi, segundo ela, fundamental para se sentir parte do espaço acadêmico.
Já formada, Sylmara vê na própria trajetória uma forma de romper expectativas e enfrentar desafios vividos por mães não só na graduação, mas também no mercado de trabalho. “Ser mãe, estudante universitária, ter me formado também é uma resposta ao que a sociedade espera de pessoas como eu”, afirma.
Por último, ela reforça mais uma vez a importância da rede de apoio na trajetória dela. “É possível conquistar os nossos sonhos, principalmente se a gente tiver apoio”, resume.