Sarney revisita origens no jornal O Imparcial


Entre a política, a literatura e o jornalismo, poucos nomes atravessaram tantas décadas da história brasileira com a mesma presença de José Sarney. Aos 96 anos, o ex-presidente da República voltou ao centro da cena pública maranhense durante as comemorações do centenário de O Imparcial, jornal onde iniciou a carreira como repórter ainda adolescente e que ajudou a moldar sua trajetória intelectual e política.

Na solenidade em que o periódico recebeu da Assembleia Legislativa do Maranhão o título de Patrimônio de Natureza Imaterial e Cultural do Estado, na quinta-feira (7 no Plenário Nagib Haickel, no Palácio Manuel Beckman), Sarney emocionou uma plateia formada por autoridades, jornalistas, colaboradores do jornal e representantes da sociedade civil ao revisitar, em tom memorialista, os primeiros passos de sua vida profissional.

Com a vitalidade que ainda impressiona aliados, admiradores e contemporâneos, Sarney subiu à tribuna sob aplausos e transformou o evento em uma verdadeira viagem pela história da imprensa maranhense e da política brasileira. 

Em discurso marcado por lembranças minuciosas e referências culturais, o ex-presidente relembrou a São Luís dos anos 1940, os tempos de repórter policial e os bastidores da redação que definiu como responsável por sua “formação cultural”.

Diante de uma plateia formada por autoridades, jornalistas, intelectuais, empresários, colaboradores do jornal e representantes da sociedade civil, o que surgiu foi sobretudo o homem das letras, o jovem repórter que começou na imprensa maranhense ainda na adolescência e que transformou a experiência da redação no alicerce de sua formação humana, cultural e política.

Da editoria de polícia à Presidência do Brasil

Aos 96 anos, completados em abril de 2026, Sarney impressionou pela lucidez, pela memória detalhista e pela capacidade de reconstruir episódios da São Luís dos anos 1940 com riqueza quase cinematográfica. Sua fala, baseada no artigo “Onde eu comecei”, foi marcada por uma combinação rara entre emoção, erudição e senso histórico. O silêncio atento do plenário legislativo evidenciava não apenas o respeito à figura institucional do ex-presidente, mas também o reconhecimento de alguém que testemunhou — e participou diretamente — de algumas das transformações mais profundas do Brasil republicano.  “Hoje, O Imparcial, jornal onde comecei minha carreira de jornalista, aos 17 anos, faz 100 anos. Que venham outros 100, e que ele nunca deixe de ser tão necessário quanto é”, afirmou.

Cem anos completa O Imparcial — e como ele faz parte da minha vida! Algumas coisas não passam: ficam. E tornam-se parte do que somos”, leu Sarney logo no início do discurso. A frase funcionou como uma espécie de portal para um passado que ele reconstruiu diante do público quase como quem folheia um álbum de fotografias antigas.

Ao rememorar o concurso de reportagem que lhe abriu as portas do jornal em 1946, Sarney revelou mais do que um episódio de juventude. Expôs o nascimento de uma vocação intelectual moldada nas ruas de São Luís. “Fui atrevido: concorri com um texto sobre a Quinta do Barão e me surpreendi com o resultado: tirei o primeiro lugar e fui contratado como repórter”, relembrou.

Naquele tempo, O Imparcial ainda era um organismo vivo da cidade, pulsando entre o cheiro de tinta, o ruído metálico das linotipos e o movimento acelerado das redações. O jovem José Ribamar Ferreira de Araújo Costa — nome de batismo do futuro presidente — mergulhava no cotidiano policial da capital acompanhado do fotógrafo Azoubel, visitando delegacias nas madrugadas e convivendo precocemente com a dureza humana. “Eu, novinho, era o Foca do Jornal”, recordou com humor e nostalgia.

Mais do que uma simples iniciação profissional, o jornalismo representou para Sarney uma escola de observação do mundo. Foi ali que ele começou a compreender as estruturas do poder, as desigualdades sociais e os mecanismos da vida pública. A convivência com personagens populares, intelectuais e políticos acabaria moldando o escritor regionalista e o estrategista político que décadas depois ocuparia o Palácio do Planalto.

Foi em O Imparcial que Sarney assumiu a edição do Suplemento Literário, considerado um dos espaços mais importantes do neomodernismo maranhense. O caderno se tornou ponto de encontro de jovens escritores que buscavam romper com o academicismo ainda dominante na chamada “Atenas Brasileira”. Ali circularam nomes como Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Lago Burnett, Carlos Madeira e Evandro Sarney. “Ali passei a editor do Suplemento Literário, caderno responsável pelo neomodernismo no Maranhão”, destacou durante a cerimônia.

Mas mesmo no auge da carreira política, Sarney nunca abandonou a escrita. Sua produção literária inclui romances, crônicas, ensaios e poesias. Em 1980, ingressou na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 38. Obras como Saraminda, O Dono do Mar e Os Marimbondos de Fogo ajudaram a consolidar seu nome também no universo literário.

Durante o evento do centenário, Sarney deixou evidente que enxerga O Imparcial não apenas como o lugar onde começou a trabalhar, mas como um território simbólico de pertencimento. “Toda a formação cultural que me estruturou na vida se fez ali, naquela redação”, afirmou.

O ex-presidente descreveu as lembranças sensoriais que ainda guarda do jornalismo impresso. E agradeceu a hoemnagem que recebeu do jornal pelo doiretor-executivo Célio Sergio que lhe entregou uma capa histórica de O Imparcial com as notícias que ocorreram na data de seu nascimento.  Ele relembrou ainda a sua relação com Assis Chateubriand, com o presidente do jornal Pedro Freire e com o diretor de jornalismo, Raimundo Borges.

Ao falar de O Imparcial, Sarney acabou falando também de si mesmo — de um homem que atravessou quase um século de história brasileira sem nunca abandonar completamente o jovem repórter que um dia entrou numa redação carregando sonhos literários e um texto assinado sob o pseudônimo “Zé da Ilha”.

Ao final da solenidade, a sensação entre os presentes era a de ter assistido não apenas a um discurso comemorativo, mas a uma aula viva sobre jornalismo, literatura, política e memória. Uma narrativa contada por alguém que deixou de ser apenas personagem da história para se tornar parte permanente dela.



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