As mães e a travessia invisível


Ainda me lembro das tardes em que, desde a mais tenra idade até ficar grande demais, no colo de minha mãe, ouvia suas orações e suas histórias.

Foi ali, muito antes de qualquer formulação filosófica, que comecei silenciosamente a perceber a relação entre o divino e o humano, entre a fé e a ação, entre aquilo que sustenta o espírito e aquilo que orienta a vida concreta.

Sem que eu compreendesse plenamente, aquela presença já formava dentro de mim algo mais profundo do que ideias. Formava um modo de olhar o mundo. Porque certas verdades chegam primeiro pelo afeto, pela convivência e pela experiência, muito antes de conseguirem transformar-se em conceito.

Hoje percebo que aquela base familiar não moldou apenas minha visão de mundo. Moldou também minha compreensão sobre o que significa viver com propósito, permanecer inteiro em meio às travessias da existência e reconhecer que a verdadeira formação humana começa muito antes das teorias.

Com o passar dos anos, compreendi que as mães ocupam um dos lugares mais silenciosos e mais decisivos da história humana.

Muito antes de filósofos formularem sistemas, juristas escreverem leis ou governantes organizarem instituições, já existiam mães ensinando, pelo exemplo cotidiano, aquilo que tornaria possível qualquer civilização futura: a linguagem, a confiança, a delicadeza, o limite, a responsabilidade, o cuidado e a capacidade de reconhecer o outro como humano.

O homem não nasce pronto sequer para sobreviver, muito menos para a vida moral.

Precisa ser lentamente introduzido no mundo humano, aprendendo, antes mesmo dos conceitos, aquilo que sustentará sua existência: o cuidado, o limite, a linguagem, a confiança, a responsabilidade e a capacidade de reconhecer o outro como semelhante. E quase sempre é na presença materna que essa iniciação silenciosa começa.

Nossa época, fascinada pela técnica, pela velocidade e pela autonomia absoluta, frequentemente subestima essa dimensão invisível da maternidade.

Confunde independência com desenraizamento e imagina que a formação humana pode ser delegada inteiramente a sistemas, métodos ou estruturas burocráticas.

Mas a verdadeira educação nunca começou nos sistemas. Nasceu no colo, na palavra repetida pacientemente e na presença constante daquelas que ensinaram, sem perceber plenamente, o difícil equilíbrio entre firmeza e acolhimento, entre liberdade e responsabilidade, entre proteção e preparação para o mundo.

Existe algo profundamente revelador no fato de Sócrates, um dos maiores filósofos da humanidade, ser filho de uma parteira.

Não foi apenas um detalhe biográfico. Foi quase uma metáfora da própria civilização. Porque da experiência materna do parto ele extraiu a imagem central de toda a sua filosofia: a maiêutica.

Sócrates compreendeu que ensinar não era despejar respostas prontas sobre alguém, mas ajudar o outro a dar à luz aquilo que já existia potencialmente dentro dele.

E há nisso uma das maiores verdades sobre a maternidade. A mãe não apenas gera biologicamente. Ela ajuda o ser humano a nascer espiritualmente, moralmente e existencialmente para a vida. Faz isso muitas vezes sem discursos sofisticados. Faz no exemplo silencioso, na repetição paciente, na firmeza que corrige sem humilhar e na ternura que acolhe sem dissolver limites.

As grandes civilizações intuíram isso muito antes de conseguirem explicá-lo teoricamente. Esparta, por exemplo, compreendia, ainda que sob dureza extrema, que nenhuma cidade permanece quando as gerações deixam de transmitir coragem, honra, disciplina interior e responsabilidade.

Havia ali a consciência de que a força de uma civilização depende menos de muralhas externas do que da formação moral daqueles que a sustentarão no futuro.

Por trás dos guerreiros espartanos existiam mães ensinando seus filhos a suportar dor, dever e sacrifício sem colapso interior. Não era apenas treinamento militar. Era transmissão civilizacional.

Lembro-me aqui de uma passagem frequentemente evocada por Lúcia Helena Galvão ao comentar a obra Portões de Fogo, de Steven Pressfield. Nela, o Rei Leônidas afirma que não escolheu seus trezentos guerreiros apenas pela força física ou pela habilidade no combate, mas sobretudo pelas mulheres que eles deixariam para trás.

A percepção era profundamente humana. Leônidas sabia que muitos morreriam nas Termópilas. O verdadeiro teste de Esparta começaria quando a notícia chegasse à cidade. Se mães e esposas mergulhassem no desespero, a pólis ruiria interiormente antes mesmo de ser vencida pelos persas.

Por isso, a força de Esparta não estava apenas nos homens que partiam para a guerra, mas também na estatura moral das mulheres que permaneciam.

Havia nelas uma firmeza silenciosa: a capacidade de sustentar a dor sem permitir que o sofrimento destruísse aquilo que consideravam mais elevado do que a própria preservação individual.

E talvez exista nisso uma das expressões mais difíceis e mais elevadas da maternidade: amar profundamente sem transformar o amor em aprisionamento, formando seres humanos capazes de permanecer íntegros diante da dor, do dever e da travessia da existência.

Portugal também conheceu, à sua maneira, outra forma de coragem materna. Como escreveu Fernando Pessoa: “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.”

Parte desse sal nasceu justamente das lágrimas silenciosas das mães portuguesas. Das mulheres que viam filhos, maridos e irmãos atravessarem oceanos sem qualquer garantia de retorno.

Porque toda grande travessia humana produz também uma retaguarda invisível de permanência.

Enquanto alguns partiam em direção ao desconhecido, outras sustentavam silenciosamente aquilo que permitiria aos que regressavam ainda reconhecer um lar, uma memória e uma continuidade afetiva capaz de sobreviver ao tempo e à distância.

Foi exatamente essa experiência que marcou tantas famílias portuguesas espalhadas pelo mundo, inclusive a minha.

Entre Angeja, Manaus e tantas outras travessias realizadas por meus antepassados, percebo hoje que coube frequentemente ao feminino preservar aquilo que não podia se perder completamente em meio às mudanças.

Enquanto os homens atravessavam mares, cidades, ofícios e riscos, havia mulheres sustentando o ritmo invisível da permanência, guardando vínculos, afetos, valores e modos de existir que impediam a própria alma da família de se dissolver.

Com o tempo compreendemos que a vida raramente permanece apenas pela força das grandes conquistas.

Frequentemente ela continua graças ao amor contínuo daqueles que sustentam, quase invisivelmente, o ritmo profundo da existência.

Certos afetos silenciosos acabam moldando muito mais daquilo que somos do que imaginávamos na juventude.

Uma palavra dita no momento certo, uma renúncia silenciosa, um cuidado persistente,

uma presença constante ou uma fidelidade que não fazia barulho acabam se transformando, décadas depois, em parte da própria estrutura interior do ser humano.

Por isso as mães são, em tantas famílias, a forma mais concreta daquilo que chamamos de lar. Não apenas porque cuidam da casa, mas porque frequentemente preservam aquilo que impede a própria alma da família de se dispersar.

Há algo na maternidade que resiste ao colapso sem precisar proclamar-se heroico. Algo que sustenta sem dominar. Algo que permanece sem endurecer.

E é justamente essa combinação entre firmeza e ternura que torna a presença materna uma das forças mais civilizacionais da experiência humana.

E essa dimensão materna da existência ultrapassa inclusive a própria maternidade biológica.

Existem mulheres que, mesmo sem terem gerado filhos, expressam profundamente essa força humanizadora no cuidado com crianças acolhidas, filhos adotivos, idosos, enfermos, alunos, amigos, animais ou simplesmente através da rara capacidade de sustentar presença, proteção e afeto em meio à dureza do mundo.

Há mulheres que se tornam mães pela maneira como sustentam a vida ao redor

E talvez isso revele uma verdade profunda sobre a maternidade: ela não se reduz apenas ao ato biológico de gerar, mas também à capacidade espiritual e humana de acolher, formar, proteger e ajudar o outro a permanecer humano.

Também me parece impossível falar verdadeiramente sobre maternidade sem reconhecer sua dimensão espiritual mais elevada.

Porque, para mim, toda maternidade encontra seu reflexo maior naquela que o cristianismo chamou de Virgem Maria. Não apenas como figura religiosa, mas como símbolo supremo do acolhimento, da presença, da fidelidade silenciosa e da capacidade de sustentar amor mesmo diante da dor, da travessia e da incerteza.

Em Maria existe uma síntese profundamente humana entre força e delicadeza, permanência e abertura, sofrimento e esperança.

Talvez por isso sua presença tenha atravessado séculos, povos, culturas e línguas diferentes sem perder sua capacidade de tocar a alma humana.

E foi exatamente essa presença materna que, de formas distintas, se refletiu nesta dimensão através das mulheres que atravessaram minha própria existência.

Minha bisavó Mariana. Minha bisavó Ana. Minha bisavó Mercedes. Minhas avós Ilda e Naíde. Minha mãe Wandeth. Minha madrinha Bena. Minha mãe alemã, Frau Ada. Minha mãe Lourdes Daou. As mães de tantos amigos que, de algum modo, também ajudaram silenciosamente a formar quem me tornei.

Minha sogra Vânia. Minha esposa Tricia. Minha irmã Jacqueline. E tantas amigas, colegas de faculdade e de trabalho, mulheres, de ontem e de hoje, com as quais convivi ao longo da vida.

Em cada uma delas percebi, à sua maneira, algo dessa centelha silenciosa que humaniza o mundo.

Não uma fragilidade sentimental, mas uma força discreta e profundamente estruturante.

A capacidade de sustentar vida interior em meio ao caos, preservar humanidade em tempos de endurecimento e continuar gerando sentido quando tantas estruturas ao redor começam lentamente a se desfazer.

A maternidade é difícil de explicar plenamente porque pertence menos ao campo das definições e mais ao da experiência.

Assim como certas raízes permanecem invisíveis enquanto sustentam toda a árvore, existem presenças que sustentam silenciosamente a continuidade da própria existência humana.

E talvez seja exatamente por isso que toda civilização que aprende a honrar verdadeiramente suas mães ainda conserve alguma esperança não apenas de sobreviver, mas de permanecer humana.

 

(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.

 





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