Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Ao cursar Moda no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, a designer Dhey Oliveira revisitou suas raízes e passou a enxergar a moda a partir do legado do líder seringueiro Chico Mendes. Inspirada por sua luta socioambiental, ela desenvolveu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre moda ecológica e sustentabilidade, um conceito ainda pouco difundido em 2003, e que hoje a ajuda a empreender no ramo.

Desde então, Dhey mergulhou em pesquisas sobre inovação em látex e materiais biodegradáveis, desenvolvendo tecidos impermeáveis à base de látex, explorando o uso de insumos biodegradáveis e técnicas de tingimento artesanal (tie-dye). Ao longo de 20 anos, dedicou-se à pesquisa e ao desenvolvimento de protótipos que unissem design, tecnologia e responsabilidade ambiental.

O resultado desse percurso é uma estética que vai além do conceito tradicional de moda, mas é um estilo que expressa um modo de vida mais consciente, conectado à floresta e ao futuro.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

O estilo criado por Dhey pensa em peças que podem não apenas ser usadas no dia a dia, mas que sua produção agrida menos o meio ambiente. Foto: Alice Leão

“A gente desenvolveu um TCC de moda inspirado no Chico Mendes porque era uma pesquisa de moda e, naquele momento, a gente ainda não sabia exatamente qual caminho seguir. Não se tratava de criar uma marca ou usar o nome do Chico para vender roupas, mas sim de fazer um TCC sobre a vida dele e sobre tudo o que envolve o seu legado”, explica Dhey.

A partir dessa pesquisa, chegaram a uma conclusão central de desenvolver a moda ecológica. Naquela época, a palavra sustentabilidade praticamente não existia no vocabulário da moda. Ela só começou a ser inserida nas universidades brasileiras por volta de 2005, quando o tema passou a ganhar força nos estudos acadêmicos.

“Então fomos encaixando tudo. Eu mergulhei na história do Chico Mendes — absolutamente tudo que envolvia sua trajetória — e percebi que tudo, inevitavelmente, nos levava para a ecologia”, relembra.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Com o tempo, a designer foi agregando outros produtos também sustentáveis para fortalecer essa cadeia de produção no estado. Foto: Alice Leão

Reaproveitamento

Durante o desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso, Dhey mergulhou em pesquisas sobre a história socioambiental do Acre.

“Comecei a pesquisar os historiadores daqui e encontrei muitos estudos do Marcos Vinícius Neves, que já discutia sustentabilidade, moda ecológica e ciência ecológica”, conta.

A recorrência desses temas nas leituras levou o grupo a estruturar um briefing de moda ecológica, ainda pouco explorado no início dos anos 2000. A partir desse conceito, Dhey passou a refletir sobre todas as etapas necessárias para uma moda de fato ecológica, desde o desenvolvimento dos materiais até o descarte.

“Naquela época, era muito comum ver as pessoas simplesmente jogarem tudo fora. Então entendemos que, se falássemos de moda ecológica, precisaríamos pensar em materiais biodegradáveis, no mínimo tecidos de algodão”, explica.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Para Dhey, a moda precisa ser repensada dentro de um cenário mais sustentável. Foto: Alice Leão

Da experiência ao látex

O interesse pessoal da designer por técnicas artesanais também entrou no processo. “Eu já gostava de tingimento artesanal, então pensei que o tie-dye poderia funcionar bem dentro dessa proposta.” Aos poucos, os elementos foram se encaixando, formando a base do projeto, que hoje completa duas décadas.

Foi então que a professora de tecnologia têxtil lançou o desafio que mudaria o rumo da pesquisa. “Ela disse: ‘O conceito Chico Mendes é borracha. Então você vai ter que desenvolver um tecido com látex’. Eu pensei: será que eu consigo?”.

A partir daí, Dhey iniciou suas primeiras experimentações com látex, que mais tarde se tornaram a marca de sua trajetória profissional.

“Quando viemos para cá em julho, procurei pesquisadores que trabalhavam com látex. Um deles compartilhou parte de seus estudos, e a partir daí comecei a desenvolver a técnica de impermeabilização ecológica”. O resultado inicial,segundo ela, era um tecido mais leve, diferente dos materiais tradicionais usados na região.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Ao longo de duas décadas de pesquisa, a designer acreana enfrentou um dos maiores desafios de quem trabalha com materiais sustentáveis: provar que o produto funciona. Foto: Alice Leão

Ao longo dos últimos 20 anos, Dhey aprimorou protótipos, participou de diversas exposições e consolidou um método próprio. Hoje, ela já domina quais tecidos respondem melhor ao processo, pois nem todos suportam a impermeabilização ecológica, que exige precisão e delicadeza.

Além do tie-dye, técnica que sempre fez parte de seu repertório, a designer passou a incorporar referências locais, como o trabalho de artesãs que estampam tecidos com folhas. “Estamos aproveitando essa arte do ecoprint e aplicando a impermeabilização sobre essas estampas artesanais”, explica.

Nos últimos dois anos, o conceito de upcycling, que consiste em dar um novo e melhor propósito para um material que seria descartado, também passou a integrar sua produção. As peças misturam o material emborrachado desenvolvido na pesquisa com retalhos reaproveitados e intervenções de pintura.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Pesquisa foi baseada no legado de Chico Mendes, líder seringueiro. Foto: Alice Leão

Pioneirismo

A pesquisa pioneira, iniciada ainda na universidade, tornou-se referência nacional. “Esse TCC foi pioneiro no Brasil em moda ecológica. Muita gente leu e estudou esse trabalho”, afirma. Formada pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Dhey hoje representa o Acre em intercâmbios criativos com outros estados e segue aprofundando sua investigação sobre materiais sustentáveis.

A designer começou sua atuação profissional ministrando cursos, já que ainda não tinha um público consumidor consolidado. Com o tempo, percebeu o interesse crescente pelas peças que produzia e passou a empreender com itens mais leves, no estilo resort, como quimonos e saídas de praia.

“Quando vi que as pessoas realmente gostavam de comprar o que eu fazia, isso despertou meu interesse em empreender”, conta.

Embora seu trabalho seja reconhecido em diferentes regiões do país, a comercialização ainda ocorre de forma limitada. “Hoje vendo apenas por encomenda. A pessoa entra em contato, pede algo específico e eu produzo”, explica. As vendas para outros estados ainda não se consolidaram, mas suas criações já circularam em exposições e eventos.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Jovens adeptos da moda ecológica usam redes sociais para divulgar o movimento. Foto: Alice Leão

Consultoria e visão de futuro

Hoje, Dhey atua como consultora de inovação em design de moda sustentável para empresas e empreendedores, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Seu trabalho é voltado para o desenvolvimento de produtos duráveis e versáteis, como bolsas, coletes e aplicações decorativas, que unem funcionalidade e responsabilidade ambiental.

Além de orientar negócios, ela utiliza essa rede para fortalecer uma consciência coletiva sobre sustentabilidade e a necessidade de transformar hábitos de consumo, incentivando escolhas mais conscientes e de maior longevidade.

Ao longo de duas décadas de pesquisa, a designer acreana enfrentou um dos maiores desafios de quem trabalha com materiais sustentáveis: provar que o produto funciona. “As pessoas olham e não sabem se o material realmente vai resistir”, explica.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Proposta também inclui o reaproveitamento de peças, evitando o descarte delas. Foto: Alice Leão

Porém, o tempo de pesquisa permitiu que Dhey definisse o foco da nova fase de sua produção, que ficou em bolsas, coletes, corsets e aplicações em peças diversas, itens que se mostraram compatíveis com o material emborrachado criado a partir do látex.

A proposta é desenvolver produtos duráveis, funcionais e que não acabem descartados rapidamente. “Queremos que cada peça seja versátil, que faça sentido na vida da pessoa”, afirma.

A pesquisa também revelou novas possibilidades estéticas. Além das peças de vestuário, o material emborrachado mostrou potencial para decoração, ampliando o campo de atuação da designer.

“É algo que vai evoluindo. Depois de 20 anos, posso dizer que agora estamos prontos para empreender de verdade”, diz.

Atualmente, ela conta com uma rede maior de artesãos, que colaboram nas etapas de ecoprint, costura e upcycling, especialmente com o jeans, fibra resistente que o grupo faz questão de evitar que vá para o lixo.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Dhey explica que foram anos de estudo, adaptações e pesquisas para realmente oferecer peças viáveis. Foto: Alice Leão

A relação com o Sebrae também foi fundamental nesse processo. Dhey participou do primeiro grupo de moda da instituição no Acre e, anos depois, retornou a Rio Branco para atuar como consultora.

“O Sebrae é maravilhoso na minha vida. Hoje oferecemos consultorias em design de moda sustentável e inovação para indústrias, pequenos negócios e empreendedores que querem aprender novas técnicas”, explica.

Para ela, a discussão sobre sustentabilidade, praticamente inexistente quando iniciou sua pesquisa, tornou-se um caminho sem volta. “O mundo já está muito mais consciente. O futuro é agora”, afirma.

Ainda assim, Dhey acredita que a mudança depende de escolhas individuais. “As pessoas precisam repensar o consumo. Não comprar por comprar, mas escolher algo que faça sentido, que dure. É assim que preservamos o presente e preparamos um futuro melhor.”

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Designer passou a pensar em acessórios feitos com material sustentável. Foto: Alice Leão.

Juventude, moda e consciência ambiental

Aos 18 anos, Érica da Silva começa a trilhar seus primeiros passos no universo da costura. Iniciando agora no ramo, ela também participou da sessão de fotos vestindo peças produzidas com técnicas sustentáveis desenvolvidas na comunidade.

Para Érica, usar as roupas criadas a partir de látex, upcycling e ecoprint é uma experiência que vai além da estética. “É um estilo de roupa diferente, não tão comum na nossa sociedade, mas muito legal. Traz autenticidade e valoriza a cultura acreana”, afirma.

Inserida no ambiente da moda e já familiarizada com práticas de reaproveitamento, a jovem acredita que a sustentabilidade é um caminho inevitável.

“Eu gosto muito de modificar roupas em vez de jogar fora. Aquilo que não usamos mais, a gente doa. Mas muita gente ainda é negligente, queimando peças ou descartando sem pensar, enquanto outras pessoas realmente precisam”, observa.

Moda ecológica impulsiona consumo consciente e preservação ambiental

Até o fim do ano, Dhey pretende montar um desfile de moda com peças sustentáveis. Foto: Alice Leão

O estudante de educação física Jefferson Feltriny, de 20 anos, divide a rotina entre o estágio em uma academia e participações como modelo em projetos de moda sustentável. Ele já havia tido contato com o trabalho de Dhey quando participou do Mister Brasil, ocasião em que recebeu uma peça criada pela designer.

“Algumas roupas são específicas para ensaios e fotos, mas outras dá para usar no dia a dia. E o material que ela escolhe é ecológico, confiável e não agride o meio ambiente”, afirma.

Jefferson conta que abraçou a proposta desde o primeiro convite. “Para mim é uma honra estar com ela nesse trabalho”, diz. Com presença ativa nas redes sociais, ele também vê seu papel como multiplicador da mensagem. “Tudo que envolve meio ambiente é importante. A ideia da Dhey é justamente conscientizar as pessoas, e eu uso minha visibilidade para levar isso adiante.”

Para o jovem, a moda sustentável é um tema que precisa ganhar cada vez mais espaço. “É uma bandeira que eu levanto. Ajudar outras pessoas a repensarem o consumo é essencial”, afirma.

VER NA FONTE