O Pêndulo Sul-Americano e a Lição do Fio da Navalha no Peru – Diário do Amapá


 

Por Daniel Chaves

 

A recente eleição presidencial no Peru foi decidida por uma margem tão estreita que caberia, confortavelmente, na arquibancada de um estádio de futebol de médio porte. Keiko Fujimori assegurou a vitória no segundo turno com cerca de 50,1% dos votos válidos, superando Roberto Sánchez, que obteve 49,9%. A diferença real ficou abaixo da marca dos vinte mil votos — um contingente demográfico menor do que a população de um único bairro planejado de Macapá.

 

Para além do aperto estatístico, um detalhe inédito carrega um peso analítico formidável: o fiel da balança foi o voto dos peruanos residentes no exterior, majoritariamente concentrados em nações como o Japão e a China. Pela primeira vez na história eleitoral daquela república, o escrutínio da diáspora teve a força de reverter o resultado consolidado dentro das fronteiras nacionais.

 

Olhar os fatos friamente é premissa para evitar os caprichos do palpite. Esta foi a quarta tentativa de Keiko Fujimori, herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori, de alcançar a chefia de Estado. Sua plataforma, ancorada na ortodoxia de mercado e em uma retórica de “mão dura” contra a criminalidade, colidiu com o projeto de Sánchez, egresso da esquerda tradicional e defensor do alargamento da presença estatal na economia.

 

O desenho geográfico dos votos expõe as vísceras de um país profundamente cindido. Keiko estruturou sua vitória na capital, Lima, e nas províncias litorâneas, de perfil mais urbano e comercial. Sánchez, em contrapartida, arrebatou o sul andino, o eleitorado rural, a floresta e as zonas montanhosas. Trata-se do velho Peru partido em dois: a centralidade metropolitana de um lado e as periferias regionais historicamente esquecidas do outro. Contudo, cabe a ressalva jurídica: embora Keiko tenha sido declarada eleita, o desfecho formal ainda aguarda a análise de recursos interpostos perante a Justiça Eleitoral. É uma vitória que, por ora, deve ser anotada a lápis.

 

Quando distanciamos o foco do território peruano e passamos a observar a totalidade da América do Sul, a engrenagem regional revela-se com clareza. O fenômeno não é exclusivamente limenho. Na Argentina, o desenho reformista de Javier Milei vigora desde fins de 2023. No Chile, José Antonio Kast venceu o pleito e assumiu o Palácio de La Moneda em março deste ano, sucedendo o ciclo de esquerda de Gabriel Boric. Na Bolívia — terreno que acompanho de perto por dever de ofício acadêmico —, a eleição de Rodrigo Paz pôs fim a quase duas décadas de hegemonia ininterrupta do Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo Morales e Luis Arce. No Equador, Daniel Noboa obteve sua chancela de reeleição.

 

Somado a isso, o cenário colombiano adiciona a peça mais recente ao xadrez: há poucos dias, o direitista Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno e está referendado para substituir Gustavo Petro em agosto, enfrentando, de igual modo, contestações formais por parte da esquerda liderada por Cepeda.

 

Ao alinhar Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Peru e Colômbia, constata-se que, em um intervalo ligeiramente superior a 24 meses, o mapa político sul-americano operou uma transição cromática radical. A análise apressada — e frequentemente preguiçosa — apressa-se em diagnosticar uma “onda ideológica conservadora” que avassala o continente. Trata-se de uma leitura de superfície.

 

O traço de união entre essas realidades nacionais não é a súbita conversão doutrinária das massas à direita, mas sim a fadiga generalizada. A Bolívia rompeu sua hegemonia partidária sob o peso da pior crise econômica de uma geração, marcada por escassez de divisas, inflação crônica e desabastecimento de combustíveis. O Peru compareceu às urnas com um sistema partidário pulverizado em trinta e cinco candidaturas presidenciais no primeiro turno, resultando em índices alarmantes de votos nulos e absenteísmo: mais de sete milhões de cidadãos simplesmente ignoraram o chamado das urnas, a despeito da obrigatoriedade do sufrágio.

 

O que testemunhamos não é necessariamente um endosso entusiasmado aos programas da direita, mas sim o acionamento de um mecanismo de punição contra quem ocupa o poder de turno e falha em entregar estabilidade e bem-estar. Não se trata de uma onda oceânica, estável e perene; assemelha-se, antes, a um pêndulo rigoroso. O eleitorado latino-americano penaliza o governante de hoje — papel que cabia, majoritariamente, às coalizões progressistas no último ciclo — e fará o mesmo amanhã com os novos mandatários caso as respostas econômicas não se materializem.

 

As franjas desse movimento tocam diretamente as perspectivas brasileiras para o pleito de outubro. No Brasil, o governo em exercício detém a máquina, mas carrega o ônus inerente à vidraça da gestão pública. A mesmíssima régua de exigência e desgaste que solapou as bases governistas de Santiago a Bogotá operará no cenário nacional. A grande questão que o cenário andino e platino nos impõe é clara: estamos diante de uma guinada ideológica consciente ou assistimos à cobrança implacável de uma fatura social aos inquilinos do poder?

 



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