Profissionais femininas que trabalharam no set do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), denunciaram que tiveram de passar por revista íntima feita por seguranças homens. Quem revela a informação é Diego Velloso, delegado do Sated/SP (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo).
Em entrevista ao Notícias da TV, Velloso aponta essa como a denúncia mais incomum que já recebeu durante sua atuação na instituição. “Isso é um absurdo. Eles fizeram como se fosse uma revista em um presídio”, completa.
Outra prática incomum foi a proibição em torno dos celulares. Sem aviso prévio, os trabalhadores do set foram barrados de entrar com os aparelhos e também não receberam suporte para guardar o item. A justificativa era de evitar vazamentos. “Fica um clima de guerra fria, como se alguma coisa fosse acontecer, como se fosse um grande plano secreto”, diz o delegado.
Velloso realizou a fiscalização em uma filmagem externa em São Paulo, no dia em que foram realizadas cenas que retratam a facada que Bolsonaro levou durante a corrida presidencial de 2018.
Entre as irregularidades que ele testemunhou, estão a alimentação. Durante todo o dia de gravação, os trabalhadores teriam se alimentado de salgadinhos de festa e refrigerante. “Era uma fila enorme, parecendo um bandejão. As pessoas passavam na rua e comiam na mão, não tinha nem guardanapo. Era uma situação bem deplorável, tinha muita idosa, muito fã do Bolsonaro que recebeu chamado por grupo de WhatsApp e foi para lá”, relata Velloso.
Os pagamentos abaixo do teto e as jornadas de trabalho que chegavam a 14 horas também estão entre as denúncias. Os figurantes com registro profissional receberam um cachê de R$ 50, enquanto os demais tinham apenas o lanche como remuneração.
As denúncias foram apuradas tanto através de relatos quanto de mensagens e e-mails recebidos pelos profissionais. A produtora também não enviou os contratos ao sindicato.
Apesar de algumas situações peculiares, Velloso destaca que as denúncias de Dark Horse não diferem completamente de outras produções. “Teve uma repercussão por conta da polarização política em ano de eleição, mas são práticas que, muitas vezes, ocorrem em várias produções. Como, por exemplo, jornadas de trabalho exaustivas sem pagamento de horas extras ou falta de um camarim para se arrumar ou descansar.”
O que faz o Sated?
O sindicato foi fundado para defender os interesses dos trabalhadores da arte em diversos segmentos, inclusive técnicos e operacionais. Além de averiguar as irregularidades, a instituição também oferece apoio jurídico com auxílio de um escritório de advocacia, tanto nos casos individuais quanto nas denúncias coletivas, e ainda fornece apoio psicológico à classe.
O órgão atua com base na Lei Nº 6.533, de 1978, que discorre sobre a regulamentação das profissões de artista e de técnico em espetáculos de diversões. No entanto, a aplicação sofreu defasagens nos últimos anos por conta das contratações como pessoa jurídica.
“As profissões estão mais ‘PJotizadas’, então, vários direitos trabalhistas foram para o teto. Essa lei está com propostas para ser modificada e inserir esse tipo de contratação. Se não, cada uma das produtoras ou emissoras acaba fazendo o que quer”, explica Velloso.
Em dezembro, foi aprovada em São Paulo uma CCT (Convenção Coletiva de Trabalho), um acordo firmado entre o sindicato dos trabalhadores, no caso, dos artistas, e o sindicato patronal, o das produtoras. Velloso explica que qualquer produção realizada no Estado precisa seguir regras de pagamento, jornada de trabalho e condições de segurança, mesmo em regime de contratação de pessoa jurídica.