

A cena mais emblemática no fim de semana foi a de uma pequena aeronave que pousou no meio de uma estrada asfaltada no interior do Estado, no domingo, mais precisamente na Vicinal Tronco da região de Roxinho, no Município de Iracema, Centro-Sul do Estado. Não se trata necessariamente de uma novidade, mas foi a primeira vez que a ação foi registrada, em um episódio que mostra a audácia da ação do garimpo ilegal diante da força-tarefa que está em curso no combate a essa atividade ilícita.
O vídeo do avião foi feito por um condutor de carro que passava pelo local e precisou esperar a operação ilícita terminar para que ele pudesse seguir viagem. O autor do vídeo narra que a aeronave foi reabastecida de combustível e recebera uma carga de alimentos que muito provavelmente seria enviada para uma região de garimpo na Terra Indígena Yanomami, localizada nas proximidades daquela região.
Desde o auge do garimpo, há cerca de sete anos, essa cena era comum naquela região, com aviões pousando em vicinais de terra batida para pegar garimpeiros e cargas com alimentos para abastecer as frentes garimpeiras. E se intensificou a partir da atuação da Casa de Governo e das Forças Armadas que passaram a monitorar voos e a explodir pistas clandestinas no interior da terra indígena.
A partir daí, o garimpo ilegal passou a desafiar a fiscalização utilizando pistas clandestinas na zona rural da Capital e nos municípios localizados no entorno da Terra Yanomami, como Alto Alegre, Mucajaí e Iracema, cujas rotas passaram a ser controladas pelos criminosos, especialmente estradas não pavimentadas, conhecidas como vicinais, usadas para pouso e decolagem de aviões sem autorização a serviço da ilegalidade.
Essas estradas são importantes dentro desse contexto porque permitem acesso rápido às principais rodovias estaduais e federais que dão acesso não só à Capital, como também são saída para o Amazonas e outros países, como Venezuela e Guiana, por isso são essenciais não só para reabastecimento da estrutura de apoio ao garimpo ilegal, mas também para transporte clandestino de ouro retirado ilegalmente das terras indígenas.
Se os mantenedores do garimpo ilegal acham facilidade para burlar as ações fiscalizatórias, é de se imaginar que o narcotráfico também possa utilizar da mesma estratégia, mesmo que na região haja um trabalho da polícia rotineira, que não consegue estar presente nas extensas áreas daquela região que interliga os municípios vizinhos às áreas de garimpo ilegal na Terra Yanomami.
Há vários estudos que apontam a ação do narcogarimpo. A “Cartografias da violência na Amazônia”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2023, já assinalava as investidas dos grupos criminosos originários do Sudeste, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), facções estas que desde 2013 estavam de olho nas frentes de garimpagem em Roraima e Amazonas.
Naquela época, havia notícias de que integrantes do CV, em parceria com grupos locais, colombianos e peruanos, passaram a atuar nos rios Negro e Amazonas, além da vinculação com o tráfico no atacado da “maconha colombiana” (como é chamada o skunk) utilizando a estrutura logística das frentes de garimpagem na Terra Yanomami. Mais recentemente, a facção que passou a predominar nas periferias de Boa Vista, nas vicinais do interior de Roraima e em comunidades indígenas foi o PCC.
Logo, existe um grande contexto a ser observado por trás da cena do avião que pousou no meio da estrada do Roxinho. Há um forte poderio que não hesita em enfrentar as ações que estão em curso contra o garimpo ilegal e o narcogarimpo. Na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, na Comunidade da Raposa, os atores do garimpo ilegal já se recompuseram, depois das ações de repressão, inclusive compraram novos maquinários para retomar a garimpagem. É a força da ilegalidade desafiando o sistema.
*Colunista