Da Redação
Brasília – A decisão preliminar do Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR), anunciada nesta terça-feira (2), com recomendação para uma nova tarifa de 25% sobre exportações brasileiras repercute intensamente junto a especialistas em comércio exterior e a instituições do setor como “um movimento de pressão comercial e diplomática, mais do que como uma simples decisão tarifária”.
O entendimento é de que a iniciativa do governo americano tem grande potencial para criar desvantagens competitivas para diversos produtos exportados por empresas brasileiras para a maior potência econômica do planeta. Segundo uma especialista, a medida representa mais um ponto de desgaste nas relações entre os dois países.
Jackson Campos, especialista em comércio exterior, afirma que “a proposta vem dentro de uma investigação da Seção 301, que permite aos EUA reagirem a práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano, e mira temas como comércio digital, propriedade intelectual, acesso a mercado, etanol e desmatamento”. Além do componente eminentemente comercial, Jackson Campos sublinha que “o desenho da medida também é político, porque deixa fora produtos sensíveis para o consumidor americano, como carne, café, energia, terras raras e peças aeronáuticas”.
Em nota oficial divulgada nesta manhã, a Amcham Brasil aponta que “caso confirmadas, essas medidas aumentarão custos, reduzirão a competitividade e criarão obstáculos ao comércio e aos investimentos bilaterais”.
Para o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, “o relatório não é final e reforça que ainda há tempo para evitar a adoção de novas tarifas” e acredita que “o setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem os esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as questões em discussão, preservando as condições necessárias para a evolução do comércio e dos investimentos nos dois países”.
Ao mesmo tempo em que expressa apreensão com as tarifas anunciadas hoje, a Câmara de Comércio Americana no Brasil chama a atenção para outras medidas tarifárias que o governo americano poderá impor ao Brasil ainda sob a Seção 301. E ressalta que acompanha também a expectativa de divulgação, nos próximos dias, do relatório de outra investigação conduzida pelos Estados Unidos, vinculada a importações de produtos elaborados com trabalho forçado, que poderá resultar em tarifas adicionais para cerca de 60 países, incluindo o Brasil.
Especialista vê desgaste na relação bilateral
De acordo com Sara Paixão, Analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, “a medida já era esperada, uma vez que as investigações que deram origem a essa tarifação se iniciaram em julho de 2025. Em relação a prazos, as tarifas só iniciarão de fato no próximo dia 15 de julho, dependendo do resultado da consulta pública e de negociações realizadas pelo governo brasileiro”.
Sara Paixão menciona que “a medida conta com uma extensa lista de exceções, que inclui carnes, frutas, cereais, café, o que reduz os impactos sobre os setores exportadores brasileiros. Por isso, em termos econômicos, seu impacto deve ser limitado, tanto pelas exceções, quanto por medidas que já foram tomadas anteriormente para favorecer os setores com maior exposição aos Estados Unidos. Porém, esse representa mais um ponto de desgaste na relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos e os embates anteriores, como a mudança na classificação das facções brasileiras, pode dificultar as negociações”.
Segundo a Analista da InvestSmart XP, é importante estar atento ao fato de que “novamente, para justificar a tarifação, o governo americano citou como ameaça o comércio digital e serviços de pagamento, sendo principalmente o Pix, que já foi citado pelo presidente Donald Trump como um fator que pode prejudicar a concorrência de empresas financeiras americanas. Além disso, o documento menciona as ações judiciais sobre empresas americanas de mídia social”.
Comércio mais seletivo e caro
Por sua vez, Jackson Campos acredita que “se a tarifa entrar em vigor, o comércio bilateral fica mais seletivo e mais caro. Os produtos brasileiros que não foram excluídos perdem competitividade no mercado americano, porque passam a chegar aos EUA com custo maior frente a concorrentes de outros países. O impacto tende a ser mais forte em bens duráveis, químicos, manufaturados e produtos com menor margem. Ainda há a chance de reversão ou redução, porque haverá consulta pública e audiência antes da aplicação prevista para julho, mas o Brasil precisará atuar com diplomacia tecnica e política ao mesmo tempo”.
O especialista em comércio exterior vê na decisão do governo Trump de classificar como “terroristas” as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como um elemento a mais para dificultar a margem de manobra do governo brasileiro nas negociações que devem ser iniciadas em breve. Para ele, “o canal de diálogo ficou mais sensível porque o tema das facções foi recebido no Brasil como interferência política e gerou ruído diplomático. Isso dificulta a negociação, mas não elimina espaço par acordo. Em comércio exterior, muitas vezes a reversão vem por exceções, ajustes de lista, postergação ou negociação setorial. Portanto, a medida pode ser reduzida, calibrada ou adiada, mas dificilmente será revertida sem uma negociação direta e objetiva entre os dois governos”.
Impacto no setor calçadista
Os Estados Unidos são, destacadamente, o principal mercado para a indústria calçadista brasileira e a decisão anunciada pelo governo em Washington chega quando a Associação das Indústrias Calçadistas Brasileiras (Abicalçados) comemora a recuperação das exportações para os EUA no mês de abril, depois de sucessivos meses de queda. Em abril, as vendas para os EUA cresceram em pares embarcados (16,5%) e em receita (40,5%) e no primeiro quadrimestre do ano o segmento amarga uma queda de 18,9% em faturamento, apesar da alta de 7,8% em número de pares exportados para os americanos.
Nesse contexto, a decisão americana repercutiu negativamente no setor calçadista e segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, embora a decisão, seja passível de reversão, a medida gera apreeensão para a entidade e para o setor calçadista: “historicamente, os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. A medida é anunciada em um momento de recuperação, após queda do tarifaço de 50%, ocorrida no final de fevereiro. A possibilidade de nova tarifa adicional traz mais insegurança tanto para o exportador brasileiro quanto para o importador norte-americano. A iniciativa tem potencial de criar uma desvantagem competitiva para as exportações nacionais em benefício de outros exportadores para os Estados Unidos, em especial os asiáticos”.