Por ANDERSON MELO, de Macapá
O sonho da casa própria virou pesadelo (com perdão do clichê) para 15 famílias do Amapá. São servidores públicos, médicos, defensores públicos e professores que travam uma guerra judicial contra a Davar Construções, que não teria entregue imóveis contratados ainda em 2021. Segundo os relatos ao Portal SN, as vítimas recorreram a financiamentos bancários, enquanto outros investiram as economias de anos. No entanto, mesmo após os pagamentos, as casas nunca foram entregues. Procurada pela reportagem, a empresa se posicionou sobre o assunto negando que tenha aplicado golpes, mas admitiu os problemas para entregas os imóveis.
Um dos investidores lesados é um professor universitário que queria uma residência em um condomínio na zona oeste de Macapá. Segundo ele, a obra foi contratada em 2021, com prazo de entrega de 10 meses, mas acabou abandonada pela empresa. O contrato previa o repasse de R$ 600 mil e a família afirma ter pago cerca 88% do total.
“Desses R$ 600 mil, nós demos logo de início R$ 430 mil e depois fomos repassando outros valores. No total, nós chegamos a pagar R$ 537 mil. Só que esse valor não foi aplicado na obra. A casa só foi entregue levantada e rebocada. Não tinha hidráulico, elétrico, não tinha nada”, relatou o professor.

Pelo menos 15 famílias estão processando a empresa. Fotos: Anderson Melo/Portal SN
Segundo ele, a empresa abandonou definitivamente a construção em julho de 2023.
“Apesar da gente já ter pago 88% da obra, ele continuava pedindo dinheiro. E a gente percebia que a obra não andava mais. Eu vinha aqui e já não tinha trabalhador. Não tinha material. Foi aí que nós percebemos que tinha alguma coisa errada”, declarou.
Diferente de outras vítimas que ainda tentam buscar alternativas para retomar as construções com novas empresas, o professor universitário afirma não ter mais condições financeiras de concluir o imóvel. Ele afirma que vendeu veículos e utilizou economias acumuladas durante anos para investir. Todo o valor foi pago com recursos próprios, sem qualquer tipo de financiamento bancário.

Algumas tentaram reaver os valores investidos….

…mas só conseguiram parte do dinheiro
Abalo emocional e ostentação
Além do prejuízo financeiro, as vítimas relatam também o abalo emocional e o constrangimento. Por serem, em sua maioria, pessoas públicas e profissionais conhecidos em suas áreas de atuação, muitos preferem não ter as identidades reveladas. Outra vítima ouvida pelo Portal SelesNafes.Com é um servidor público que contratou a empresa para construir uma residência em um condomínio na Rodovia Josmar Chaves Pinto, também em 2021.
O servidor relata que investiu cerca de R$ 127 mil apenas na entrada da obra, valor que representava aproximadamente 20% do contrato total, estimado em quase R$ 800 mil. No entanto, após problemas envolvendo o financiamento bancário e atrasos no processo, ele decidiu rescindir o contrato e tentar recuperar o dinheiro investido.
Segundo o depoimento, a empresa chegou a firmar um acordo para devolução parcelada, mas os pagamentos foram interrompidos poucos meses depois. Das quantias investidas, apenas R$ 40 mil teriam sido devolvidos. Atualmente, o débito atualizado judicialmente ultrapassaria R$ 150 mil.
“Eu falei para ele: ‘cobra a multa e me devolve o restante’. Mas ele disse que não tinha dinheiro. Foi a primeira vez que eu percebi que realmente tinha alguma coisa errada. Porque, meses antes, ele falava que as coisas estavam boas, que a esposa estava andando de BMW branca”, relatou o servidor.

Famílias afirmam que empresa teria mudado de nome
O cliente diz que as redes sociais da família dono da empresa exibiam viagens frequentes e uma rotina incompatível com a situação financeira alegada pela empresa.
“Eles fizeram viagens pelo Brasil todo. Foram para Fortaleza, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Campos do Jordão. Iam para jogos da Libertadores, camarotes, hotéis caros. Tudo isso enquanto as pessoas estavam sem receber. A gente olhando aquilo e sem conseguir recuperar o dinheiro”, afirmou.
As vítimas também afirmam que, paralelamente ao aumento dos processos judiciais contra a Davar Construções, os sócios passaram a atuar por meio de uma nova empresa, a Davar Empreendimentos, registrada em nome do filho do proprietário da construtora.
As famílias afirmam que a nova empresa aparece atualmente ligada a obras públicas e não possui o mesmo volume de processos judiciais acumulados pela antiga construtora. Para os clientes que afirmam terem sido prejudicados, a empresa estaria sendo utilizada como uma forma de continuidade das atividades do grupo familiar e também para manter o padrão de vida ostentado nas redes sociais.
“O dinheiro ia para conta pessoal, para outra empresa, para PIX diferentes. E as obras não eram concluídas. Todos os pagamentos que eu fiz foram para a Davar Construções, mas os valores que ele me devolveu vieram da Davar Empreendimentos”, declarou uma das vítimas.

Casas sem acabamento e nem parte elétrica
As vítimas suspeitam que a nova estrutura empresarial esteja sendo usada para evitar bloqueios judiciais e permitir a continuidade das atividades financeiras da família, enquanto clientes seguem tentando recuperar os prejuízos na Justiça.
“Eles continuam viajando, ostentando, enquanto as vítimas não conseguem receber. É uma vida totalmente incompatível com quem diz que não tem dinheiro para pagar os clientes”, afirmou o servidor público.
Avalanche de processos
Levantamento realizado em consultas públicas aponta que a empresa já acumula ao menos 107 processos judiciais, sem contar ações que tramitam em segredo de Justiça. A maioria apresenta denúncias semelhantes, como abandono de obras, descumprimento contratual e ausência de devolução dos valores pagos pelos clientes. As vítimas agora aguardam decisões da Justiça na tentativa de reaver o dinheiro investido e responsabilizar a empresa pelos prejuízos causados.
Sem má-fé
Procurado pela reportagem, o empresário Alfredo Cesar Ferreira da Silva Júnior afirmou que a paralisação das obras ocorreu por conta da alta no custo da construção civil nos últimos anos.
“Quando a gente fechou esses contratos, o valor dos materiais era um. Depois disso tudo aumentou muito. Aço, cimento, fiação, tudo disparou. Chegou num ponto em que o valor do contrato já não conseguia mais cobrir os custos da obra”, afirmou.
“Não teve má-fé, não teve intenção de pegar dinheiro de ninguém e sumir. As obras começaram, teve investimento, teve material colocado. O problema é que a situação financeira ficou insustentável. Hoje a empresa também tem um passivo trabalhista muito grande, de mais de R$ 1 milhão” declarou.