O silêncio que adoece…



No consultório ginecológico, algumas perguntas fazem parte da rotina. Elas ajudam a compreender a história da paciente, identificar fatores de risco e orientar o cuidado. Entre elas, uma é aparentemente simples: “Com que idade ocorreu sua primeira relação sexual?”Na medicina, esse dado é chamado de sexarca.Mas, ao longo dos anos, aprendi que essa pergunta pode abrir uma porta para histórias profundamente dolorosas. Por isso, logo em seguida, faço outra questão: “Foi uma experiência consentida?”Muitas vezes, é nesse momento que o silêncio se instala. Os olhos se enchem de lágrimas. A voz falha. E, de repente, a paciente revela algo que esteve guardado por décadas: o abuso sexual sofrido na infância ou na adolescência.Infelizmente, essa realidade está longe de ser rara.No consultório, a vivência confirma aquilo que as estatísticas já demonstram. Em grande parte dos casos, o agressor não é um estranho. É alguém próximo: um tio, padrasto, avô, vizinho, amigo da família ou qualquer pessoa que se aproveita da confiança e da vulnerabilidade de uma criança.O abuso sexual infantil não termina no momento em que ocorre. Ele se prolonga no tempo, deixando marcas emocionais e físicas que podem acompanhar a mulher por toda a vida.Medo, vergonha, culpa e até nojo do próprio corpo são sentimentos frequentemente relatados. Muitas vítimas crescem acreditando que foram responsáveis pelo que aconteceu. Outras enterram essa memória tão profundamente que só conseguem falar sobre ela muitos anos depois, em um…



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