Há uma máxima no jornalismo que diz que “nunca se deve começar um texto com datas”. Inclusive, brinca-se que só é válido quando for a cobertura do fim do mundo, e geralmente completa-se: “Ontem, o mundo acabou”.
O jornalismo acreano, ontem, fez uma exceção. Não na escrita, propriamente dita, mas na vida. Por isso, acho que devemos, apenas desta vez, fazer uma leve mudança.
Nesta terça-feira (5), o Acre viveu um dos piores momentos de sua história recente. Um adolescente de 13 anos levou à escola uma arma, pertencente ao padrasto, e matou duas inspetoras do Instituto São José.
Um colégio conhecido, inclusive, pela boa educação e bom ambiente. Um lugar que, até esta fatídica terça-feira, até este dia 5 de maio de 2026, jamais havia vivenciado algo tão tenebroso. Tão próximo daquilo que acreditamos ser, afinal de contas, o fim do mundo.
Alzenir, inspetora da escola há décadas, não imaginaria, certamente, que um dos seus pequenos, um daqueles que cuidava com zelo e com esmero, pudesse cometer algo tão cruel, tão animalesco e, ao mesmo tempo, tão frio.
Raquel não imaginaria, ao acordar na manhã do 5 de maio de 2026, que perderia a vida para tentar salvar a de outras crianças. Inúmeras. Muitas. Assistindo àquilo como se fosse uma versão ao vivo de Tiros em Columbine, só que em Rio Branco.
As próprias crianças, que teriam mais um dia comum e importante das suas existências, não sabiam que viveriam um dia traumático. Um dia que entraria para a história, e não de um modo bom. Seria relembrado como algo triste, vil e dolorido.
Os jornalistas não imaginavam que, talvez, tivessem de alterar o lead. Porque, certamente, acreditavam que as regras deveriam ser seguidas à risca.
Quem espera, afinal de contas, cobrir o fim do mundo?
E por que este não seria o fim do mundo? O mundo de Raquel acabou; o de Alzenir, também. A memória mais leve daquelas crianças, de uma vida tranquila, também partiu. Muitos mundos acabaram nesta terça-feira, na verdade.
É necessário — para anteontem — que consigamos sentar e encontrar uma solução para problemas como este. Além disso, precisamos questionar o que levou aquele adolescente a tomar uma atitude tão impensada. O que esse pequeno consumia? Com quem conversava?
Quando foi que ele achou pertinente, aos 13 anos — importante enfatizar: 13 anos —, que seria possível fazer algo tão atroz?
Em coletiva de imprensa concedida ainda ao final da tarde desta terça-feira, o governo do Acre enfatizou que o adolescente se entregou ao quartel-general. Nas palavras da comandante-geral da Polícia Militar, Marta Renata: “Ele confessou de modo articulado, com nervosismo, claro, mas articulado” o que fez. Disse que havia sido ele. Não mencionou arrependimentos.
Em alguns áudios que acabaram viralizando nas redes, pessoas que supostamente estiveram com o menino relatam que o adolescente explicou com detalhes o que ocorreu: como as duas inspetoras não saíam da frente dele, ele as matou, tendo como objetivo alcançar a diretora e, por fim, adentrar na sala onde estudava.
O que um garoto de 13 anos tem visto para ter um pensamento como este? Pior: o que nós, enquanto sociedade, estamos ofertando à adolescência atual?
Estas falas, de modo algum, anulam o feito — e, inclusive, a culpa — do adolescente. Mas temos de compreender que, se ele fez isso, algo de errado aconteceu. O quê? Por que? Quando? Onde? Como? Quem?
De novo. As perguntas que todo jornalista responde ao escrever suas matérias e notícias deveriam ser feitas socialmente: o que devemos fazer? Quando a infância chegou a este patamar? Onde? Por quê? Principalmente: por quê?
Que as famílias enlutadas tenham conforto; os alunos, o acalento; a escola, o apoio; a comunidade, a reflexão. E, à sociedade, fica o questionamento: por quê? Mais importante: como mudar isso?