
Evandro Luiz
Da Redação
No Maruanum, o tempo não se mede em horas. Ele escorre lento, como o barro úmido entre os dedos das mulheres que aprenderam, desde cedo, a ouvir a natureza antes mesmo de moldá-la.
Ali, o rio dita o ritmo, o sol marca o compasso, e a terra — silenciosa e generosa — guarda histórias que só se revelam a quem sabe tocar com paciência. É nesse cenário que as louceiras vivem. Não apenas trabalham: vivem o barro.
Panelas, cuias, potes, xícaras e travessas nascem de mãos calejadas, mas firmes. Cada peça carrega mais do que forma e utilidade — carrega lembranças, vozes antigas, gestos repetidos por gerações. É como se, a cada curva desenhada, uma memória fosse resgatada.
Dizem que o barro tem vontade própria. Talvez por isso seja preciso respeito. Talvez por isso o ofício não se aprenda apenas com técnica, mas com convivência, escuta e tempo.
A maioria ali conhece o peso das dificuldades. Histórias de luta não são exceção — são regra. Ainda assim, foi na própria natureza que encontraram não apenas sustento, mas uma forma de permanecer de pé.
Mariquinha sabe disso.
Nem sempre o barro foi abrigo. Houve um tempo em que tudo parecia ruir por dentro. Foi nesse intervalo — entre a dor e a tentativa de seguir — que ela se aproximou daquilo que, mais tarde, a reconstruiria.
Com a avó ao lado, começou tímida. As primeiras peças carregavam mais insegurança do que forma. Mas o barro ensina. E ensina sem pressa.
Aos poucos, Mariquinha percebeu que não estava apenas moldando objetos. Estava organizando o próprio silêncio. Cada peça pronta era, também, uma parte de si que encontrava lugar.
O que começou como tentativa virou refúgio. O que era refúgio virou caminho.
Hoje, quando suas mãos encontram o barro, já não há hesitação. Há reconhecimento. Como se ali estivesse algo que sempre foi seu, apenas esperando o momento certo para emergir.
No Maruanum, nenhuma louceira é igual à outra. Cada uma carrega suas razões, suas crenças, suas histórias. Mas há algo que as une — uma espécie de pacto silencioso com a terra, com o tempo e com aquilo que não se vê, mas se sente.
Falam da “mãe do barro” com respeito. Não como metáfora, mas como presença.
E talvez seja isso que sustente tudo: a ideia de que tradição não é passado — é continuidade.
As mais velhas observam as mais novas com um misto de cuidado e esperança. Querem que o ciclo não se quebre. Querem que o barro continue sendo mais do que matéria — que siga sendo identidade.
Porque, no fim, não são apenas louças que se moldam ali.
São vidas.
E enquanto houver mãos dispostas a aprender, o Maruanum continuará existindo — não apenas no mapa, mas naquilo que resiste ao tempo: a memória viva de quem transforma terra em sentido.
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