No Acre, rede de supermercados antecipa debate nacional e testa escala 5×2: “decidimos não esperar”


O Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, celebrado nesta sexta-feira, 1° de maio, tem um sabor especial para algumas dezenas de colaboradores da Rede Arasuper. Enquanto o Congresso Nacional ainda ensaia os primeiros passos para discutir o fim da jornada 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso), o empresário Adem Araújo decidiu não esperar a canetada de Brasília para testar o que muitos consideram o futuro das relações trabalhistas: a escala 5×2.

A mudança, que começou de forma silenciosa em abril na unidade da Isaura Parente (Loja do Bosque), em Rio Branco, coloca o Acre no centro de um debate que move o país. Pela primeira vez em uma grande operação de varejo no estado, 46 operadores de caixa passaram a usufruir de dois dias de folga na semana.

Em entrevista exclusiva ao portal A GAZETA, Adem Araújo revelou que a decisão foi motivada pela observação atenta do cansaço físico e mental das equipes e pelo movimento que tomou conta das redes sociais e das ruas nos últimos meses.

“Estamos acompanhando um movimento que já ganhou força nacional. Diante desse cenário, optamos por não esperar e decidimos nos antecipar e testar, na prática, o modelo 5×2 dentro da nossa operação”, explica o empresário e proprietário de umas das redes de supermercados mais conhecidas do estado.

Para Adem, o foco não é apenas operacional, mas humano. O setor de supermercados é conhecido por jornadas exaustivas e escalas rígidas, o que muitas vezes afasta novos talentos.

No Acre, rede de supermercados antecipa debate nacional e testa escala 5x2: “decidimos não esperar"
Adem Araújo acredita que a medida vai retornar em mais produtividade (Foto: Arquivo Pessoal)

“A proposta é clara: proporcionar mais qualidade de vida, equilíbrio emocional e tempo com a família, entendendo que esse cuidado com as pessoas reflete diretamente na performance dentro da empresa”, revelou o empresário.

Como funciona o teste

O projeto-piloto completou 30 dias na frente de caixa da loja do Bosque. Segundo a direção da rede, o período serviu para avaliar se a loja conseguiria manter o padrão de atendimento sem aumentar o quadro de funcionários de imediato, focando na redistribuição das tarefas e na eficiência.

Os resultados positivos já impulsionam a expansão. A partir deste mês de maio, o modelo 5×2 avança para as unidades Aramix Jardim Alah, Betel e Tangará. O plano é ambicioso: se os indicadores de produtividade e satisfação continuarem subindo, a escala será levada para todos os setores e lojas da rede.

“Sabemos que, no curto prazo, essa mudança pode impactar a nossa operação, mas a expectativa é que, com colaboradores mais satisfeitos e descansados, tenhamos ganhos consistentes em produtividade. É uma construção responsável”, pontua o empresário.

Proposta pelo fim da 6×1

A iniciativa do Arasuper acontece em um momento no qual a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa acabar com a escala 6×1 ganha tração no Congresso Nacional. O movimento, impulsionado pelo grupo “Vida Além do Trabalho” (VAT), argumenta que a folga única semanal é insuficiente para a recuperação plena do trabalhador.

Enquanto o Arasuper avança na prática, o debate em Brasília segue o rastro das assinaturas e do apoio parlamentar para que o projeto ganhe fôlego nas comissões.

A proposta central foca na redução da jornada de 44 para 36 horas semanais, sem qualquer corte nos salários, um ponto que gera resistência em setores da indústria e do comércio tradicional devido ao temor pelo aumento de custos. No entanto, o pioneirismo acreano surge como um contra-argumento real, provando que o setor de serviços pode, sim, encontrar caminhos viáveis e sustentáveis por meio de uma gestão estratégica e humanizada.

Além do bem-estar, a medida ataca um problema crônico do varejo: o absenteísmo (faltas) e a rotatividade de funcionários. Ao oferecer uma escala mais atrativa, o Arasuper espera se tornar o destino preferencial de bons profissionais no estado. “É alinhar resultado operacional com valorização das pessoas”, finaliza Adem Araújo.



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