
O português está em constante transformação — e, mais uma vez, a língua acompanha de perto as mudanças culturais, sociais e tecnológicas. Um novo grupo de palavras passa agora por um verdadeiro “processo seletivo” para conquistar espaço definitivo no Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (Volp), mantido pela Academia Brasileira de Letras (ABL).
Entre os termos candidatos estão expressões que já circulam com frequência no cotidiano, na mídia e nas redes sociais, mas que ainda aguardam reconhecimento formal. É o caso de cordelteca, que define uma coleção ou espaço dedicado à guarda e divulgação da literatura de cordel — manifestação tradicional da cultura popular nordestina.
Outro destaque é marmitório, usado para descrever locais de refeição simples, geralmente frequentados por trabalhadores que levam marmita ou buscam comida pronta a preços acessíveis. Já enredista nomeia quem cria narrativas, seja para novelas, peças ou até desfiles de Carnaval, consolidando uma função criativa cada vez mais reconhecida.
No campo social, termos como parditude ganham relevância ao dialogar com debates raciais contemporâneos no Brasil, abordando identidade e pertencimento. Já policrise reflete um mundo em que diferentes crises — econômicas, ambientais e sociais — se sobrepõem e se influenciam mutuamente.
Expressões mais informais também aparecem na lista, como mi-mi-mi, utilizada para caracterizar reclamações consideradas excessivas, e pesquisável, adjetivo que indica algo que pode ser investigado ou analisado — especialmente útil em contextos acadêmicos e digitais.
Segundo especialistas, a inclusão de novas palavras no Volp não acontece de forma imediata. Os lexicógrafos avaliam critérios como frequência de uso, estabilidade e relevância social dos termos. O processo é criterioso, mas também busca manter o vocabulário alinhado com a realidade dos falantes.
Em 2025, por exemplo, palavras como “pejotização” — prática de contratar trabalhadores como pessoa jurídica — e “terrir”, que mistura terror e humor em obras audiovisuais, passaram pelo mesmo crivo e foram oficialmente incorporadas.
A possível entrada dos novos termos reforça o caráter dinâmico da língua portuguesa. Mais do que regras fixas, o idioma se constrói diariamente nas ruas, nas telas e nas interações sociais — e o Volp funciona como um retrato, ainda que seletivo, desse movimento contínuo.