
Cléber Barbosa
Da Redação
Diário do Amapá – Marcelo, para começarmos, como você avalia o momento atual da mineração no Brasil e como isso se conecta com o Amapá?
Marcelo Velazquez – Primeiro é um prazer participar aqui e poder conversar sobre um tema tão importante para o nosso estado. Eu acho que a mineração precisa ser analisada em duas escalas: primeiro no contexto do Brasil e depois olhando especificamente para o Amapá. No Brasil, a mineração continua sendo uma atividade econômica estratégica. Segundo dados recentes do IBRAM, o setor mineral brasileiro faturou quase R$ 300 bilhões em 2025, arrecadou cerca de R$ 7,9 bilhões em CFEM e tem uma previsão de investimentos de aproximadamente US$ 76,9 bilhões entre 2026 e 2030. Então, quando falamos de mineração, não estamos falando de uma atividade isolada. Estamos falando de uma cadeia econômica completa, que envolve pesquisa mineral, licenciamento ambiental, engenharia, operação de mina, beneficiamento, transporte, energia, porto, exportação, impostos, CFEM, empregos diretos e indiretos, fornecedores e desenvolvimento regional.
Diário – E a realidade local atualmente Marcelo?
Marcelo – Trazendo isso para o Amapá, o estado tem uma vocação mineral histórica muito clara. Nós temos ouro, ferro, cromo, caulim, minerais industriais e outros potenciais minerais ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento. O desafio é transformar esse potencial geológico em projetos licenciados, responsáveis, competitivos e capazes de gerar riqueza dentro do próprio estado. Eu diria que o Amapá vive hoje um momento de oportunidade. Não é uma euforia, não é algo automático, mas existe uma movimentação real de vários projetos minerais em diferentes fases: alguns em operação, alguns em retomada, outros em licenciamento e outros buscando investimento.
Diário – Amapá tem vocação para mineração?
Marcelo – Sem dúvida. O Amapá tem uma história mineral muito forte. A própria formação econômica de regiões como Serra do Navio, Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Mazagão, Calçoene e Vitória do Jari tem relação direta ou indireta com a atividade mineral.
Historicamente, o estado teve ciclos importantes de manganês, ouro, ferro, caulim e cromo. A mineração ajudou a formar cidades, gerar empregos, atrair infraestrutura e movimentar a economia. Mas é importante dizer que potencial mineral, sozinho, não gera desenvolvimento. O que gera desenvolvimento é projeto bem estruturado, com licença, investimento, engenharia, controle ambiental, logística, mercado e capacidade de operação. O Amapá já provou que tem capacidade de produzir minério em escala. Agora o desafio é construir um novo ciclo mineral mais moderno, mais responsável e mais integrado ao desenvolvimento do estado.
Diário – Do ponto de vista geológico, por que o Amapá tem potencial mineral e, ao mesmo tempo, por que é tão difícil fazer pesquisa mineral na Amazônia?
Marcelo – Essa é uma curiosidade muito interessante. A Amazônia que a gente vê hoje nem sempre foi assim. Ao longo da história geológica, antes da configuração atual, existiram fases em que a drenagem da região amazônica tinha outro comportamento, inclusive com fluxo preferencial para oeste, em direção ao Pacífico. Com o soerguimento da Cordilheira dos Andes, esse sistema foi sendo bloqueado, houve períodos de grandes áreas alagadas e, posteriormente, ocorreu uma reorganização da drenagem, até o Rio Amazonas passar a escoar para leste, em direção ao Oceano Atlântico.
Diário – O que o senhor enxerga como futuro da mineração no Amapá?
Marcelo – Eu vejo que o futuro da mineração no Amapá precisa ser diferente dos ciclos antigos. Não basta apenas extrair minério e mandar embora. O estado precisa buscar mais agregação de valor. Isso passa por beneficiamento, concentração, metalurgia, siderurgia, produção de ligas, aproveitamento de resíduos, produção de remineralizadores e integração com outras cadeias econômicas. Também é fundamental ampliar a participação de empresas locais, fornecedores locais e trabalhadores amapaenses. A mineração precisa gerar emprego direto, mas também precisa gerar demanda para transporte, manutenção, alimentação, hotelaria, serviços, engenharia, laboratórios, oficinas, consultorias e comércio. Outro ponto importante é a aplicação da CFEM. A Compensação Financeira pela Exploração Mineral precisa ser bem utilizada pelos municípios e pelo estado, preferencialmente em infraestrutura, educação, saúde, qualificação profissional, diversificação econômica e melhoria da qualidade de vida. A mineração pode ser uma alavanca de desenvolvimento, mas isso depende de gestão pública, responsabilidade empresarial e planejamento de longo prazo.
Perfil
Marcelo Valazquez – Possui graduação em Engenharia de Produção e vasta experiência em projetos de mineração no país e no exterior.
Compensações
A CFEM é a Compensação Financeira pela Exploração Mineral. Para facilitar o entendimento, ela pode ser comparada aos royalties da mineração.
A distribuição geral é feita da seguinte forma: 60% ficam com o município produtor, 15% vão para o estado, 15% vão para municípios afetados pela atividade mineral e 10% ficam com a União e órgãos federais.
Isso é muito importante para o Amapá, porque a mineração não impacta apenas o município onde está a mina. Ela também impacta municípios por onde passam caminhões, estradas, ferrovias, minerodutos, portos, estruturas de apoio e cadeias logísticas.
Mas, na minha visão, o ponto principal não é apenas receber CFEM. O ponto principal é usar bem esse recurso.
Mercado mineral
– O Amapá não pode abrir mão da sua vocação mineral, mas também não pode repetir erros do passado.
O estado tem potencial geológico, tem história mineral, tem porto, tem projetos em andamento e tem uma oportunidade real de retomada. Mas essa retomada precisa ser construída com responsabilidade.
O caminho é uma mineração moderna, licenciada, segura, ambientalmente responsável, com agregação de valor, geração de empregos, fortalecimento de fornecedores locais, uso adequado da CFEM e compromisso com as comunidades.
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