Descoberta de novas espécies de escorpião em Roraima amplia conhecimento sobre a biodiversidade da região


Duas novas espécies de escorpiões foram descobertas em uma área de floresta na região de Mucajaí, a cerca de 60 quilômetros de Boa Vista, em Roraima. Os exemplares, encontrados próximos à Cachoeira do Evandro, permaneciam desconhecidos pela ciência até serem coletados por pesquisadores brasileiros em expedições recentes na Amazônia.

As espécies foram nomeadas Brotheas cernii e Cayooca puchus e representam um avanço importante para o conhecimento da fauna de aracnídeos da região Norte do país. O estudo foi liderado pela professora Manuela Berto Pucca, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e acaba de ser publicado na revista Diversity.

Floresta, isolamento e espécies inéditas

Segundo os pesquisadores, os escorpiões foram encontrados em um ambiente de inselberg — formações rochosas isoladas que funcionam como “ilhas ecológicas” dentro da floresta. Esse isolamento ao longo de milhares de anos favorece o surgimento de espécies altamente adaptadas e, muitas vezes, exclusivas de pequenas áreas.

Durante as coletas, a equipe identificou características morfológicas incomuns, como variações de coloração, tamanho corporal e granulação das pinças, o que levantou a hipótese de se tratar de espécies ainda não descritas.

“Os achados demonstram o quanto a floresta Amazônica, especialmente em estados como Roraima, ainda é pouco explorada cientificamente”, afirma Pucca. “Se encontramos duas espécies inéditas em uma única região, quantas outras ainda existem sem conhecimento da ciência?”

O trabalho de confirmação das espécies levou anos. As primeiras expedições à região começaram em 2016, quando a pesquisadora ainda atuava na Universidade Federal de Roraima (UFRR). Desde então, equipes retornaram diversas vezes ao local para coletar indivíduos em diferentes fases de desenvolvimento.

A validação científica envolveu análises morfológicas detalhadas realizadas pelo professor André Lira, com confirmação posterior de especialistas como Antônio D. Brescovit e Edmundo González-Santillán.

“O reconhecimento de uma nova espécie exige um conjunto robusto de evidências e validação independente. É um processo rigoroso e minucioso”, explica Pucca.

Um dos desafios da pesquisa foi manter os animais vivos em laboratório. Segundo a equipe, mesmo com a tentativa de reproduzir temperatura, umidade e condições naturais da floresta, os escorpiões apresentam baixa resistência ao cativeiro.

“São animais altamente especializados e adaptados a um ambiente muito específico”, destaca a pesquisadora.

Homenagens nos nomes científicos

A escolha dos nomes das espécies também carrega significados pessoais e científicos. Brotheas cernii homenageia o pesquisador e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Felipe Augusto Cerni, além de sua família, que participou das expedições.

Já Cayooca puchus faz referência à expressão espanhola “pucheros”, associada a surpresa ou espanto, em alusão à reação de um dos pesquisadores ao identificar a espécie inédita.

Potencial farmacológico ainda a ser explorado

Além do impacto taxonômico, a descoberta abre caminho para novas pesquisas em bioprospecção. A equipe já iniciou estudos com os venenos das espécies recém-identificadas, buscando moléculas com potencial aplicação farmacêutica e biotecnológica.

Os escorpiões produzem toxinas altamente especializadas, desenvolvidas ao longo da evolução para imobilizar presas. Essas substâncias podem servir de base para o desenvolvimento de novos medicamentos, além de alternativas para inseticidas biológicos mais seguros.

O projeto integra a iniciativa AT-Biota: Desvendando a Riqueza Oculta de Aracnídeos e Triatomíneos em Regiões Inexploradas dos Biomas Brasileiros, coordenado por Pucca e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

A descoberta reforça o quanto a Amazônia ainda guarda territórios pouco explorados pela ciência — e como esses ambientes podem esconder não apenas novas espécies, mas também potenciais soluções para a medicina do futuro.



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