Embaixador Mohammad Ali bin Selamat (*)
Em um mundo cada vez mais interconectado, porém fragmentado, no qual tensões geopolíticas, interrupções nas cadeias de suprimentos e a competição tecnológica estão remodelando o comércio global, a Malásia, o Brasil e a ASEAN têm a oportunidade de demonstrar o valor de parcerias resilientes, mercados abertos e uma cooperação Sul-Sul pragmática.
À medida que os países buscam diversificar suas relações econômicas e fortalecer sua resiliência diante de choques externos, a crescente parceria entre a Malásia e o Brasil oferece um ótimo exemplo de como potências médias podem trabalhar juntas para criar novas oportunidades entre diferentes regiões.
Uma Parceria Bilateral Resiliente
O Brasil é o segundo maior parceiro comercial da Malásia na América Latina e responde por mais de 66% do comércio total da Malásia com o MERCOSUL. O comércio bilateral cresceu 16,6% em 2024, alcançando US$ 4,46 bilhões (R$ 24,53 bilhões). Mesmo com a moderação da atividade econômica global em 2025, o intercâmbio comercial permaneceu resiliente, atingindo US$ 3,97 bilhões (R$ 21,84 bilhões), evidenciando a profundidade estrutural da relação.
A Malásia exporta para o Brasil produtos manufaturados de alto valor agregado, especialmente bens elétricos e eletrônicos (E&E), máquinas, componentes automotivos, equipamentos ópticos e científicos, além de oleoquímicos avançados. O Brasil, por sua vez, desempenha um papel fundamental no apoio à segurança alimentar e de recursos da Malásia.
A próxima fase dessa cooperação concentra-se cada vez mais em tecnologia verde, diversificação das cadeias de suprimentos de semicondutores, energia renovável, manufatura avançada e na conexão do setor do agronegócio brasileiro com o ecossistema halal da Malásia, reconhecido mundialmente.
O que começou como uma relação comercial complementar está evoluindo para uma parceria mais ampla, baseada em inovação, sustentabilidade e resiliência econômica de longo prazo.
A Economia da Malásia Ganha Impulso
A economia da Malásia expandiu-se 5,4% no primeiro trimestre de 2026, impulsionada pela forte demanda doméstica, gastos das famílias, condições favoráveis do mercado de trabalho e crescimento contínuo dos investimentos.
O Índice Global de Oportunidades 2026 do Milken Institute classificou a Malásia como o principal destino emergente de investimentos do Sudeste Asiático e o 23º do mundo, destacando instituições sólidas, um setor financeiro bem desenvolvido e fundamentos macroeconômicos consistentes.
O setor manufatureiro do país continua se beneficiando do aumento da demanda global por produtos elétricos e eletrônicos relacionados à inteligência artificial, semicondutores, eletrônicos automotivos e infraestrutura de data centers. O Banco Central da Malásia (Bank Negara Malaysia) projeta crescimento entre 4% e 5% para o ano, enquanto o Fundo Monetário Internacional revisou recentemente para cima a previsão de crescimento do país em 2026, para 4,7%.
O setor externo da Malásia também alcançou níveis históricos em abril de 2026. O comércio total cresceu 28,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo RM 336,73 bilhões (R$ 7,75 bilhões), o maior valor mensal já registrado. As exportações aumentaram 36,9%, alcançando RM 182,74 bilhões (R$ 237,56 bilhões), marcando dez meses consecutivos de crescimento.
As exportações de produtos elétricos e eletrônicos cresceram 46,4%, chegando a RM 88,16 bilhões (R$ 114,61 bilhões), representando quase metade das exportações totais. O superávit comercial acumulado da Malásia entre janeiro e abril de 2026 dobrou em relação ao ano anterior, atingindo RM 91,92 bilhões (R$ 119,50 bilhões), enquanto o comércio total ultrapassou RM 1 trilhão (R$ 1,30 trilhão) nos primeiros quatro meses do ano.
Esses resultados refletem não apenas um forte desempenho econômico, mas também a contínua integração da Malásia às cadeias globais de valor, especialmente nos setores de alta tecnologia.
Brasil e ASEAN: Uma Relação Estratégica
O comércio entre o Brasil e a ASEAN expandiu-se mais de dezesseis vezes nos últimos vinte e cinco anos, ultrapassando US$ 37 bilhões (R$ 203,50 bilhões) em 2024 e tornando a ASEAN um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil no mundo.
Um marco importante ocorreu em 2022, quando o Brasil tornou-se oficialmente Parceiro de Diálogo Setorial da ASEAN, reforçando seu engajamento estratégico com o Sudeste Asiático.
Com uma população combinada superior a 670 milhões de pessoas e algumas das economias mais dinâmicas do mundo, a ASEAN oferece oportunidades significativas de cooperação em segurança alimentar, desenvolvimento sustentável, transformação digital, transição energética e indústrias relacionadas ao clima.
Os dados comerciais da Malásia de abril de 2026 demonstraram ainda mais o dinamismo econômico da ASEAN. As exportações para todos os Estados-membros registraram crescimento de dois dígitos, incluindo Vietnã (+65%), Camboja (+73,1%) e Brunei (+52,7%).
Além da economia, Malásia e Brasil compartilham outra característica importante. Ambos são potências médias influentes, com visão global e forte compromisso com o multilateralismo, o diálogo e a cooperação internacional. À medida que o sistema internacional se torna mais fragmentado, a cooperação entre países que valorizam a abertura, a resiliência e o engajamento construtivo torna-se cada vez mais relevante.
A distância entre Kuala Lumpur e Brasília pode ser considerável, mas os interesses estratégicos da Malásia, do Brasil e da ASEAN nunca estiveram tão próximos.
Turismo, Economia Halal e Soft Power
O turismo continua sendo um importante pilar do engajamento internacional da Malásia. O país recebeu aproximadamente 25 milhões de visitantes internacionais em 2024 e atualmente promove a campanha Visit Malaysia 2026.
Portadores de passaporte brasileiro desfrutam de entrada sem necessidade de visto na Malásia e podem conhecer um país reconhecido por sua diversidade cultural, hospitalidade de classe mundial, infraestrutura moderna e ricas atrações naturais. De locais reconhecidos como Patrimônio Mundial da UNESCO a ilhas tropicais, cidades vibrantes e destinos de ecoturismo, a Malásia oferece uma experiência asiática única.
A economia halal representa outra importante via de cooperação
A Malaysia International Halal Showcase (MIHAS 2026), programada para ocorrer entre 23 e 26 de setembro de 2026, em Kuala Lumpur, continua sendo uma das principais feiras globais do setor halal.
A edição anterior gerou mais de US$ 1,3 bilhão (R$ 7,15 bilhões) em oportunidades de negócios, atraiu mais de 50 mil visitantes e contou com 2.400 estandes de 80 países. Além de alimentos e bebidas, a MIHAS abrange os setores farmacêutico, cosmético, finanças islâmicas, tecnologia verde, moda e logística halal.
Para empresas brasileiras dos setores de agronegócio, alimentos, farmacêutico e cosméticos, a MIHAS oferece acesso direto aos mercados da ASEAN, do Oriente Médio e de outras regiões em rápido crescimento, por meio de parcerias empresariais, certificações e redes globais de compradores.
O Brasil ajuda a alimentar o mundo, enquanto a Malásia ajuda a conectar produtos halal aos mercados globais. Juntos, os dois países formam uma parceria poderosa.
MATRADE São Paulo: Conectando Mercados
No centro dessa relação em expansão está a MATRADE São Paulo, o escritório comercial da Embaixada da Malásia no Brasil.
A MATRADE atua como ponte entre empresas brasileiras e malaias, facilitando acesso a mercados, encontros de negócios, promoção de investimentos e participação em grandes feiras comerciais e iniciativas empresariais.
À medida que as empresas buscam cada vez mais diversificar mercados e fortalecer a resiliência de suas cadeias de suprimentos, a MATRADE permanece comprometida em apoiar parcerias que gerem valor de longo prazo para ambas as economias.
Perspectivas Futuras
O panorama geral é claro: Malásia e Brasil já não estão conectados apenas pelos fluxos comerciais. Como portas de entrada estratégicas para a ASEAN e para a América do Sul, respectivamente, ambos os países estão cada vez mais posicionados para contribuir para uma maior conectividade inter-regional, cadeias de suprimentos mais resilientes, desenvolvimento sustentável e crescimento impulsionado pela inovação.
Em um mundo moldado pela incerteza estratégica, Malásia e Brasil têm a oportunidade de demonstrar como potências médias podem construir pontes entre regiões, fortalecer a resiliência econômica e criar parcerias práticas que gerem benefícios concretos para empresas e sociedades.
O futuro dessa relação não é apenas comercial — é cada vez mais estratégico.
(*) Dato’ Mohammad Ali bin Selamat é Embaixador da Malásia no Brasil