Via Folha de S. Paulo – “É nossa opinião profissional, baseada em avaliações anteriores e contínuas, que o estado mental de Donald Trump se deteriorou ainda mais desde nossa declaração de 2024”, começa a carta que um grupo de médicos e pesquisadores da área da saúde entregou ao Congresso dos Estados Unidos em 30 de abril deste ano.
Os profissionais afirmam que têm o dever ético de “alertar para o fato de que o presidente dos EUA representa um perigo crescente para a população”. O documento foi assinado por psiquiatras, neurologistas, psicólogos e especialistas em saúde pública e mental ligados a universidades prestigiadas, como Harvard, Columbia e George Washington.
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O texto é mais um capítulo de uma longa discussão nos EUA que abrange não apenas a capacidade de governo de Donald Trump, presidente que completa 80 anos neste domingo (14), mas também a idade dos líderes do país como um todo.
Não é de agora que setores da sociedade americana questionam a saúde mental de Trump. Em 2024, um coletivo autodenominado o “Anti-Psychopath Political Action Committee”, ou “comitê de ação política anti-psicopata”, publicou uma carta aberta no jornal The New York Times.
O texto dizia que o então candidato à Presidência mostrava sintomas de “um transtorno de personalidade grave e intratável —o narcisismo maligno”. O republicano seria “manifestamente inapto para exercer a liderança”, afirmava o anúncio de página inteira assinado por 200 médicos.

As especulações sobre a saúde de Trump ocorriam no contexto da desistência de Joe Biden da corrida à Casa Branca de 2024. O democrata, então presidente dos EUA, abandonou a disputa após meses de questionamentos sobre sua condição física e cognitiva. Aos 82 anos, Biden era o presidente mais velho da história do país e, com frequência, alvo de ataques feitos pelo líder republicano, que o apelidou de “Sleepy Joe” (“Joe Sonolento”), em uma tentativa de associá-lo à fragilidade e à perda de vigor.
Embora as críticas fossem impulsionadas pela oposição republicana, elas também passaram a ecoar dentro do próprio Partido Democrata. Após uma atuação considerada confusa e vacilante no primeiro debate contra Trump, Biden passou a enfrentar pressão crescente de líderes de sua própria legenda para abandonar a corrida presidencial —decisão que acabaria tomando cerca de um mês depois.
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Durante esse período, a campanha de Trump em 2024 projetou o republicano como um homem em plena condição física e mental, em oposição ao rival. Agora, em seu segundo mandato, o atual presidente passou a enfrentar questionamentos semelhantes aos que haviam sido dirigidos a Biden.
A declaração dos especialistas em saúde feita ao Congresso aponta para uma “deterioração acentuada do funcionamento cognitivo, evidenciada por fala desorganizada e tangencial, digressões prolixas, confusões factuais e mudanças súbitas e inexplicadas de rumo em questões estratégicas”. Também menciona episódios de “aparente sonolência durante procedimentos públicos de grande relevância”.
Em novembro de 2025, uma foto do presidente de olhos fechados em um evento na Casa Branca levou o governador da Califórnia, o democrata Gavin Newsom, a chamá-lo de “Dozy Don”, ou “Don Dorminhoco”, nas redes sociais.

Já em abril deste ano, fotos manipuladas de um encontro entre membros do alto escalão do governo, incluindo o secretário de saúde, Robert Kennedy Jr., mostravam Trump dormindo com a cabeça pendendo para o lado. A imagem falsa foi compartilhada nas redes, dando combustível para pedidos de uso da 25ª emenda da Constituição americana.
A emenda permite que o vice-presidente ou uma maioria dos membros do governo ou do Congresso retire o presidente do cargo, caso ele seja considerado inapto para cumprir a função.
Discursos pedindo o uso da emenda contra Trump vêm aparecendo entre opositores democratas e também entre ex-aliados do republicano. Ela é mencionada, por exemplo, tanto na carta dos especialistas de saúde —que declaram ser suprapartidários e dizem que o texto não é político, mas técnico— quanto pela ex-deputada federal Marjorie Taylor Greene.
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Taylor Greene, do Partido Republicano, rompeu com o presidente em novembro de 2025 após conflitos sobre a condução do escândalo de Jeffrey Epstein pela Casa Branca. Ela renunciou ao mandato e vem fazendo críticas à gestão nas redes sociais e na imprensa. À CNN ela afirmou que a fala de Trump sobre “eliminar uma civilização”, direcionada ao Irã, foi uma insanidade, “não retórica dura”.
A Casa Branca tem rejeitado as especulações de que Trump esteja enfrentando problemas de saúde mental. Em relação às imagens que circulam nas redes sociais mostrando o presidente de olhos fechados, aparentemente cochilando em eventos públicos, o governo afirma que as fotografias foram feitas no instante em que ele piscava.
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No final de maio, a Casa Branca também divulgou um relatório do médico do presidente, Sean Barbabella, que afirmou que Trump “permanece em excelente estado de saúde, com bom funcionamento cardíaco, pulmonar e neurológico, além de ótima condição física geral”.