Máscaras e mistério: o Cazumba ensina a contar a história do Maranhão


Ele chega sacudindo o chocalho, ocupando o espaço com passos firmes, dança improvisada e um silêncio que fala por meio das cores, dos gestos e da máscara que esconde o rosto. No meio do terreiro, entre o riso das crianças e a curiosidade dos adultos, o Cazumba não é apenas personagem. É memória viva. É ancestralidade em movimento. É Maranhão.

Figura emblemática do bumba meu boi, especialmente dos grupos de sotaque da Baixada Maranhense, o Cazumba atravessa gerações carregando símbolos que ajudam a contar a história de um povo marcado pelo encontro de influências indígenas, africanas e europeias. Guardião, brincante, encantado para alguns, ele desafia definições exatas. Talvez seja justamente esse mistério que o torne tão fascinante.

Cazumba – Boi de Pindaré – Ascom Secma

Em muitos casos, o primeiro contato com o Cazumba acontece ainda na infância. Meninos e meninas crescem acompanhando pais, avós e vizinhos nos grupos de bumba meu boi. Aprendem a confeccionar adereços, a respeitar os rituais, a reconhecer os sons que anunciam a chegada da brincadeira. É assim que a tradição se mantém viva: não como peça de museu, mas como prática cotidiana, reinventada a cada geração.

“Acredito que o Cazumba é um personagem presente no imaginário de todo ludovicense que vive a magia da cultura popular. Na minha infância, não foi diferente. Em cada arraial a que eu ia, ficava fascinada com aquela figura estranha, grande e engraçada. O estranhamento tinha uma beleza própria desde cedo. Tive a alegria de brincar de Cazumba pela primeira vez quando entrei no Boi da Floresta de Mestre Apolônio, aqui na Liberdade. Hoje brinco de Pajé, no mesmo boi, mas o Cazumba é parte da minha formação como ser humano. Até porque, como dizem, quem é Cazumba no boi é Cazumba na vida”, afirma a artista-educadora e produtora cultural Lara Moura.

No Maranhão, onde o São João ocupa lugar central na construção da identidade coletiva, personagens como o Cazumba ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento. Eles lembram que a cultura popular é tecida pelas mãos de pessoas comuns — artesãos, costureiras, músicos, mestres e mestras da cultura — que transformam criatividade em herança compartilhada e lutam para garantir que ela siga adiante. Nem sempre é fácil. Ainda assim, são esses fazedores de cultura que insistem em manter acesa a chama da tradição.

“Atualmente, trabalho com Educação Patrimonial, Produção e Gestão Cultural e Teatro. Entendo que os mais jovens só se interessam pelo que conhecem. Por isso, o primeiro passo, ao meu ver, sempre foi permitir que a juventude construa pertencimento com a cultura popular por meio da educação, da convivência e das experiências com os muitos personagens que habitam esse universo encantado. O lúdico sempre esteve presente; a festa se faz na fé e no riso. Brincar é essencial para despertar curiosidade e o desejo de continuidade. Dar protagonismo e autonomia também”, conta Lara.

Muita história, muito mistério

A artista-educadora, que aos 25 anos mergulhou nesse universo, relata que foi Mestre Nonato quem lhe ensinou o bê-á-bá do Cazumba. “Os compassos, o toque do badalo, as peripécias… Mestra Nadir foi quem me incentivou — e continua incentivando — no ofício sério das brincadeiras. Conforme fui andando pelo mundo, fui encontrando outros mestres e escutando mais histórias. Esse saber de ser Cazumba não finda. É história muita e mistério muito que se tem nesse Maranhão.”

Para ela, vestir a careta do Cazumba é como vestir-se de si mesma. “Como toda máscara, ela permite que nos expressemos, que incorporemos sensações que o próprio corpo induz por meio da memória e do repertório corporal. Cada Cazumba é um Cazumba. O Cazumba, em mim, revela as mandingas das infâncias, das peripécias às melancolias. Meus sentimentos, minhas personalidades, tudo isso se estampa no corpo e na careta que visto na brincadeira.”

No fim das contas, talvez essa seja a maior lição do Cazumba: por trás da máscara, não existe apenas um personagem. Existe um povo inteiro narrando a própria história, preservando afetos, saberes e modos de existir. Basta olhar com atenção para os inúmeros Cazumbas que atravessam terreiros, arraiais e espaços juninos. Em cada chocalho que ecoa, em cada careta que provoca espanto e encantamento, o Maranhão encontra uma maneira de se reconhecer — e de continuar contando, geração após geração, quem é.



VER NA FONTE