Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.


Acho que nos últimos anos uma coisa que aprendi a fazer e me livrou de muitos problemas foi ficar calado para não ter raiva. Entenda bem: não significa que eu não fique com raiva, pois fico, e muito, a ponto de passar um bom tempo pensando que deveria, sim, ter tomado uma atitude diferente dessa, em que, mesmo tendo razão, enfiei o rabo entre as pernas e fui embora calado. Depois, engolindo o orgulho ferido, lembro de tantas situações de pessoas que, não havendo pensado direito por dez segundos, acabaram com o resto da vida. E, para pensar direito, é necessário aprender a ficar calado e deixar fluir, já que tudo volta para onde veio como o rio e o mar.

Arthur Schopenhauer, filósofo que conheci nos primeiros anos da universidade, era o tipo de amigo que ninguém gostaria de ter por perto porque falava o óbvio e era pessimista ao extremo em relação à vida e à vontade do homem. Inclusive, dizia, em outras palavras, que o homem sofre porque quer, para não dizer porque gosta (ou, em alguns casos, porque é covarde mesmo). Uma de suas frases mais conhecidas e difíceis de compreender é: “quanto mais elevado é o espírito, mais ele sofre”.

E isso tem tudo a ver com o título do artigo, retirado do primeiro capítulo de Eclesiastes que, em palavras minhas, define a vaidade como o resultado da vontade de querer ser mais do que pode, acompanhada pelo desejo de ter mais do que consegue, a qualquer custo, sem pensar nas consequências. E elas virão. É nessa hora que o filósofo alemão e o antigo rei de Israel conseguem se completar, com séculos de diferença e sabedoria de sobra porque quem avalia as situações de maneira racional sofre por entender que, além de que querer não é poder, nem tudo o que podemos é, necessariamente, o que queremos. Pior ainda: não querer é, em grande parte das decisões que mudam a vida, a verdadeira autoridade que garante a paz de espírito e a tranquilidade para quem já não cede aos excessos da ilusão de que não precisa porque a enxerga vazia, carregada de futilidade e um preço caro que, mais cedo ou mais tarde, dará lugar ao arrependimento das decisões intempestivas, surgidas do nada, que levam a lugar nenhum que valha a pena.

O Rei Salomão, homem mais sábio de sua época, dizia que, quando conheceu a sabedoria, os desvarios e a loucura, entendeu que tudo isso eram aflições do espírito, isto é, desconfortos criados por nós mesmos sobre aquilo que achamos que queremos e, depois que temos, não desejamos mais por querer outra coisa ainda mais desnecessária e sem sentido, num ciclo vicioso que só acaba quando a infelicidade é o destino. Uma hora entendemos, por bem ou por mal, que a beleza passa, o dinheiro acaba ou não tem a importância de antes, e que nem tudo é vontade de estar certo ou ter razão. Para quê, se nada compensa a perda de tempo? Qual a necessidade da vaidade de querer estar certo, se quando um não quer, dois não brigam, nem discutem, nem se matam?

Porque muito melhor que ter razão ou se achar certo é estar em paz. É um exercício curioso aprender a ganhar renunciando àquilo que a gente acha que merece, mas com o tempo, as verdades que a vida joga na cara e as descobertas sobre nós mesmos, descobrimos que a maior parte das vontades são desejos vazios. Abrir mão é a ilusão da tristeza antes do encontro inevitável da felicidade. Talvez por isso Salomão tenha dito ao fim deste capítulo que na sabedoria há muito enfado (tédio, irritação e desinteresse, tudo ao mesmo tempo) e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Pelo menos até o entendimento de que o desapego é a libertação do que é bom e, ao mesmo tempo, não faz bem.

No fim das contas, Salomão e Schopenhauer estavam corretos em um ponto: não escolhemos tudo o que nos acontece, mas escolhemos o que fazer com isso exercitando a sabedoria adquirida, pois, entre as tantas lições que aprendemos na vida estão a certeza de que tudo o que vai acaba voltando, a escolha é nossa e pensar é de graça. Por que não começar a partir de agora?

Igor Menezes Cordovil é Gestor de Marketing & Inteligência de Mercado do Grupo FAMETRO, Especialista em Política e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), e MBA em Marketing, Consumo e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Contato: [email protected]





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