Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
O Ciclo do Marabaixo encerrou oficialmente no Amapá, mas as lições de solidariedade e os exemplos de comunidade continuarão ecoando ao longo de todo o ano. Neste domingo (7), um grupo tradicional de Macapá levou acalento e alimento para quem mais precisa. Rompendo com a tradição de servir o famoso caldo durante as rodas de dança, o grupo preparou e distribuiu um “sopão adubado”, farto em carne e verduras, em frente às unidades de saúde da capital.
À frente da ação estava Valdinete Costa, coordenadora da Associação Cultural Berço do Marabaixo. Ao lado de filhas, parentes e outros fazedores de cultura, ela destacou o sentimento que motivou a iniciativa logo após o fechamento do calendário festivo.
“Encerramos o Ciclo do Marabaixo aqui no Barracão de Tia Gertrudes com muita gratidão e muito amor no coração. Para não nos distanciarmos dessa gratidão que temos a Deus, estamos aqui na frente do Hospital de Emergência (HE) distribuindo esse sopão solidário para as pessoas que, por algum motivo, ainda não puderam ir para casa fazer sua refeição. Viemos fazer essa boa ação para doar empatia, amor e solidariedade àqueles que mais precisam neste momento”, afirmou Valdinete, que também visitou outras unidades de saúde.

Para grupo, o Marabaixo também se expressa por meio da solidariedade. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

Ação beneficiou acompanhantes de pacientes, taxistas e profissionais de saúde
Ao fazer um balanço sobre as festividades deste ano, a coordenadora não escondeu o entusiasmo. Para ela, o período superou todas as expectativas ao conseguir integrar a tradição a outras frentes da sociedade.
“O Ciclo do Marabaixo este ano surpreendeu com muitas atividades e com a transversalidade da política pública, unindo a cultura, a tradição, a fé e outros segmentos, em especial o esporte e a solidariedade. Foi com muita fé no coração que trabalhamos e fizemos o melhor Ciclo do Marabaixo de todos os tempos”, avaliou.
Para Valdinete, o papel das comunidades que mantêm a manifestação viva vai muito além dos dias de festa e dos rituais sagrados.
“A nossa missão não é só rodar as saias. A nossa missão é transpassar essa cultura, mas transpassar com amor, com carinho, com respeito e, acima de tudo, com muita solidariedade”, completou a liderança cultural.

Iniciativa ocorreu logo após o encerramento do Ciclo do Marabaixo 2026
A iniciativa alcançou dezenas de pessoas, desde taxistas e profissionais de saúde de plantão até moradores em situação de rua e familiares que aguardavam por notícias de pacientes internados.
Entre os beneficiados estava a doméstica Keury Andrade, de 30 anos. Sentada na calçada em frente ao hospital em pleno domingo à noite, ela enfrentava o cansaço enquanto aguardava os resultados dos exames da mãe, que veio do município de Afuá, no Pará, em busca de tratamento médico na capital amapaense.
“Uma iniciativa maravilhosa, porque a gente passa muito tempo aqui dentro esperando o resultado de exames, consultas e o retorno com o médico. O cansaço é grande, então essa ação é muito bem-vinda. E a sopa está uma delícia, muito boa mesmo. Parabéns para quem fez”, agradeceu Keury.

Keury Andrade recebeu a sopa enquanto aguardava exames da mãe
Conforme a tradição, o Ciclo do Marabaixo inicia no Sábado de Aleluia e estende-se até o chamado “Domingo do Senhor”, logo após a celebração de Corpus Christi. Apoiado pelo Governo do Estado, o período acompanha o calendário da Igreja Católica e é marcado pelo profundo culto ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade. Em 2026, as festividades trouxeram como tema “Encontro de Gerações e Saberes da Nossa Terra”.

Distribuição alcançou pessoas que passavam a noite em frente às unidades de saúde

Grupo percorreu unidades de saúde levando alimento e acolhimento
Atualmente, seis grupos culturais são responsáveis por salvaguardar os rituais e celebrações na capital. O rufar das caixas e o rodar das saias concentram-se em sete barracões tradicionais:
* Bairro Santa Rita (Favela): Berço do Marabaixo, Raízes da Favela Dica Congó e Associação Zeca e Bibi Costa (Azebic).
* Bairro do Laguinho: Marabaixo do Pavão e Raimundo Ladislau.
* Zona Rural de Macapá: União Folclórica de Campina Grande (UFCG) e Santíssima Trindade da Casa Grande.
O Ciclo integra a política oficial de valorização cultural do Estado, consolidando o Marabaixo como a mais autêntica manifestação de identidade local, reconhecida desde 2018 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).