Vizinhos do Nova Esperança pintam rua e resgatam nostalgia da Copa em Rio Branco/ Foto: Cedica
Houve um tempo em que o anúncio de uma Copa do Mundo não vinha pelos alertas do celular ou pelas chamadas comerciais da televisão. Ele vinha pelo cheiro forte de tinta óleo fresca misturada com cal, pelo som do estilete cortando rolos de plástico colorido e pelos pés descalços que passavam o dia carimbando o asfalto quente. Para quem viveu os anos 1990 ou o início dos anos 2000, colorir a própria rua era o verdadeiro rito de passagem, o primeiro tempo de um jogo que durava um mês inteiro.
Com o passar dos anos, o asfalto das grandes cidades foi ficando cinza. A rotina engoliu os mutirões e o ceticismo com os cartolas ou com o futebol moderno fez muita gente guardar as bandeirinhas no armário. Mas no bairro Nova Esperança, mais precisamente na Rua da Paz, em Rio Branco, o relógio resolveu andar para trás.

Na Rua da Paz, mutirão de amigos decora asfalto e traz espírito de Copas passadas/ Foto: Cedida
A poucos dias da abertura do Mundial, quem dobra a esquina da via depara-se com um cenário que é pura nostalgia: um tapete em verde e amarelo, desenhado à mão, que devolveu a uma comunidade da periferia da capital o orgulho de torcer juntos. O serviço, recém-entregue, virou ponto de parada obrigatória e transformou a vizinhança.
Toda crônica de bairro tem seus operários da memória. Ali na Rua da Paz, a faísca da antiga tradição partiu de uma dupla. O projeto de decoração urbana começou de forma despretensiosa com os moradores Ricardo e Assaid. No início, as pinceladas eram tímidas, quase solitárias, no meio do asfalto.

Iniciativa dos moradores Ricardo e Assaid mobilizou a comunidade na confecção de bandeiras/ Foto: Cedida
Aos poucos, no entanto, o movimento gerou um efeito dominó de nostalgia e pertencimento. A moradora Janaína Dias acompanhou de perto o momento em que a iniciativa individual ganhou corpo e transformou-se em um mutirão coletivo de resgate cultural.
“O projeto surgiu através do meu vizinho Ricardo. No início, ele começou timidamente”, relembra Janaína. “Então, aos poucos fomos nos chegando e ajudando. De repente, levantamos uma cota por casa. E, às noites, nos reuníamos para cortar rabiola, outros desenhando e outros pintando. Como nos conhecemos há bastante tempo, foi mais fácil a união de todos e o empenho.”
As calçadas, que antes serviam apenas como passagem rápida após o expediente de trabalho, voltaram a ser o ponto de encontro. Enquanto os mais velhos resgatavam a precisão dos moldes de papelão para desenhar as estrelas e o brasão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), os mais jovens aprendiam a arte de esticar os barbantes com fitas plásticas que cruzam a rua de um lado ao outro, protegendo o céu da comunidade.

Moradores fazem vaquinha e trabalham à noite para colorir bairro para o Mundial/ Foto: Cedida
O fenômeno que os moradores do Nova Esperança conseguiram criar vai além das quatro linhas do gramado. Em tempos de debates acalorados sobre esquemas táticos e críticas ao distanciamento dos atletas profissionais que atuam na Europa, a Rua da Paz provou que o sentimento de Copa do Mundo é, na verdade, uma desculpa para o brasileiro se reconhecer no outro.

‘Fio de esperança’, diz moradora sobre rua enfeitada que une vizinhos em Rio Branco/ Foto: Cedida
Mesmo aqueles que não acompanham a tabela do campeonato ou que não sabem escalar os onze titulares de Carlo Ancelotti acabaram contaminados pela tinta fresca na calçada.
“Assim conseguimos trazer todos para esse momento. Embora alguns nem gostem de futebol, em tempos de Copa do Mundo algo diferente desperta”, analisa Janaína Dias. “Esses momentos trazem união. Embora a seleção atual não passe tanta confiança, como brasileiros sempre temos um fio de esperança.”

Moradores cotizaram custos e dividiram tarefas noturnas para devolver o verde e amarelo à periferia da capital acreana/ Foto: Cedida
O trabalho finalizado, que agora estampa o chão da Rua da Paz, funciona como uma crônica visual da resiliência acreana. Se a seleção em campo ainda precisa provar o seu valor para reconquistar o coração do torcedor, a comunidade do bairro Nova Esperança já garantiu o seu troféu antes mesmo do primeiro apito do árbitro: a certeza de que a tradição resiste e que a vizinhança ainda sabe ser uma grande família.