Enquanto o Acre convive com extremos cada vez mais frequentes, entre enchentes históricas e períodos de estiagem que ameaçam o abastecimento de água, estudos recentes reforçam o papel das Terras Indígenas na preservação da floresta e dos recursos hídricos. A avaliação é compartilhada por pesquisadores e lideranças indígenas, que apontam essas áreas como uma das principais barreiras ao avanço do desmatamento na Amazônia.
No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado nesta sexta-feira, 5, o tema ganhou destaque em meio aos debates sobre os impactos das mudanças climáticas e a necessidade de proteger as áreas que ainda mantêm a floresta em pé.
Dados do MapBiomas Alerta, divulgados em maio de 2026, mostram que o desmatamento no Brasil caiu 20,6% no último ano, ficando abaixo de 1 milhão de hectares pela primeira vez desde 2019. Ao todo, foram registrados 984.794 hectares desmatados.
Na Amazônia, a redução foi de 23,5%, com 289.478 hectares de floresta perdidos. Quando o recorte é feito apenas nas Terras Indígenas, a queda registrada foi de 22%, totalizando 12.593 hectares desmatados em todo o país.
O levantamento também mostra que apenas 1,7% de toda a área desmatada entre 2019 e 2025 ocorreu dentro de Terras Indígenas, indicador que evidencia a capacidade dessas áreas de conter a destruição da floresta.
Outros estudos apontam resultados semelhantes. O Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP) concluiu que a perda de florestas nativas fora das áreas protegidas é três vezes maior do que dentro delas. Já o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece que a garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas contribui para a redução do desmatamento em diferentes regiões da Amazônia.
Preservação da floresta e abastecimento de água
A relação entre a conservação ambiental e a segurança hídrica foi destacada pelo líder do povo Ashaninka do Rio Amônia e coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), Francisco Piyãko.
Em artigo divulgado nesta semana, ele afirma que a destruição da floresta não afeta apenas as comunidades tradicionais, mas também quem vive nas cidades e depende dos rios para o abastecimento de água.
“A luta pela natureza não é só dos indígenas. Quando se desmata onde nascem os rios, quando se ameaça a Reserva Chico Mendes e derrubam as florestas que ajudam a trazer a chuva, a consequência chega na cidade. Imaginem o Rio Acre secando de verdade, sem água para Rio Branco e para os municípios que dependem dele. Ninguém está preparado para isso com a seriedade necessária”, escreveu.
Críticas ao modelo de desenvolvimento
No texto, a liderança indígena também critica o modelo de desenvolvimento que trata a floresta em pé como um obstáculo econômico e alerta para os riscos de decisões políticas que enfraqueçam a proteção ambiental.
Para ele, preservar a Amazônia é uma medida que beneficia toda a população, independentemente de posição política ou local de moradia.
“Tratam a proteção ambiental como um estorvo, mas ela é a condição básica para termos um futuro. A seca não vai perguntar em quem cada pessoa votou. A falta de água vai castigar igual o indígena, o comerciante, o trabalhador, o empresário, a criança e o idoso, seja na aldeia ou na capital”, afirmou.
Críticas ao uso da Amazônia como palco político
Em seu artigo, Francisco Piyãko também criticou políticos de fora que, segundo ele, utilizam a Amazônia como palco para disputas ideológicas e produção de conteúdo para redes sociais. Como exemplo, citou a visita do deputado Nikolas Ferreira ao Acre, articulada pelo senador Márcio Bittar.
“Quando um deputado de fora passa poucos dias no Acre e se acha no direito de dizer que conhece esta terra mais do que uma mulher nascida no seringal, formada na luta social daqui e conhecida no mundo inteiro pela defesa do meio ambiente, ele não diminui a Marina. Ele só mostra a arrogância de quem usa a Amazônia como palco”, declarou.
Piyãko também defende uma maior participação dos povos indígenas nos espaços de decisão política e afirma que os desafios ambientais enfrentados pelo Acre exigem medidas que conciliem preservação, desenvolvimento e proteção dos recursos naturais.
“Atraso de verdade é uma cidade ficar sem água. Atraso é destruir a floresta que protege os nossos rios. A presença indígena na política não divide o Acre, ela obriga o nosso estado a olhar para a realidade com honestidade”, concluiu.