
Neimar Fernandes – Jornalista
Confesso que fico impressionado com a capacidade que algumas pessoas têm de fugir do assunto principal.
Basta alguém levantar a discussão sobre classificar facções criminosas como organizações terroristas e logo surge uma multidão dizendo que isso seria uma desculpa para os Estados Unidos invadirem o Brasil.
Mas quem falou em invasão?
Quem colocou tanques americanos atravessando nossas fronteiras nessa conversa?
Ninguém.
O que existe é um fato que qualquer brasileiro enxerga sem precisar de especialista para explicar. Existem regiões inteiras do país onde quem manda não é o Estado. Quem manda são facções armadas. Elas cobram taxas, determinam regras, expulsam moradores, recrutam jovens, executam rivais e desafiam as autoridades.
Sequestram, matam, aterrorizam comunidades e movimentam bilhões de reais.
Essa é a realidade.
O resto é cortina de fumaça.
Enquanto parte da imprensa e da classe política perde tempo discutindo nomenclaturas e criando cenários imaginários, o crime organizado continua avançando. Avança sobre bairros, cidades, fronteiras, empresas e até sobre instituições que deveriam combatê-lo.
A pergunta que deveria estar sendo feita é outra: como chegamos a esse ponto?
Como um país com tantos recursos permitiu que organizações criminosas se transformassem em verdadeiros poderes paralelos?
Por que, depois de tantos governos, tantos discursos e tantas promessas, ainda existem territórios onde o cidadão comum sabe que a lei vale menos que a vontade dos criminosos?
Talvez porque seja mais fácil discutir teorias do que enfrentar a realidade.
Talvez porque admitir o tamanho do problema signifique reconhecer décadas de fracasso na segurança pública.
O brasileiro não precisa de narrativas. Precisa de respostas.
Precisa saber quando o Estado voltará a ocupar espaços que nunca deveria ter perdido.
Precisa saber como serão combatidas as estruturas financeiras que lavam bilhões de reais e alimentam essas organizações.
E precisa, acima de tudo, parar de aceitar que o óbvio seja tratado como polêmica.
O crime organizado não cresce porque é forte. Cresce porque encontra fraqueza, omissão e conveniência pelo caminho.
E enquanto continuarmos discutindo fantasmas, serão os criminosos os únicos a comemorar.