
Diário do Amapá – Quando se fala em petróleo, qual a importância desses dados técnicos e por que o Amapá precisa compreender melhor o assunto?
Cláudio Jorge Souza – A partir da Lei do Petróleo, em 1997, o Brasil implantou o Banco de Dados de Exploração e Produção da ANP, conhecido como BDEP, que hoje é um dos maiores bancos de dados públicos de petróleo e gás do mundo. Ele foi inspirado em modelos internacionais, como o da Noruega, mas agregou ainda mais informações técnicas. A própria lei estabeleceu que esses dados têm o mesmo valor estratégico do petróleo para o Estado brasileiro. Isso foi importante porque permitiu ao Brasil concentrar todo o conhecimento histórico da exploração petrolífera em um único sistema. Inclusive, a Petrobras teve de transferir todos os seus dados históricos para esse banco quando acabou o monopólio estatal. Com isso, o país passou a reunir informações sísmicas, dados de poços, levantamentos gravimétricos e uma enorme quantidade de estudos geológicos acessíveis para futuras operações.
Diário – Essa centralização das informações ajudou a mudar o patamar competitivo do Brasil no cenário global?
Claudio – Sem dúvida. O grande diferencial foi justamente permitir que todas essas informações ficassem reunidas em um único local, facilitando o acesso para empresas interessadas em investir no Brasil. Isso reduz muito o risco exploratório. Uma empresa que pretende disputar áreas em leilões da ANP consegue estudar previamente as bacias sedimentares brasileiras, entender o potencial geológico daquela região e avaliar melhor os investimentos necessários. Quanto maior o conhecimento prévio, menor o risco. O BDEP funciona como uma ferramenta para atrair investidores e fortalecer a competitividade.
Diário – Esses dados são públicos? Como funciona o acesso exatamente professor?
Claudio – Alguns dados são públicos e outros podem ser adquiridos mediante pagamento. Praticamente todos os dados das bacias terrestres, os chamados dados onshore, estão disponíveis gratuitamente pela internet. Qualquer pesquisador, estudante ou cidadão pode acessar a página da ANP e baixar essas informações. Já os dados offshore, ligados às áreas marítimas, possuem regras específicas. Alguns são gratuitos, outros precisam ser adquiridos diretamente junto ao BDEP, seja como cliente eventual ou como associado do banco de dados.
Diário – Um volume tão grande de informações seja um enorme desafio tecnológico, não é?
Claudio – Sem dúvida. No início, os dados históricos da Petrobras eram relativamente pequenos para os padrões atuais da indústria, com poucos gigabytes. Mas com o avanço das tecnologias de imageamento sísmico e da geração de novos levantamentos, esse volume cresceu de forma gigantesca. Hoje o BDEP possui cerca de 11 petabytes de dados armazenados. É uma estrutura enorme, que exige data centers robustos, softwares especializados, equipes qualificadas e atualização tecnológica permanente. O grande desafio não é apenas armazenar, mas também receber, fazer controle de qualidade, organizar e disponibilizar esses dados de forma eficiente para empresas, universidades e centros de pesquisa.
Diário – Existem outros bancos semelhantes no mundo. Como o Brasil se compara internacionalmente?
Claudio – O modelo brasileiro tem uma característica interessante: a centralização. Em países como os Estados Unidos, por exemplo, muitos dados ficam espalhados entre universidades e órgãos estaduais. No Brasil, praticamente tudo fica concentrado em um único sistema nacional. Isso facilita o acesso e o gerenciamento das informações, mas também exige uma estrutura tecnológica muito mais complexa para manter tudo funcionando adequadamente.
Diário – Esses dados podem ajudar o estado a se preparar economicamente para eventual exploração?
Claudio – Com certeza. O BDEP guarda informações geológicas de várias épocas e de diferentes regiões da Margem Equatorial. Existem dados de poços perfurados na região da Foz do Amazonas e áreas próximas ao Marajó que podem servir não apenas para estudos de petróleo, mas também para mineração, recursos hídricos e pesquisas ambientais. Quando um poço é perfurado a milhares de metros de profundidade, ele revela uma enorme quantidade de informações sobre a geologia daquela região. Esses dados podem ser utilizados por universidades, pesquisadores e órgãos públicos em diversos tipos de estudos. Ou seja, não estamos falando apenas de petróleo. Existe um patrimônio científico e técnico extremamente valioso que pode ajudar estados como o Amapá a planejar melhor seu futuro econômico e ambiental.
Perfil
Claudio Jorge Souza – Graduado em Geologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1989) e Mestrado em Geociências (Geoquímica) pela Universidade Federal Fluminense (1995).
PRINCIPAIS ESPECIALIDADES
– Especialização em Eng. Sanitária e Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1991)
– MBP Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000).
– Especialização em Administração Pública com ênfase em Óleo e Gás pela Estácio (2017).
– Trabalhou por 10 anos no Inmetro na área de Regulação Técnica de Produtos e Ambiental, em Auditorias da Qualidade em âmbito Nacional e Internacional, bem como, no grupo de Regulamentação Técnica de Produtos para Comércio no Mercosul – (SGT-3).
– Há 14 anos na Agência Nacional do Petróleo – ANP como Especialista em Regulação, e Superintendente Adjunto da área de Dados Técnicos (SDT) e coordenador do Banco de Dados de Exploração e Produção – BDEP.
– Atuou na Superintendência de Pesquisa e Desenvolvimento – SPD, na análise de projetos de P,D&I e Superintendência de Desenvolvimento da Produção – SDP, como responsável técnico de campos de produção.
– Atualmente atua Superintendência de Dados Técnicos – SDT como Superintendente.
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