Dor menstrual impacta rotina e frequência escolar no Brasil


A saúde menstrual é um desafio persistente no ambiente educacional brasileiro, com impactos diretos no desempenho e na frequência das alunas. Dados de uma pesquisa inédita realizada pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info, divulgada nesta quarta-feira (27), indicam que 60% das estudantes do ensino fundamental e médio relatam cólicas moderadas ou fortes, que exigem o uso de medicação e prejudicam as atividades diárias. O levantamento aponta que 37,1% dessas jovens faltam às aulas mensalmente devido aos sintomas, perdendo, em média, dois dias de escolaridade por mês.

O estudo ouviu 2.551 estudantes, docentes e gestores em todo o país, revelando que a cólica é o principal fator de absenteísmo, citado por 57,7% das entrevistadas. Outros sintomas como cansaço, dores no corpo, dores de cabeça e medo de vazamentos também contribuem para o afastamento das salas de aula. Sofia Reinach, líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, alerta que o fenômeno é cumulativo: “Quase 40% das meninas no Brasil estão perdendo pelo menos um dia de aula por mês por conta das dores. Isso pode significar defasagem escolar e uma desvantagem crônica”.

Disparidades raciais e regionais

A pesquisa destaca uma desigualdade racial relevante no que diz respeito ao impacto da dor. Embora alunas brancas relatem sentir cólicas mais intensas (37,5% contra 25,9% entre meninas negras), o índice de faltas é maior entre as estudantes negras. Aproximadamente 14,5% das alunas negras relatam faltar de dois a cinco dias por mês, comparado a 9,6% das alunas brancas. Segundo Sofia Reinach, esse cenário ocorre porque a dor das meninas negras é frequentemente subestimada ou normalizada, resultando em um menor diagnóstico e menor reconhecimento da dor como algo incapacitante.

As desigualdades também são geográficas. Nas regiões Norte (18,9%) e Centro-Oeste (30,2%), a falta de infraestrutura básica, como banheiros adequados e produtos de higiene, é apontada como um dos principais motivos para a ausência escolar. O estudo associa ainda a menarca precoce primeira menstruação aos 10 anos ou antes a dores mais intensas e incapacitantes. Para mitigar esses impactos, a instituição defende que a saúde menstrual deixe de ser tratada como um tabu ou uma questão privada, sendo incorporada aos currículos escolares e aos protocolos de faltas justificadas das instituições de ensino.

Desafios coletivos e o papel da escola

Além da necessidade de infraestrutura, a pesquisa aponta que a menstruação ainda é vista com desconhecimento por parte dos estudantes do sexo masculino. Cerca de 36,8% dos meninos afirmam não pensar sobre o tema. Para o Instituto Alana, envolver os estudantes homens nas discussões é fundamental para reduzir o constrangimento e criar redes de apoio. A naturalização da dor também é uma preocupação, pois pode atrasar o diagnóstico de condições graves, como a endometriose, que afeta uma em cada dez mulheres e possui um tempo médio de diagnóstico de até 12 anos.



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