
A expansão do transporte clandestino intermunicipal em Roraima tem acendido um alerta entre cooperativas, motoristas e entidades do setor. O que antes era considerado pontual, hoje se tornou rotina nas rodovias, aeroportos e terminais rodoviários do estado, com impactos diretos na segurança dos passageiros e na sobrevivência de quem atua dentro da legalidade.
Segundo representantes do Conselho Consultivo das Cooperativas de Transporte do Estado de Roraima (CONSULCOOT), o problema se intensificou após a pandemia, impulsionado pelo desemprego e pelo aumento do fluxo migratório na região. A consequência foi o crescimento acelerado de veículos particulares e alugados operando de forma irregular, sem autorização ou fiscalização adequada.
“Hoje é algo escancarado. Esses veículos estão em pontos estratégicos, como aeroporto e rodoviária, captando passageiros livremente”, afirma um representante do setor.
Denúncias ignoradas e ausência de fiscalização
Apesar de diversas denúncias formais feitas por cooperativas, a resposta das autoridades ainda é considerada insuficiente. De acordo com o conselho, pedidos de fiscalização vêm sendo encaminhados há anos, sem que haja ações permanentes de combate à prática.
A falta de integração entre órgãos de trânsito, forças policiais e fiscalização também é apontada como um dos principais entraves. Enquanto isso, motoristas clandestinos seguem operando, muitas vezes utilizando aplicativos ou veículos alugados — o que dificulta a identificação e o controle.
“Não há fiscalização efetiva. O transporte clandestino acabou se tornando comum, e isso é extremamente preocupante”, reforça o conselho.
Concorrência desleal e impacto econômico
Para quem trabalha de forma regular, o prejuízo é imediato. Cooperados relatam queda na renda, instabilidade financeira e sensação de injustiça diante de uma concorrência considerada desigual.
“Pagamos impostos, alvarás, seguros e seguimos todas as exigências. Já os clandestinos não têm custo nenhum e ainda levam nossos passageiros”, relata um membro da COOTAP.
O motorista Johnatan Viana, que atua há cinco anos no setor, descreve o cenário como desanimador.
“Nos sentimos abandonados. Somos cobrados quando estamos trabalhando corretamente, mas quem está ilegal continua rodando todos os dias sem problema. Isso afeta diretamente o sustento da nossa família”, afirma.
Risco à vida
Mais do que uma questão econômica, o avanço da clandestinidade representa uma ameaça à segurança da população. Segundo as cooperativas, já foram registrados acidentes envolvendo transportes irregulares, inclusive com vítimas fatais.
Um dos casos mais marcantes foi o acidente que vitimou o médico Alceste Madeira, frequentemente citado como exemplo dos riscos desse tipo de serviço. Há também registros de colisões envolvendo veículos clandestinos e regularizados, onde passageiros do transporte irregular morreram por falta de equipamentos de segurança.
“Quando alguém entra em um carro clandestino, não sabe se há manutenção, seguro ou sequer se o motorista está apto. É um risco real”, alerta o setor.
Relatos indicam que a prática já se espalhou por diversos municípios, incluindo rotas para Pacaraima, interior do estado e até viagens interestaduais. Em muitos casos, veículos alugados são utilizados para mascarar a atividade ilegal, com divulgação de viagens em redes sociais e aplicativos.
“Virou uma bagunça. Não há controle, não há fiscalização, e isso cresce a cada dia”, relata um cooperado.
O que dizem as cooperativas
As entidades cobram ações imediatas e estruturadas por parte das autoridades. Entre as principais demandas estão:
Fiscalização contínua nas rodovias e pontos estratégicos;
Integração entre órgãos de segurança e trânsito;
Aplicação efetiva da legislação vigente;
Operações específicas contra transporte clandestino;
Além disso, defendem campanhas de conscientização para alertar a população sobre os riscos de utilizar serviços irregulares.
Alerta à população
O recado das cooperativas é direto: o preço mais baixo pode custar caro.
“A população precisa entender que não se trata apenas de economia. É segurança, é vida. Um transporte regularizado existe para proteger o passageiro”, destacam.
Conselho Rodoviário e órgãos de fiscalização
A fiscalização contra o transporte clandestino intermunicipal em Roraima ocorre de forma contínua e diária, com operações coordenadas pelo Conselho Rodoviário Estadual em rodovias, aeroportos, rodoviárias e principais corredores de transporte. As ações incluem abordagens, identificação de irregularidades e autuação imediata de veículos clandestinos, que são apreendidos quando flagrados, inclusive em terminais públicos — locais onde a presença desses operadores é justamente alvo prioritário do combate.
Apesar da atuação permanente, o enfrentamento desse tipo de irregularidade esbarra em desafios como a alta mobilidade dos infratores, que mudam rotas com frequência, o uso de aplicativos digitais para ofertar serviços ilegais, a demanda de passageiros e entraves legais que podem tornar processos administrativos mais lentos.
Para ampliar a eficácia das ações, há integração operacional entre órgãos como forças policiais e entidades de trânsito, com compartilhamento de informações e realização de operações conjuntas. O uso de tecnologias por clandestinos também vem sendo monitorado, com medidas voltadas à identificação de veículos alugados utilizados irregularmente e à cooperação com plataformas digitais.
Entre as medidas para garantir a segurança dos passageiros estão a intensificação das fiscalizações em terminais, campanhas de conscientização, canais de denúncia e parcerias para ampliar a oferta de transporte legal. O planejamento prevê ainda reforço no número de fiscais, operações noturnas e ações especiais em períodos de maior demanda.
Para equilibrar o setor, o Conselho aposta na repressão rigorosa ao transporte ilegal, aliada a iniciativas para facilitar a regularização de operadores, como revisão de normas e acesso a financiamento para cooperativas. Essas, por sua vez, são orientadas a formalizar denúncias com o máximo de detalhes e evidências, fortalecendo o combate ao clandestino.