No AC, profissionais de saúde enfrentam rios e longas distâncias para vacinar indígenas


Vacinar populações indígenas no Acre exige muito mais do que seringas e doses. Neste domingo (24), a Agência Brasil publicou reportagem sobre os desafios enfrentados por equipes de saúde para levar imunização a aldeias de difícil acesso no estado, onde distâncias, barreiras culturais e condições climáticas transformam cada incursão em uma operação complexa.

O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, unidade descentralizada do Sistema Único de Saúde (SUS), atende 11 mil pessoas das etnias Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá/Huni Kuin, Madiha/Kulina e Manchineri, distribuídas em 155 aldeias localizadas no Acre, no Amazonas e em Rondônia. As comunidades têm entre 30 e 300 habitantes e falam idiomas de três troncos linguísticos distintos. O acesso varia conforme o clima e a localização, caminhonete ou barco em condições favoráveis, quadriciclo, botes ou helicóptero quando o tempo não coopera.

Por ser inviável manter unidades fixas em todas as aldeias, cada região conta com um polo base. A partir dali, os profissionais partem para atender as comunidades de forma itinerante, chegando a passar 40 dias seguidos em campo. A enfermeira Kislane de Araújo Dias, responsável técnica pela área de Imunizações e Doenças Imunopreveníveis do DSEI, coordena esse planejamento com base em um censo vacinal, uma planilha com os dados de todas as famílias atendidas.

“É assim que a gente sabe também quantas doses de cada vacina vamos usar em cada aldeia, para transferir só esse quantitativo exato do estoque para a caixa de movimento diário. Geralmente, a equipe escolhe um local central na aldeia, onde as pessoas são atendidas, mas a gente também vai de casa em casa se precisar, e faz busca ativa dos faltosos.”

Além da logística de percurso, as vacinas precisam ser mantidas entre 2°C e 8°C durante todo o trajeto. Freezers instalados em barcos, caixas térmicas e bobinas de gelo são os recursos usados para preservar a eficácia dos imunobiológicos.

Os desafios não são só operacionais. Cada etnia tem sua organização política e suas práticas culturais, e ignorar isso compromete o trabalho. Evangelista Apurinã, coordenador do DSEI, explica que com os Madijá e Kulina, por exemplo, não é possível impor um ritmo de atendimento. “E outra coisa, você os segura em um lugar por, no máximo, umas 3, 4 horas. Depois disso, não segura mais.” Com os Jamamadi, que se organizam em 11 clãs com hierarquia definida, o risco é negociar com a liderança errada. “Então, se você acertar algo com um cacique que não é do clã principal, você pode sair do território achando que está tudo combinado e, quando voltar lá, vai ver que voltou à estaca zero.” Para Apurinã, conhecer a estrutura de cada povo é condição básica para conseguir executar o serviço.

Em maio, Rio Branco recebeu uma capacitação voltada a profissionais que atendem comunidades indígenas e populações de difícil acesso no Acre. O curso foi promovido pela farmacêutica MSD, que fornece quatro vacinas ao Programa Nacional de Imunizações do SUS, HPV, Hepatite A, Varicela e Pneumo-23. A gerente-médica de vacinas da empresa, Aline Okuma, afirmou que esta foi a quarta edição da capacitação voltada a esse público.

“Todo mundo precisa de capacitação, só que nas grandes capitais, a chance dos profissionais receberem isso é muito maior do que em áreas mais remotas. A gente identifica muito que algumas práticas não são harmonizadas e acho que essa é a grande valia desse curso, harmonizar práticas, adaptando para o cenário local.”

A enfermeira Evelin Plácido, que atuou por anos em territórios indígenas e hoje ministra capacitações em imunização pela CapacitaImune, reforça que o planejamento precisa ser muito detalhado antes de qualquer saída a campo. “Ao contrário do contexto urbano em que as pessoas vão até a imunização, nas áreas indígenas é a vacina que precisa ir até as pessoas. Então, a gente tem que conhecer bem os equipamentos, quantas horas vão durar cada percurso e as rotas precisam ser muito bem estabelecidas antes de ir para o território, para que a gente não exponha a vacina a uma temperatura inadequada, por exemplo.”

Evelin também destacou que saber se comunicar com a comunidade é tão importante quanto o conhecimento técnico. “Fui percebendo que, ao longo do tempo, que não adianta você ser um profissional excelente, ter o melhor equipamento, conhecer tudo das vacinas, entender sobre técnicas de aplicação, se você não souber se comunicar com as pessoas.”

Kislane reforça que a abordagem nas aldeias precisa ser negociada, não imposta. “Eu não posso simplesmente chegar lá e dizer: ‘É isso aqui e você vai ter que aceitar’. A gente orienta as equipes a fazer uma roda de conversa e explicar para a comunidade que é um imunobiológico que vai conferir proteção contra aquela doença que os povos indígenas estão suscetíveis.”

A urgência dessa estrutura ficou evidente em 2024, quando a seca recorde na região amazônica bloqueou o acesso fluvial a uma das aldeias atendidas pelo DSEI. Sem vacinação contra influenza, a comunidade registrou um surto da doença. Duas crianças morreram. “Nós mobilizamos o governo federal e o governo estadual e antecipamos em dois meses a vacinação de influenza dentro desse território, com um aparato para levar as vacinas por via aérea, usando canoinhas de madeira pra chegar nas casas, deslocando profissionais de outro polos. Foi um plano de contingência e emergência, porque um agravo desse pode matar uma comunidade inteira”, relatou Kislane.

Natália Diniz, profissional que atua no polo de Boca do Acre (AM) e participou da capacitação em Rio Branco, define a relação com as comunidades a partir de um princípio básico de respeito. “No território extramuro, a gente é um convidado. E toda vez que chegamos como convidado na casa de alguém, precisamos pedir permissão, e tem que ter respeito com a rotina dessa casa. Quando a gente faz vacina nos territórios, não é só uma vacina. A gente está dando oportunidade para aquela pessoa ter um futuro com saúde e feliz.”



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