No Acre, padre desafia política tradicional para falar das necessidades humanas: “a religião me conecta com Deus, a política também”


Há uma geografia mística e muito particular que molda os homens da floresta. Para o Padre Antonio Menezes da Silva, de 38 anos, essa cartografia começou a ser desenhada na infância, no Seringal Sardinha, mais precisamente na colocação São Damião, em Manoel Urbano, interior do Acre. Ali, onde o isolamento só era rompido pela poeira ou pela lama das estradas e dos rios, o menino Antonio aprendeu a ler o mundo a partir da expectativa pela chegada de três figuras distintas.

“Três tipos de pessoas nos visitavam: o padre; o professor, porque tinha uma escolinha; e o político, que ia pedir o voto a cada dois ou quatro anos. E eu me apaixonei pelo sacerdócio, me apaixonei pela educação e me tornei professor, me tornei padre, e também pela política. Eu estou nessa missão para servir também através da política.”

Nascido sob a proteção e o dia de Santo Agostinho — em 28 de agosto de 1987 —, Antonio não enxerga fronteiras entre o altar, a lousa e a tribuna. Para ele, as três trajetórias nasceram do mesmo solo fértil: o amor pelas pessoas. Formado em Filosofia e Teologia, escritor e prestes a completar nove anos de ordenação sacerdotal, após uma década inteira de estudos entre Rio Branco e São Paulo, ele faz questão de desfazer o nó que costuma assustar os mais conservadores.

“Uma coisa que muita gente me pergunta, né? ‘Você deixou de ser padre para ser político?’ Não, eu continuo sendo padre, vou continuar sendo professor e quero também servir o povo acreano através da política. Eu quero ser padre, professor e político.”

A encarnação na realidade do povo

No Acre, padre desafia política tradicional para falar das necessidades humanas: “a religião me conecta com Deus, a política também”
Padre Antonio em Xapuri (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Antonio, a batina nunca foi uma redoma de vidro. Pelo contrário. Ele confessa, com a honestidade de quem conhece a crueza da vida real, que o sagrado se completa no chão de terra batida.

“Sendo só padre, o padre é um homem religioso, só fala de Deus. E eu quero falar das necessidades dos seres humanos. Não só me conectar com Deus, mas me conectar também, me encarnar na realidade dos meus irmãos, das minhas irmãs, do povo acreano. A religião, de um certo modo, ela é limitada, uma vez que o padre não é um legislador e nem faz parte do Executivo. Eu quero fazer mais. Eu quero celebrar a missa, mas eu quero também legislar.”

O agora pré-candidato a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) enxerga a política não como um balcão de negócios, mas como uma extensão litúrgica. “A religião me conecta com Deus, a política me conecta com Deus”, reflete, com os olhos brilhando. “A política me conecta com as pessoas, com os mais vulneráveis, com os necessitados, com os esquecidos, com os enfermos, com os idosos, com os jovens, com as famílias. Por isso que eu estou nesse projeto de vida.”

Quando questionado sobre os motivos de mergulhar em um território hoje tão hostil e desacreditado, ele sorri com mansidão:

“Muita gente diz: ‘Padre, mas por que o senhor escolheu entrar na política?’ Não foi só uma escolha minha, acho que a política me escolheu. Eu sou encantado por política, eu amo política, a boa política. Professor, padre, político, são essas três paixões que carrego no coração.”

O chamado de Xapuri e o abraço do ecumenismo

No Acre, padre desafia política tradicional para falar das necessidades humanas: “a religião me conecta com Deus, a política também”
Padre Antonio é formado em Filosofia e Teologia, escritor e possui 9 anos de ordenação sacerdotal (Foto: Arquivo Pessoal)

A entrada formal no Partido dos Trabalhadores veio como um sussurro da própria história acreana, pelas mãos do povo xapuriense. Foi em Xapuri que o convite ganhou corpo, feito pelo ex-prefeito Bira Vasconcelos e por Raimundo de Barros, o “Raimundão”, primo de Chico Mendes. Ao lembrar de Raimundão, o padre adota um tom de reverência bíblica.

“Eu sempre digo para ele que ele me lembra os profetas do Antigo Testamento, né? Um homem assim incrível, a fala dele é muito profética. E ele me fez esse convite: ‘Padre Antônio, meu companheiro, venha trabalhar conosco nesse projeto’. E foi impossível dizer não diante daquele apelo, o povo que me chamava.”

A escolha pela sigla, segundo ele, reside na conexão histórica com a base da sociedade. “Eu sinto o Partido dos Trabalhadores muito conectado com o povo mais simples, o povo mais pobre. É claro que não é um partido perfeito, não existe o partido perfeito”, pondera. Mas sua visão sobre as estruturas partidárias é livre de dogmas:

“O partido, a sigla partidária, não nos define totalmente, né? Nós transcendemos a tudo isso. Uma pessoa que tem projeto, que tem um coração bom, em qualquer partido que ela estiver, vai dar certo. E a pessoa errada, em qualquer partido que ela estiver, vai dar errado. Então, eu estou muito feliz de estar no Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras. Aqui eu me sinto bem, estão me acolhendo muito bem.”

Essa ausência de dogmatismo também se reflete em sua vivência da fé. Antonio é um homem das pontes, não dos muros. Integra o Instituto Ecumênico Fé e Política e rejeita qualquer tipo de barreira denominacional. “Eu sou padre do ecumenismo. Não sou um padre que defenda uma bandeira religiosa, mas eu sempre digo que eu sou padre de todas as denominações religiosas. Sou padre de todas as igrejas. Visito muitas igrejas cristãs, evangélicas, católicas, espíritas. Estou em todos os lugares, onde tem gente, eu me aproximo. Sou encantado pelas pessoas.”

Raízes

Quem vê o homem de fala mansa e formação intelectual robusta talvez não imagine as marcas calosas em suas mãos. Antonio carrega na identidade o orgulho de sua origem.

“Eu sou filho de seringueiro. Sou seringueiro também, cortei seringa até 14 anos de idade com o meu pai. Conheço a realidade das pessoas. E o Parlamento é onde eu quero colocar o meu coração para servir o povo acreano. Eu tô muito focado nisso: servir o povo.”

Para ele, os futuros projetos no Parlamento não cabem em cartilhas tecnocratas ou em uma única promessa de campanha. Sua plataforma é a própria vida de quem acorda antes do amanhecer.

“Eu não tenho apenas uma bandeira para levantar, mas, assim, conhecer mesmo, como já conheço, a realidade das pessoas e lutar por elas. Facilitar a vida do povo, da nossa gente que trabalha de sol a sol e, às vezes, são sabotados, enganados, iludidos. E o Parlamento é onde a gente quer dar voz àqueles que não têm voz, vez aos que não têm vez.”

Ciente de que o papel de um deputado estadual é legislar, fiscalizar e propor, e não executar diretamente as obras, Padre Antonio resume sua pré-candidatura com a urgência de quem tem pressa em fazer o bem.

“Eu coloquei o meu coração na religião, na educação, mas também na política. Então, eu quero servir o povo acreano. Eu quero servir mesmo, verdadeiramente. Eu quero fazer diferente. E, fazendo diferente, faremos a diferença. Disso eu não tenho dúvida, não abro mão disso.”

Afastamento canônico

Para garantir a total transparência desse processo e evitar que misturem sua missão religiosa com a caminhada eleitoral, Antonio tomou uma decisão firme: pediu um afastamento canônico de cerca de seis a sete meses. O objetivo é conduzir a pré-campanha e campanha de forma ética, sem usar o espaço sagrado como palanque, e ter a liberdade necessária para percorrer e ouvir os municípios do estado. Embora compreenda a neutralidade institucional exigida pelas lideranças da Igreja, o pré-candidato celebra o acolhimento caloroso que tem recebido de seus pares na fé.

“Eu pedi para me afastar, canonicamente, seis, sete meses de afastamento para eu fazer a pré-campanha, para depois não falar assim: ‘o padre está usando o altar, o presbitério, para pedir voto’. Então, eu pedi para me afastar, até porque eu quero agora andar o Acre inteiro. Eu estou fazendo isso, né? Eu não quero ficar só numa paróquia. Já conversei com todos os padres, com os diáconos, com as religiosas, religiosos, seminaristas e, graças a Deus, a aceitação está assim, extraordinária, muito melhor do que eu imaginava”, revela.



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