Entre Dante Alighieri e Nicolau Maquiavel: Uma reflexão sobre moralidade política e pragmatismo no universo político roraimense



A política, historicamente, sempre transitou entre duas dimensões antagônicas: a moralidade idealizada e a racionalidade pragmática. Desde a Antiguidade, filósofos, juristas e pensadores buscaram compreender se o exercício do poder deveria submeter-se integralmente aos valores morais ou se, em determinadas circunstâncias, a lógica da preservação política justificaria condutas estratégicas e, por vezes, impopulares.

No cenário contemporâneo, sobretudo nas democracias latino-americanas, observa-se crescente tendência à personalização do debate político, frequentemente marcada por paixões exacerbadas, ressentimentos eleitorais e análises superficiais. Nesse contexto, qualquer rearranjo administrativo, recomposição de alianças ou redefinição estratégica passa a ser interpretado sob a ótica emocional da lealdade ou da traição, obscurecendo a complexidade inerente à ciência política.

O universo político roraimense não escapa dessa dinâmica. Ao contrário, em razão das particularidades regionais e da forte proximidade entre grupos políticos e setores sociais, a interpretação moralizante dos acontecimentos tende a ganhar contornos ainda mais intensos.

A política precisa ser analisada com menos moralismo simplificador e mais racionalidade estratégica, sem que isso implique o abandono dos valores individuais. Evidentemente, a ciência política não é matemática, de modo que não se pode cravar o resultado final dos acontecimentos. Ainda assim, trata-se de uma área que, como tantas outras, permite análises, construção de cenários, retrospectivas e levantamentos, sempre respeitando as particularidades de cada região ou país.

Há aproximadamente dois anos, este que vos escreve ousou pressagiar, entre um seleto grupo de amigos, a quadra política que hoje se desenha. Na ocasião, um mero voto vencido. Havia alguma genialidade nessa previsão? Não, de forma alguma. Apenas advogava-se que o então prefeito Arthur ganharia vida própria em um futuro já avizinhado, desenlaçando-se de sua mentora, a ex-prefeita Teresa Surita. Afinal, nenhum agente político sobrevive por longo período sendo mera extensão administrativa de outrem. De sorte que a não impressão do seu próprio carize semblante é, notoriamente, abdicar de uma identidade.

É razoável e natural que alguém assimile a experiência de um mentor e busque aprimorá-la, caso contrário, reduzir-se-ia à condição de simples coadjuvante ou auxiliar. Faz-se necessário, portanto, atribuir valor à própria gestão, preservando aquilo que foi exitoso e reconfigurando as peças do tabuleiro político, mantendo ou incluindo novos membros a equipe. 

Com a mesma naturalidade, isso também se depreende do atual prefeito, ao que tudo indica um noviço bem-intencionado no segmento político, mas apto a consubstanciar um modelo autônomo e singular, capaz de mesclar o legado da administração anterior aos elementos novos da gestão atual, ressignificando e aprimorando o espaço público.

Segundo Max Weber (2004), a política está diretamente vinculada à disputa legítima pelo poder e pela capacidade de influenciar decisões coletivas. Nesse sentido, a permanência absoluta de estruturas administrativas imutáveis frequentemente revela não estabilidade, mas ausência de identidade política. A reflexão sobre o tema da traição é estritamente subjetiva.

Nicolau Maquiavel, em sua clássica obra O Príncipe, estabelece distinção fundamental entre ética privada e ética política. A primeira está associada aos valores morais, religiosos e individuais; a segunda, à manutenção do poder, da estabilidade institucional e da governabilidade.

Ao contrário do senso comum, Maquiavel não defendia a perversidade como virtude política, mas a necessidade de compreender a política tal como ela efetivamente é, e não como idealmente deveria ser. Para o autor florentino, governantes excessivamente guiados por sentimentalismos tendem a sucumbir diante das exigências concretas do poder (MAQUIAVEL, 2010)

Exige-se, portanto, um jogo de profunda racionalidade estratégica, frequentemente despido das emoções típicas das relações privadas. Isso não significa legitimar práticas antiéticas ou corrupção moral, mas reconhecer que a política opera mediante alianças transitórias, rearranjos institucionais e conflitos permanentes de interesses. Por exemplo, a ruptura entre o ex-prefeito Arthur Henrique e sua antiga aliada pode ser vista como uma estratégia para consolidar um maior eleitorado. 

Nesse aspecto, torna-se necessário afastar leituras infantis da realidade política. A disputa pelo poder não comporta sensibilidade exacerbada nem a distribuição precipitada de epítetos como “traidor”, “desleal” ou “ingrato”, sobretudo quando analisada sob o prisma técnico da ciência política contemporânea.

Se, ao contrário, a análise recair sobre o mero senso comum, talvez seja mais adequado se arvorar alegoricamente à Divina Comédia, de Dante Alighieri. Na obra, o autor descreve o Inferno como espaço organizado em círculos correspondentes à gravidade dos pecados humanos.

A traição ocupa o grau máximo da degradação moral, subdividida em quatro zonas específicas:

1. Caina — destinada aos traidores de familiares; 

2. Antenora — destinada aos traidores da pátria ou do partido; 

3. Tolomeia — reservada aos traidores da hospitalidade e da confiança; 

4. Judecca — a região mais profunda do Inferno, destinada aos traidores de seus benfeitores

A analogia revela como a cultura ocidental historicamente associou a traição à ruptura absoluta da ordem moral. Todavia, transportar mecanicamente essa lógica medieval para o ambiente político contemporâneo pode conduzir a interpretações simplistas e emocionalmente carregadas.

Conforme observa Hannah Arendt (1999), a política não deve ser reduzida à esfera da moral privada, pois sua essência reside justamente na pluralidade, no dissenso e na permanente negociação entre interesses divergentes.

Por fim, o que se propõe neste lampejo de reflexão é a separação entre as peças do xadrez político, sem que isso implique a perda dos valores individuais ou morais do eleitor e dos postulantes a cargos públicos.

Trata-se de reconhecer que há bons e maus gestores, pessoas providas ou desprovidas de princípios, mas também de compreender que a política moderna exige racionalidade analítica, moderação interpretativa e maturidade institucional.

A personalização excessiva dos conflitos políticos produz ressentimentos improdutivos e obscurece a compreensão estrutural das dinâmicas de poder. Em vez da política transformada em arena emocional, talvez seja mais sensato compreendê-la como espaço inevitável de disputa, negociação e estratégia.

Entre Dante Alighieri e Nicolau Maquiavel, entre o Inferno moral da traição e a racionalidade pragmática do poder, encontra-se precisamente o grande dilema da política contemporânea.

REFERÊNCIAS

BOBBIO, Norberto. Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Tradução de Ítalo Eugênio Mauro. São Paulo: Editora 34, 1998.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Edipro, 2010.

WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2004

Prof. Weslley Danny – Doutor e Mestre, graduado em Filosofia, História, Letras, Biologia, Enfermagem, graduando em Ciência Política. No que tange o segmento humanístico compila pós-graduações nas seguintes áreas: (ciência política), (filosofia, sociologia e ciências sociais), (ética e filosofia política) e (história e antropologia). 



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