O casamento sempre esteve nos planos de Rosana de Vasconcelos Cavalcante, de 47 anos, e Emerson Ferreira Duarte, de 41, mas durante anos a vida exigiu outras prioridades. Entre tratamentos médicos, dificuldades financeiras e uma rotina inteiramente dedicada aos cuidados do filho caçula, o casal adiou o sonho de oficializar a união construída ao longo de duas décadas juntos. Na última sexta-feira (15), os dois participaram da quarta edição do casamento coletivo ‘Enfim, Casados!’, promovido pela Defensoria Pública de Roraima (DPE-RR), no Parque Rio Branco, e viveram pela primeira vez a experiência completa de um casamento.
Rosana nasceu em Tefé, no Amazonas. Emerson é roraimense e de origem indígena. Os dois se conheceram no dia 12 de junho de 2005, Dia dos Namorados, quando ela trabalhava como depiladora em uma loja no Centro de Boa Vista e ele atuava como promotor de vendas de um plano de saúde.
O relacionamento começou poucos dias depois do primeiro encontro e, apesar da resistência inicial da família por conta da diferença de idade entre os dois, acabou se transformando em uma união de duas décadas, da qual nasceram Maria Eduarda Cavalcante Duarte, hoje com 21 anos, e Edson Mota Duarte Neto, de 18. Rosana também é mãe de Anne Caroline, de 28 anos.




“Ele me conheceu em um momento muito frágil da minha vida e conseguiu tirar o melhor de mim. A gente enfrentou muitas barreiras no começo, mas conseguiu superar tudo junto”, relembrou Rosana.


Ao longo dos anos, o casal construiu a vida em Boa Vista enquanto enfrentava mudanças que alteraram completamente a rotina da família. O caçula dos dois, hoje com 18 anos, foi diagnosticado com autismo severo e esquizofrenia. Não verbal, ele necessita de acompanhamento constante, o que fez com que Rosana e Emerson reorganizassem toda a dinâmica da casa em função dos cuidados com o jovem.
O casamento que ficou para depois




Segundo Rosana, a rotina intensa de cuidados fez com que muitos planos fossem adiados ao longo dos anos, entre eles o casamento civil.
“Nossa vida girou em função dele. A gente abriu mão de muita coisa pelo nosso filho. Quem é mãe e pai atípico sabe que existe uma sobrecarga física e emocional muito grande. A gente se desdobra para conseguir cuidar dele”, afirmou.
Ela conta que o filho apresentou mudanças bruscas de comportamento ainda na infância. Até os sete anos, segundo a mãe, ele se desenvolvia normalmente. Depois disso, passou a apresentar sintomas que levaram a família a buscar atendimento médico.
“Ele brincava, interagia, era muito vaidoso. Do nada, mudou completamente. Nós já passamos por muitos médicos e durante muito tempo ninguém conseguia entender exatamente o que ele tinha”, disse.
A rotina da família passou a ser marcada por consultas, tratamentos, viagens e adaptações necessárias para acompanhar o desenvolvimento do filho. Emerson afirma que, durante muitos anos, o casal precisou reorganizar completamente a vida pessoal em função dos cuidados com o jovem.
“Quando um precisava sair, o outro ficava em casa com ele. A gente praticamente não conseguia fazer as coisas juntos”, afirmou.
Além da rotina intensa dentro de casa, Rosana e Emerson também precisaram interromper ou adiar objetivos pessoais e profissionais ao longo dos anos. Segundo ela, a prioridade da família sempre foi garantir estabilidade e qualidade de vida para o filho.
“A gente abriu mão de muita coisa. Faculdade, tempo juntos, saídas. Tudo acabava girando em torno da rotina dele”, disse.
Hoje, os dois atuam na área da educação. Rosana se formou em Gestão Pública e, posteriormente, em Educação Especial. Emerson concluiu a graduação em Educação Física e trabalha com promoção de eventos esportivos em Boa Vista.
“Agora a gente está correndo atrás do prejuízo”, brincou Rosana ao falar sobre a retomada dos planos pessoais depois de anos dedicados quase exclusivamente aos cuidados da família.
O casal também considera o casamento uma espécie de recomeço. Emerson afirma que a oficialização da união representa uma nova etapa para a família.
“É uma bênção para a nossa casa. A gente acredita muito na união da família e no casamento como algo importante diante de Deus”, afirmou.


O documento que quase impediu o casamento
A participação de Rosana e Emerson no casamento coletivo da Defensoria Pública quase não aconteceu. Rosana havia perdido o registro de nascimento e precisava do documento atualizado para concluir a inscrição na cerimônia.
Segundo Emerson, o casal chegou a acreditar que ficaria de fora por não conseguir localizar a documentação a tempo.
“Com a perda do registro, a gente praticamente já estava fora. Foi uma luta para conseguir esse documento”, contou.
Com auxílio da Defensoria Pública, o registro foi localizado em Tefé e chegou poucos dias antes da cerimônia. Emerson afirma que a equipe da instituição acompanhou o processo para garantir que o casal pudesse participar do casamento coletivo.
“A Defensoria ajudou em todo o processo e o documento chegou praticamente na última hora”, afirmou.
Vestindo Sonhos: iniciativa garantiu vestido, acessórios e traje social ao casal


Além da regularização documental, Rosana e Emerson também participaram da campanha Vestindo Sonhos e receberam vestido, blazer, camisa, calça, sapatos e acessórios utilizados na cerimônia sem custos adicionais. Para o casal, a iniciativa ajudou a reduzir despesas em um momento em que boa parte da renda da família ainda é direcionada aos cuidados e tratamentos do filho.
“Foi unir o útil ao agradável. A gente sabe que alugar roupas de noivos hoje em dia é muito caro, e como já temos muitos gastos relacionados ao tratamento do nosso filho, participar da campanha foi importante porque não tivemos gastos adicionais”, explicou Rosana.
Criada pela Defensoria Pública de Roraima, a iniciativa arrecada vestidos, ternos, blazers, sapatos e acessórios para os casais que participam do casamento coletivo promovido pela instituição. As peças são emprestadas aos noivos durante a cerimônia e passam a integrar um acervo utilizado nas edições seguintes do projeto.
Segundo a defensora pública Elceni Diogo, coordenadora do projeto ‘Enfim, Casados!’, a iniciativa surgiu para garantir que os participantes também pudessem viver plenamente o momento da cerimônia.
“Essa campanha busca auxiliar especialmente casais que já têm família constituída e querem participar do casamento coletivo, mas falta aquele item básico para esse dia, como vestido, sapato, camisa ou acessórios”, explicou.
Entre as pessoas que contribuíram para a campanha está a social media Crys Martins, que decidiu doar o véu utilizado no próprio casamento para o acervo da Defensoria. Para ela, o gesto representa a possibilidade de tornar o momento especial também para outras mulheres.


“Quando eu me vi de noiva, me senti uma verdadeira princesa. O casamento já é um sonho, mas vestir um véu faz a mulher se sentir ainda mais noiva. Eu decidi doar para que outra pessoa também fosse abençoada como eu fui”, afirmou.
“O que faz dar certo é o respeito”


“O que faz dar certo é o respeito. Todo casal enfrenta dificuldades, mas nunca faltou respeito entre nós. A gente enfrentou muita coisa junto e continua aqui”, disse Emerson.
Após 20 anos juntos, Rosana e Emerson afirmam que o casamento representa uma nova etapa da trajetória construída pelos dois. Entre tratamentos médicos, dificuldades financeiras, renúncias pessoais e recomeços, o casal define a própria história como uma relação sustentada pelo companheirismo.
Rosana concorda. “Ele sempre foi muito companheiro. Acho que um completa o outro. Foi isso que fez a gente chegar até aqui.”
Enfim, Casados: o direito de oficializar uma história


Realizado pela quarta vez, o casamento coletivo promovido pela Defensoria Pública de Roraima reuniu 258 casais no Parque Rio Branco, que também conseguiram oficilizar a união construída ao longo dos anos.


Para o defensor público-geral em exercício, Natanael Ferreira, a cerimônia representa não apenas a realização de um sonho.
“Existe a alegria de participar da realização do sonho dessas pessoas, mas também existe a garantia de direitos e da segurança jurídica para essas famílias”, afirmou.
Para Rosana e Emerson, no entanto, a formalização da união representa também o encerramento de um ciclo marcado por renúncias e o início de uma nova etapa construída depois de 20 anos juntos.
“Era algo que estava nos nossos planos há muitos anos. Agora conseguimos realizar”, concluiu Rosana.

