Manaus – A Comissão de Familiares dos Policiais Militares Custodiados divulgou neste sábado (16) um manifesto público direcionado à Polícia Militar do Amazonas (PMAM). No documento, o grupo faz um apelo e denuncia o sentimento de abandono, medo e a falta de amparo emocional e institucional por parte do comando da corporação e de representantes políticos da categoria.

(Foto: Divulgação Erick Nogueira GDC)
O principal ponto de questionamento é a permanência de maridos, filhos e pais dentro do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Segundo os familiares, os agentes, muitos deles presos provisórios ou que ainda recorrem de sentenças judiciais, estão confinados em um presídio comum, separados de detentos de alta periculosidade apenas pelo que chamam de “muro da morte”.
“Homens que dedicaram suas vidas à segurança pública agora vivem sob risco permanente, longe da proteção mínima que deveria ser garantida pela própria instituição à qual servem ou serviram”, cita trecho do manifesto.
Segundo o Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), uma série de irregularidades foram encontradas no antigo Núcleo Prisional da Polícia Militar do Amazonas, localizado no bairro Monte das Oliveiras, zona norte da capital, onde os PMs estavam custodiados. Ainda de acordo com o órgão, os presos respondem por crimes como homicídio, crimes sexuais, roubo, extorsão, sequestro e outros delitos graves.
A comissão dos familiares argumenta que a manutenção de policiais militares no sistema prisional comum fere preceitos constitucionais e regulamentos militares, os quais determinam que os membros da corporação devem cumprir custódia em unidades próprias da PM.
Além do risco físico, o grupo critica a falta de transparência e de diálogo com o comando. De acordo com o texto, as decisões e informações sobre visitas e garantias de integridade física têm chegado aos parentes por meio de boatos e redes sociais.
A carta aberta encerra com uma convocação para que os policiais militares da ativa se mobilizem, assinem um abaixo-assinado e demonstrem apoio aos colegas detidos. O grupo alerta que a situação atual abre um precedente perigoso para toda a categoria.
“Amanhã, por qualquer motivo banal, administrativo, político ou circunstancial, pode ser a família de qualquer policial desta corporação vivendo o mesmo pesadelo”, conclui o documento.
Confira a nota na íntegra
CARTA ABERTA AOS POLICIAIS MILITARES DO AMAZONAS
Nós, familiares dos policiais militares atualmente custodiados no Complexo Penitenciário do COMPAJ, dirigimo-nos a cada homem e mulher que veste a farda da Polícia Militar do Amazonas para fazer um apelo que nasce da dor, do medo e, acima de tudo, do sentimento de abandono.
Hoje, nossos maridos, filhos, irmãos e pais encontram-se confinados em um espaço que jamais deveria receber policiais militares. Estão dentro de um complexo penitenciário comum, cercados por faccionados e criminosos de alta periculosidade, separados apenas pelo que ficou conhecido como “muro da morte”.
Homens que dedicaram suas vidas à segurança pública agora vivem sob risco permanente, longe da proteção mínima que deveria ser garantida pela própria instituição à qual servem ou serviram.
E é preciso lembrar: muitos dos que hoje estão atrás daqueles muros são presos provisórios, outros que ainda recorrem de suas sentenças e que sequer tiveram suas situações definitivamente julgadas em todas as esferas da Justiça.
São policiais que, em inúmeras ocorrências, precisaram tomar decisões em segundos para proteger inocentes, salvar famílias e impedir que criminosos avançassem contra a sociedade. Em países que valorizam verdadeiramente suas forças de segurança, muitos desses homens seriam tratados como heróis por terem colocado suas próprias vidas em risco para preservar vidas inocentes.
Mas aqui vivem o abandono.
A Constituição, os regulamentos militares e os princípios básicos da dignidade humana apontam que policiais militares devem permanecer sob custódia em unidade própria da corporação. O que vemos hoje é uma ruptura grave dessa proteção institucional.
O mais doloroso não é apenas o cárcere.
É o silêncio.
É a ausência de diálogo honesto e transparente com as famílias.
É a falta de respostas.
É a insegurança diária.
É perceber que mães, esposas e filhos vivem sem qualquer amparo emocional ou institucional.
Falta humanidade.
Falta transparência.
Falta comando.
Nenhuma família deveria descobrir informações por boatos, redes sociais ou notícias desencontradas. Nenhuma família deveria implorar por informações básicas sobre segurança, visitas e garantias mínimas de integridade física.
Mas esta carta não fala apenas sobre os que estão lá dentro.
Ela fala sobre todos vocês.
Porque hoje são as nossas famílias que choram sem dormir. Somos nós que vivemos com medo do telefone tocar de madrugada. Somos nós que atravessamos dias de angústia imaginando o que pode acontecer atrás daqueles muros.
Amanhã, porém, por qualquer motivo banal, administrativo, político ou circunstancial, pode ser a família de qualquer policial desta corporação vivendo o mesmo pesadelo.
Nenhum policial entra para a PM imaginando que um dia poderá ser descartado pela própria estrutura que jurou defender.
E é justamente isso que mais dói.
Ver homens tratados com menos dignidade do que o próprio Estado muitas vezes garante até aos animais. Ver policiais esquecidos por aqueles que deveriam defendê-los. Ver representantes políticos da categoria silenciarem enquanto famílias inteiras adoecem emocionalmente.
Nós não pedimos privilégios.
Pedimos humanidade.
Pedimos legalidade.
Pedimos proteção.
Pedimos respeito às garantias constitucionais.
Pedimos que os policiais militares do Amazonas não sejam lançados à própria sorte em meio ao sistema prisional comum.
Por isso, clamamos pelo apoio de toda a tropa.
Assinem o abaixo-assinado.
Levantem suas vozes.
Mostrem que a farda ainda representa irmandade.
Mostrem que nenhum policial está sozinho.
Porque quando um policial perde sua dignidade, toda a corporação perde junto.
Hoje somos nós.
Amanhã podem ser vocês.
Comissão de Familiares dos Policiais Militares Custodiados
Manaus, 16 de Maio de 2026
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