Manaus – A edição do Diário Oficial do Município (DOM), publicada nesta quinta-feira (14), espantou condutores da capital amazonense ao dedicar nada menos que 78 páginas exclusivamente para notificação de autuação e penalidade de trânsito. A publicação traz milhares de autuações e penalidades, gerando revolta em motoristas que apontam uma possível ‘indústria da multa’, falta de sinalização e excesso de fiscalização eletrônica.

(Foto: Divulgação IMMU)
O volume massivo de veículos listados pelo Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) reforça a hipótese levantada por condutores e pelo especialista e ex-diretor do Departamento de Trânsito do Amazonas, Manoel Paiva, sobre um desejo incontrolável de ‘arrecadação’ da Prefeitura de Manaus, em detrimento de ações educativas e de melhoria na infraestrutura viária.
O especialistas aponta que o aumento da frota que em janeiro de 2026 já atingiu 1,3 milhão de veículos não foi acompanhado por uma adaptação correspondente na sinalização e fiscalização. O modelo de mobilidade de Manaus incorporou a motocicleta como solução rápida de rendimento e deslocamento, mas falhou ao não implementar o conceito de ‘Sistema Seguro’, onde a gestão pública deve projetar vias que perdoem o erro humano em vez de puni-lo com a morte.
“As nossas vias não têm infraestrutura pra suportar tanto veículo. Nós temos mais veículos que vias. E as nossas vias, elas não são gerenciadas porque não tem gente, não tem projeto, não há processo de conservação de rodovias, nas sinalização, no sistema de operacionamento viário, uma coisa tá ligada a outra. E nós estamos pagando um preço que nós investimos.”
O especialista faz apontamentos sobre o ‘Maio Amarelo’. Segundo ele, o mês é marcado anualmente pela campanha que tem por objetivo conscientizar a sociedade sobre a importância da redução de acidentes e vítimas fatais no trânsito, mas a Prefeitura de Manaus, por meio do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), promoveu neste ano, a distribuição de credenciamento para estacionamento de idosos e a ação gerou questionamentos do especialista.
“A campanha de Maio amarelo vai melhorar o trânsito? Claro que não! Pra onde tá indo o dinheiro da multa, pra onde vai o dinheiro do IPVA [Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores] a gente vê essas melhorias nas ruas? O questionamento dos condutores é válido. Eles relatam que a fiscalização tá pra tomar o dinheiro deles. Você tá devendo o IPVA vou te tomar o carro, ninguem tá legal, a gasolina tá cara, o combustível, o custo de vida, só vocês têm razão para multar?”, muitos condutores questionam, diz o especialista.
Manoel Paiva esclarece também que há falta de transparência da Prefeitura onde está sendo aplicado o dinheiro arrecadado com as multas, além de uma profunda “deficiência gerencial” no trânsito de Manaus.
“Atualmente, a capital amazonense conta com apenas 281 interseções semaforizadas para atender uma frota que já supera 1,1 milhão de veículos. Deste total, apenas 135 pontos (48%) possuem tecnologia inteligente, enquanto o restante ainda opera com sistemas analógicos obsoletos. Essa limitação técnica impede uma fiscalização eletrônica abrangente: hoje, apenas 22% da rede semafórica é coberta por monitoramento capaz de coibir o avanço de sinal vermelho e o desrespeito à faixa de pedestres”.
Segundo a análise, o número de multas emitidas não representa sequer 10% das infrações que ocorrem diariamente, evidenciando que o poder público falha em notificar e orientar por pura falta de cobertura tecnológica.
“A fragilidade na gestão é agravada pelo déficit no quadro de pessoal. Manaus possui, no máximo, 300 agentes de trânsito, quando o contingente necessário para uma população deste porte seria de, pelo menos, mil profissionais. Sem agentes suficientes para a operação viária e sem tecnologia de ponta em todas as zonas, a fiscalização torna-se pontual e incapaz de romper o que a especialista chama de “invisibilidade social” no trânsito. É preciso levar sinalização e educação para as periferias, garantindo que o idoso, a criança e a pessoa com deficiência tenham faixas seguras e calçadas acessíveis”, destaca a análise.
Apenas o Caderno III da edição traz uma sequência interminável de placas, códigos de infração e datas de emissão. Entre as infrações mais recorrentes no documento estão a de código 745-5/0, que significa transitar em velocidade superior à máxima permitida em até 20%, código 605-0/3 que aponta que o condutor avançou o sinal vermelho do semáforo capturado pela fiscalização eletrônica e o código 518-5/1 que aponta que o condutor ou passageiro não usaram o cinto de segurança.
Em uma análise rápida das primeiras páginas, é possível observar veículos que acumulam múltiplas notificações em um intervalo de poucos dias, o que levanta questionamentos sobre a visibilidade dos radares e a eficácia da sinalização em pontos estratégicos da cidade.
O edital estabelece que os proprietários dos veículos listados têm um prazo de 30 dias, a contar da data da publicação, para apresentar o condutor infrator ou protocolar a Defesa da Autuação junto ao IMMU.
Para quem depende do veículo para trabalhar, como motoristas de aplicativo e entregadores, o edital de 78 páginas representa um “balde de água fria”.
“É humanamente impossível acompanhar o Diário Oficial todos os dias. Quando descobrimos a multa, muitas vezes o prazo para recurso já está apertado ou o valor já está pesado no orçamento”, desabafa um motorista que prefere não se identificar.
Enquanto as páginas do Diário Oficial seguem repletas de penalidades, a população cobra que o montante arrecadado com essas multas seja revertido, de forma clara e visível, no recapeamento de ruas e na melhoria da sinalização deficitária que, ironicamente, muitas vezes é a causa das infrações. Nesta sexta, o Portal D24AM publicou vídeos que repercutiram nas redes sociais e expõem o avanço da degradação viária em Manaus, além de evidenciarem o descaso da Prefeitura com a infraestrutura básica da capital.
Os registros flagraram desde uma ambulância do SOS Manaus impedida de trafegar no bairro Nova Vitória, zona leste, obrigando profissionais a empurrarem uma paciente cadeirante ladeira acima entre buracos e lama, até o isolamento de moradores no Beco Ayrão, na Praça 14 de Janeiro, zona sul, onde a via se tornou completamente intrafegável ante a falta de ações de recapeamento do município.
Além das denúncias sobre a fiscalização eletrônica, dados oficiais do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) revelam um cenário alarmante na segurança viária da capital. Segundo o relatório de sinistros, Manaus registrou um salto de 24,3% no número de vítimas fatais no trânsito, passando de 254 óbitos em 2023 para 309 em 2024.
O grupo mais vulnerável é o de motociclistas, que teve um aumento de 32% nas fatalidades, seguido por um crescimento de 50% nas mortes de ciclistas. Esse aumento na letalidade ocorre em paralelo à expansão da frota municipal, que já ultrapassa a marca de 1,3 milhão de veículos em janeiro de 2026, sendo composta majoritariamente por automóveis (50%) e motocicletas (44%), pressionando ainda mais a infraestrutura e o sistema de fiscalização da cidade.
Confira os dados clicando aqui DADOS DE SINISTROS _ FROTA 2024 _ 2025_ 2026
Dados mais recentes de 2026 revelam que a crise na segurança apresenta sinais de agravamento no primeiro quadrimestre, com o trânsito da capital sendo classificado como ‘letal e hostil’. O período de janeiro a abril de 2026 registou 89 vítimas fatais, um aumento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior. O destaque negativo recai novamente sobre os motociclistas, onde 43 profissionais e condutores perderam a vida, representando um salto de 40% nas mortes deste grupo específico.
Somados, motociclistas e pedestres representam 79% do total de óbitos na cidade, evidenciando que a infraestrutura atual não protege os usuários mais vulneráveis.
Confira os dados clicando aqui VÍTIMAS FATAIS – Janeiro _ Abril 2026
Veja o Diário Oficial do Município com o relatório das multas clicando aqui DOM 6311 14.05.2026 CAD 3