O medo da morte, a solidão de um quarto de hospital a milhares de quilômetros de casa e uma cirurgia no coração marcada para dali a poucos minutos. Foi nesse cenário, há cerca de 25 anos, que a professora acreana Clarilene Crispim, hoje com 51 anos, afirma ter vivido a experiência que transformou para sempre sua relação com Nossa Senhora de Fátima.
Nesta quarta-feira, 13, data em que a Igreja Católica celebra Nossa Senhora de Fátima, a história da moradora de Rio Branco se mistura à devoção de milhões de fiéis ao redor do mundo que enxergam na santa um símbolo de proteção, esperança e consolo diante das dificuldades.
Clarilene conta que tinha 25 anos quando recebeu o diagnóstico de Comunicação Interatrial (CIA), um problema cardíaco congênito caracterizado por uma abertura no septo que separa os átrios do coração.
Segundo ela, os médicos informaram que seria necessário realizar uma cirurgia com urgência, procedimento que, na época, não era feito no Acre.
“Para mim, há 25 anos, cirurgia no coração era algo muito sério, que a gente sempre associava à morte”, relembra.
Ela foi encaminhada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para Goiânia, onde faria o procedimento em um hospital especializado em cardiologia.

“Elas disseram que Fátima iria conduzir a cirurgia”
A cirurgia foi marcada para o dia 5 de maio, às 8h da manhã. Clarilene conta que aguardava sozinha no quarto do hospital enquanto a irmã esperava notícias do lado de fora.
Foi nesse momento que, segundo ela, três freiras entraram no quarto carregando uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e um terço nas mãos.
“Elas perguntaram se podiam rezar comigo. Nós rezamos uma dezena do terço e elas disseram para eu ficar tranquila, porque Fátima iria conduzir cada médico e que a cirurgia seria um sucesso”, conta emocionada.
Pouco depois, a cirurgia foi adiada para o período da tarde devido a uma emergência no hospital.
Enquanto aguardava, a irmã de Clarilene acreditou que ela já estava em cirurgia e entrou em desespero após uma paciente morrer durante o procedimento realizado naquele horário.
“Minha irmã achou que era eu. Ela chorou muito quando chegou no quarto”, relembra.
Ao contar para a irmã sobre a visita das freiras, uma enfermeira afirmou que ninguém havia entrado no quarto naquele horário.
“A enfermeira disse que naquele momento não podia entrar ninguém, só no horário de visita. Ela foi verificar e disseram que não tinham entrado três irmãs lá”, relata.
Mesmo após tantos anos, Clarilene diz que ainda se emociona ao lembrar do episódio.
“Eu sou eternamente grata, porque Nossa Senhora intercedeu por mim diante de Deus e minha cirurgia foi um sucesso.”
Devoção que atravessa gerações
Depois da cirurgia, Clarilene voltou para Rio Branco e passou a intensificar a devoção a Nossa Senhora de Fátima dentro da própria família.

Hoje, segundo ela, imagens da santa estão espalhadas por toda a casa, o rosário a acompanha diariamente e os momentos de oração se tornaram tradição familiar.
“Todo primeiro sábado do mês a gente reza o terço em família na casa da minha mãe. Minha família inteira se tornou devota de Nossa Senhora de Fátima”, afirma.
Ela também participa da associação Devotos de Fátima ao lado do esposo e diz que todos os anos acompanha as celebrações religiosas realizadas em maio.
“Nós participamos da novena, do tríduo, da missa, da procissão. Sempre levamos flores, terços, lembrancinhas. É uma devoção muito forte para nós”, conta.

Mensagem de Fátima segue atual, diz padre
A celebração do Dia de Nossa Senhora de Fátima marca a primeira aparição da Virgem Maria aos três pastorinhos na Cova da Iria, em Portugal, no ano de 1917.
Para o padre Massimo Lombardi, a mensagem deixada por Fátima continua atual diante dos desafios enfrentados pela humanidade.
“A história de Nossa Senhora de Fátima permanece como uma das mensagens proféticas mais impactantes da Igreja Católica”, afirma.
O sacerdote, que já visitou o santuário português, explica que os chamados “Segredos de Fátima” podem ser interpretados como reflexões sobre sofrimento humano, paz e perseverança da fé.
Segundo ele, a primeira mensagem dialoga diretamente com o vazio existencial e a falta de valores espirituais da sociedade moderna.
Já a segunda parte, relacionada à paz, reforça que a verdadeira transformação começa na conversão interior e na busca pela justiça.
Por fim, a terceira mensagem, associada ao atentado contra o Papa João Paulo II, simboliza resistência e permanência da fé mesmo diante das dificuldades.
“O mal não tem a última palavra”
Em tempos marcados por ansiedade, guerras, crises e inseguranças, padre Massimo afirma que a espiritualidade pode funcionar como um instrumento de equilíbrio emocional.
“Nós estamos vivendo num mundo ansioso, e a oração atua como um remédio emocional e espiritual. É um pedido diário para parar e avaliar a nossa vida”, afirma.
O sacerdote também destaca a importância da solidariedade e do cuidado com o próximo. “A vida é tão curta para sermos egoístas”, resume.
Ao falar sobre o significado do Dia de Nossa Senhora de Fátima, ele reforça que a data representa esperança mesmo diante dos cenários mais difíceis.
“Apesar dos conflitos, das guerras, das crises climáticas, políticas, epidemias, pandemias, o mal não tem a última palavra”, conclui.