Um pouco de “O anel progressista”, meu livro mais recente


Nos últimos três anos (arredondando), dediquei muito de tempo, reflexão e trabalho à escrita desse livro que é minha estreia fora da ficção. Trata-se de um ensaio político-filosófico, com a pretensão de demonstrar como o socialismo, recodificado, investe de modo fragmentado sobre a sociedade, buscando, porém, os mesmos objetivos de outrora. Uso como chave hermenêutica o mito platônico “O Anel de Giges” que, como verão os leitores, facilita a compreensão da inserção do progressismo no meio social. Abaixo dou um “spoiler” do capítulo conclusivo para cutucar suas mentes. De antemão, agradeço ao site ac24horas pela oportunidade. Ao livro:

 – O que Platão viu que nós esquecemos.

Voltemos à República de Platão, ao pastor Giges, ao anel que tornava invisível quem o usava, e à pergunta que o mito colocava com uma gravidade filosófica que vinte e quatro séculos não amenizaram. O que faz o homem justo quando descobre que pode agir sem ser visto? Platão não estava interessado apenas em Giges. Estava interessado no poder. Mais precisamente, no poder que opera sem rosto, sem nome, sem endereço, aquele que age em toda parte sem que ninguém possa apontar para ele e dizer: ali está o responsável. De certo modo, descrevia o projeto que este livro analisou. 

O anel de Giges é a descrição mais precisa disponível na história do pensamento humano do mecanismo pelo qual o poder se torna irresponsável — e do perigo que esse poder representa para qualquer ordem que pretenda ser justa. O pastor que encontrou o anel não era essencialmente mau. Era humano. E a humanidade, quando descobre que pode agir sem consequências, tende a agir em benefício próprio, independentemente do custo para os outros. O socialismo do século XXI encontrou o anel. 

– A tese central — enunciada sem evasão 

Esse livro defende uma tese que pode ser enunciada em três proposições encadeadas com rigor lógico. 

Primeira proposição: o socialismo como sistema de governo — a propriedade coletiva dos meios de produção, o planejamento central, a ditadura do proletariado como fase transitória — fracassou de forma total, documentada e irreversível no século XX. O colapso de 1989 foi a demonstração empírica de que o projeto era impossível: epistemologicamente impossível, como Hayek havia demonstrado teoricamente; e moralmente catastrófico, como as dezenas de milhões de mortos haviam demonstrado na prática. 

Segunda proposição: os herdeiros intelectuais do projeto socialista, recusando o luto e a revisão honesta que o fracasso exigia, desenvolveram uma estratégia de reencarnação, preservando os objetivos do projeto enquanto abandonavam os métodos que os haviam tornado identificáveis e combatíveis. Essa reencarnação se chama progressismo. E o progressismo é o socialismo com o anel de Giges: o mesmo projeto de poder total sobre o ser humano, operando agora de forma invisível, irresponsável e disfarçado sob causas genuinamente nobres. 

Terceira proposição: o progressismo golpeia sistematicamente as instituições que protegem o ser humano do poder total — a família, a fé, a nação, a linguagem comum, a epistemologia partilhada, a soberania democrática —, porque essas instituições são os obstáculos entre o projeto e seu objetivo final, isto é, o ser humano redesenhado, governável, que não sabe mais quem é sem o projeto lhe dizer.

Ancorado nessa tese, enfrento no decorrer de 270 páginas os principais disfarces de Giges: o identitarismo; a chave feminista; o ambientalismo; o estatismo e a linguagem. Além disso, identifico a fé, a família e a nação como as principais instituições de defesa da sociedade e, por isso mesmo, as mais atacadas. 

Ao oferecer ao público essa modesta edição, autopublicada através da UICLAP, (onde está à venda a preço módico), espero mover um pouco mais de luz sobre o mundo atual, em que os inimigos atuam de modo solerte, mas avassalador, na expectativa de construir uma nova ordem sob seu controle.

Sei que pode parecer ambicioso, mas servirá — disso não tenho dúvidas —, para que o leitor mais atento perceba que a chamada polarização, a radicalização de posições ideológicas, a guerra cultural que vivemos, tudo faz parte de um processo muito mais amplo, global mesmo, de enfrentamento entre cosmovisões inconciliáveis. Talvez ajude também a identificar seus aliados.


Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP



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