Projeto acolhe mulheres entre traumas e medo: “Eu não tinha paz”


A professora e pedagoga A.G.P., de 58 anos, viu a vida que construiu se transformar em um inferno. O motivo? Um homem que, até hoje, não aceita o fim do relacionamento e a persegue incansavelmente, invadindo lugares, encurralando-a e criando perfis falsos nas redes sociais. “Eu não tenho um minuto de paz”, desabafou. 

 

A pessoa começou a demonstrar ciúme excessivo, a querer me controlar, fazia ligação de vídeo o dia inteiro

A.G.P. conheceu o stalker por meio de uma colega de profissão. No início, o homem não deu sinais de descontrole, mas bastou completar um ano de relacionamento para o ciúme e a obsessão começarem a revelar sua face mais tenebrosa.

 

“A pessoa começou a demonstrar ciúme excessivo, a querer me controlar, fazia ligação de vídeo o dia inteiro, me seguia, achava que eu tinha outras pessoas, que eu andava com o porteiro, com o jardineiro, com todo mundo”, afirmou.

 

A violência nunca chegou a ser física, e nem precisou, para destruir o psicológico de A.G.P. As crises de ciúme se transformaram em gritos, insultos e humilhações. Ela era impedida até de visitar as próprias filhas e netas. Sua vida se tornou um cárcere sem grades. “Teve uma vez que eu achei até câmera dentro da minha casa”, contou.

 

A.G.P. decidiu colocar um ponto final na relação tóxica, mas o homem se recusou a aceitar a decisão. “Sou uma pessoa independente, não preciso de ninguém. Não gosto de ser controlada, eu não quero isso”, relatou.

 

O perseguidor passou a invadir sua casa, rondar as escolas em que ela trabalhava, pichar muros com declarações obsessivas e enviar flores, bombons e presentes que, para ela, se transformaram em gatilhos. “Chegava o rapaz da floricultura e eu já entrava em pânico”, disse.

 

 

 

A.G.P. era diariamente encurralada ao sair do trabalho. Cansada, decidiu que não pararia mais o carro para conversar, mas a tentativa de fugir acabou se transformando em uma perseguição desesperadora.

 

A perseguição atravessou avenidas movimentadas de Cuiabá, em pleno horário de pico, e só terminou quando ele conseguiu fechá-la próximo à entrada do Bairro Imperial.

 

“Ele desceu do carro. Eu travei o meu e fiquei na buzina. Ele começou a bater, chutar, balançar, mandar eu descer, e as pessoas só olhando. Ninguém me ajudou”, afirmou.

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Feminicidio em MT 2025

Fonte: Observatório Caliandra/ Sesp (Secretaria Segurança Pública do Estado de Mato Grosso)

 

Em seguida, ele entrou novamente no veículo e acelerou em direção ao carro dela, freando poucos centímetros antes da colisão. Foi naquele dia que uma equipe da Patrulha Maria da Penha conseguiu prendê-lo pela primeira vez. Desde então, foram mais de dez boletins de ocorrência, medidas protetivas, botão do pânico e três prisões.

 

“Eu pensei que teria um pouco de paz, mas não. Ele não deu paz. Não estava nem aí para botão do pânico, nem para tornozeleira. Ele continuou”, desabafou.

 

Com números alarmantes de feminicídios em Mato Grosso — 54 registrados em 2025 e outros 16 apenas até maio de 2026, segundo dados do Observatório Caliandra —, A.G.P. hoje teme pela própria vida. É para mulheres como ela, vítimas de todas as formas de violência, que o Estado tem desenvolvido programas e projetos de acolhimento e suporte.

Muitas vezes, a maior dor daquela mulher não é a lesão visível, mas o dano psíquico

 

 

Um desses projetos, que completou três anos no último domingo (3), tornou-se pioneiro, premiado e referência nacional: a Sala Lilás da Politec, criada em Cuiabá em 2023, durante a gestão do então diretor-geral Dr. Eduardo Andraus Filho e da então diretora metropolitana Dra. Alessandra Carvalho Mariano.


 

Mais do que paredes bonitas

 

O diretor metropolitano de Medicina Legal, Carlos Henrique Arruda Salles, explicou que o projeto surgiu da necessidade de interromper um ciclo silencioso de revitimização enfrentado por mulheres vítimas de violência sexual e doméstica durante o atendimento.

 

“A primeira revitimização é quando ela chega à delegacia e tem que contar toda a história do trauma. Depois, vinha para o IML e, muitas vezes, dividia o mesmo ambiente com o agressor, o que gerava ainda mais constrangimento”, afirmou.

 

“A partir disso, surgiu a ideia de criar um ambiente protegido, em que ela pudesse aguardar e passar pelo atendimento com tranquilidade. Um espaço agradável, em que pudesse se sentir mais acolhida e amparada em um ambiente que já é hostil por natureza”, completou.

 

 

 

Paredes lilases, poltronas confortáveis, brinquedoteca para crianças, banheiro exclusivo, aventais mais apropriados e salas reservadas para escuta psicológica e exames periciais. O projeto reformulou a lógica do atendimento pericial às vítimas.

 

Há ainda a preocupação de priorizar equipes femininas nos atendimentos. “Às vezes, a própria presença do homem já constrange a mulher, porque ela acabou de ser violentada por um homem”, explicou o diretor.

 

Outra mudança importante foi a centralização dos atendimentos em um único espaço, evitando que a vítima precise repetir inúmeras vezes a mesma história traumática. Psicólogos, enfermeiros, psiquiatras e médicos-legistas atuam de forma integrada para reduzir o desgaste emocional.

 

 

 

Segundo a juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, da Primeira Vara de Violência Doméstica e Familiar da Comarca de Cuiabá, a reformulação dos atendimentos evita a chamada “rota crítica”, caminho fragmentado e complexo pelo qual a vítima era exposta ao julgamento social e institucional.

 

“Ela não precisa passar de lugar em lugar e ficar repetindo a mesma história. Às vezes, ela ficava exausta e até desistia de registrar a ocorrência e fazer o exame pericial. Antes, ela podia abandonar o processo no meio do caminho, e queremos evitar isso”, disse a juíza.

 

Além de Cuiabá, a Sala Lilás já está presente em Pontes e Lacerda, Nova Mutum e Água Boa. A implementação também está prevista em pelo menos outras oito unidades em construção no Estado.

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Ciclo da violência doméstica

Fonte: Instituto Maria da Penha

 

O modelo se tornou referência nacional e já foi implementado em São Paulo, enquanto outros estados estudam adotar o projeto.

 

A iniciativa também recebeu reconhecimento nacional em abril deste ano, ao ficar entre as cinco finalistas da 2ª edição do Prêmio Women in Action, demonstrando o impacto social.

 

Da violência ao acolhimento

 

A gerente de Perícias em Vítimas de Violência Sexual e de Gênero da Politec, Verônica Brandão, explicou que a violência é todo ato intencional que invade a integridade de uma pessoa, causando danos físicos, sexuais, patrimoniais ou psicológicos, antes de chegar à violência máxima: o feminicídio.

 

“A gente precisa entender que o feminicídio é a ponta do iceberg. Antes dele, existem microviolências que vão se graduando e precisam ser conscientizadas para a população”, afirmou.

 

Segundo ela, o processo começa de forma sutil, com humilhações, desvalorização e isolamento da mulher, muitas vezes sem que a própria vítima perceba que está vivendo uma relação abusiva.

 

 

 

Para Verônica, uma das razões que mantêm tantas mulheres presas a essas relações é a perda da própria identidade. “A mulher perde a alma e segue as coordenadas do abusador”.

 

É justamente nesse cenário de extrema vulnerabilidade que a Sala Lilás se transforma em mais do que um espaço físico e se torna um ambiente de acolhimento. “Ela precisa estar em um ambiente que proporcione privacidade. Muitas vezes, essas vítimas chegam para a perícia seminuas, sem alimentação, abaladas e com medo”, afirmou Verônica.

 

Segundo a médica-legista, cada mulher possui seu próprio tempo de fala. “Não tem como fazer um atendimento digno, como essa vítima merece, em cinco ou dez minutos. Se for preciso ficar uma hora, ficamos. A vítima precisa sair dali melhor do que entrou”, disse.

 

Do rigor técnico ao impacto no processo

 

Segundo a coordenadora de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Vulneráveis, Judá Maali, a Sala Lilás tem promovido mudanças substanciais na condução dos casos de violência doméstica no estado.

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Judá Maali Marcondes

Judá Maali, coordenadora de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Vulneráveis

“O atendimento deixa de ser meramente formal e passa a ser técnico-humanizado, com impacto direto na proteção da vítima e na qualidade da investigação. Ambientes humanizados reduzem a ansiedade da vítima, aumentam a sensação de segurança e favorecem relatos mais completos e espontâneos”, afirmou a delegada.

 

O atendimento humanizado não interfere no rigor técnico da perícia; ao contrário, segundo Verônica, melhora inclusive a produção das provas.

 

“Enquanto peritos, temos condições de acrescentar evidências que, muitas vezes, não são visíveis fisicamente. Uma pessoa que demonstra medo, que não consegue sustentar o olhar, tudo isso precisa ser anotado. Muitas vezes, a maior dor daquela mulher não é a lesão visível, mas o dano psíquico”, afirmou.

 

Com o olhar treinado, anotações precisas e a tecnologia à disposição dos profissionais em um ambiente acolhedor, os impactos desse atendimento reverberam na outra ponta do processo, fortalecendo as investigações e chegando ao sistema judiciário estadual com provas mais robustas e qualificadas.

 

“Se o delegado percebe que se trata de um caso de violência psicológica, encaminha a vítima para o IML. De lá, ela já sai com o laudo do psiquiatra. O documento passa a integrar o inquérito, e o promotor analisa, o que pode subsidiar tanto a denúncia quanto uma eventual condenação”, afirmou a juíza Ana Graziela. 

 

É aí que entra a psiquiatria forense. Segundo o médico psiquiatra Gustavo Watzel, sua atuação tem foco na violência, que, muitas vezes, é invisibilizada. “Analisamos se houve impacto na saúde mental da vítima”, explicou Watzel.

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Violência doméstica em MT 2025_ Sesp

Fonte: Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica)

 

A demanda varia em cada plantão, em uma média de quatro a seis casos, mas há dias em que chegam até 13 atendimentos.

 

Conforme dados da Politec, 707 laudos de violência psicológica foram produzidos pela instituição em 2025, ocupando o terceiro lugar no ranking de documentos emitidos no estado.

 

Em primeiro lugar estão os laudos de lesão corporal, com 10.630 registros, englobando diferentes tipos de lesões, seguidos pelas necropsias, com 982 documentos emitidos. Já os crimes de violência sexual resultaram na emissão de 473 laudos no ano.

 

“Poder transformador”

 

Os dados representam os atendimentos gerais, mas os impactos não se limitam às vítimas agredidas — especialmente as mulheres. A violência de gênero atravessa relações, atinge filhos e pessoas próximas, perpetuando ciclos de dor que podem atravessar gerações.

 

“A vítima não é só a mulher que sofreu violência, mas todos os seus parentes e entes familiares”, declarou a magistrada Ana Graziela. 

 

Ao longo dos 12 anos de atuação na Politec, Verônica foi testemunha dessa “herança maldita”. “É algo sociocultural que precisa ser trabalhado na base, porque é naturalizado”, afirmou.

 

A gerente de Perícias se emocionou ao recordar o dia em que não conseguiu negar um abraço a uma mãe que se sentia culpada pela violência sofrida pela filha.

Victor Ostetti/MidiaNews

Sala Lilás Politec

A Sala Lilás da Politec em Cuiabá, que atende mulheres e vulneráveis vítimas de violência

 

“Aos prantos, ela me pediu. Eu falei: ‘Olha, é quebra de protocolo, mas eu não vou deixar de dar um abraço na senhora’. E a abracei”, contou.

 

“O rigor técnico é importantíssimo, mas o poder de transformação que a gente tem ali dentro, se conseguir incorporar esse acolhimento… eu acho fantástico”, completou.

 

“A gente tem que lembrar que a Politec e a medicina legal são apenas uma parte do processo. Para a vítima se sentir confiante, ainda precisamos de uma articulação maior em rede. Juntemos forças”, concluiu.

 

Impacto do apoio institucional e familiar

 

Apesar de existir um perfil predominante das vítimas de violência doméstica em Mato Grosso, composto por mulheres jovens, em idade reprodutiva, entre 18 e 48 anos, principalmente negras e pardas, toda mulher, em qualquer classe social, pode ser vítima.

 

Segundo a psicóloga e psicanalista Isabel Cristina Gama da Silveira, a escuta qualificada e o reconhecimento da dor da vítima abrem uma nova perspectiva para mulheres em situação de vulnerabilidade.

 

“O acolhimento não é só para dizer ‘vai ficar tudo bem’. Há reconhecimento da dor e encaminhamento para tratamento”, relatou.

 

Com décadas de atuação na área, Isabel destacou a importância de um atendimento livre de julgamentos e relembrou relatos de pacientes que tanto desistiram do andamento jurídico diante da descredibilização social e institucional, quanto tiveram seus processos arquivados por negligência de autoridades policiais.

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Levantamento de Laudos da Politec 2025

Fonte: Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica)

 

“O atendimento humanizado é uma revolução para a violência contra a mulher. Porque, durante muitos anos, a mulher que chegava numa delegacia ou pedia socorro era vista com um olhar de: o que ela fez para merecer isso?”, afirmou a profissional.

 

“A violência gera sensação de abandono, confusão mental, a percepção de que ninguém vai acreditar nela e de que não há saída. Então, o atendimento humanizado é a chave”.

 

Apesar dos avanços, a psicóloga citou medidas que ainda precisam ser fortalecidas na sociedade, desde o âmbito familiar, com a educação de meninos e meninas, até intervenções institucionais com homens que apresentam histórico de agressão.

 

“Gratidão”

 

Vendo-se sem saída e com o psicológico destruído, A.G.P. buscou, por orientação de uma agente da Patrulha Maria da Penha, o Espaço Caliandra, do Ministério Público, onde passou a receber acompanhamento jurídico, psicológico e social, encontrando acolhimento e suporte para enfrentar o processo.

 

“Eles me deram força quando eu já não sabia mais o que fazer. Eles sabem o que a gente está passando. As pessoas ao redor, muitas vezes, não entendem e ainda julgam. Lá, não. Lá eles acolhem”, disse.

 

Apesar de afirmar que nunca pensou em desistir do processo, principalmente por causa das três filhas, A.G.P. acredita que o atendimento humanizado foi decisivo para que conseguisse seguir em frente.

 

“Eu sinto gratidão. Meu caso era mais psicológico e eu precisava de um acolhimento, porque as pessoas que estão ao seu redor não entendem. Eu fui muito julgada porque a gente vive num mundo machista”, disse.

 

Para a psicóloga Isabel Cristina, os avanços nas políticas públicas e na rede de proteção têm transformado o acolhimento às mulheres vítimas de violência. Ela citou iniciativas como a Patrulha Maria da Penha, a Sala Lilás, espaços de acolhimento em instituições públicas, o Espaço Caliandra e o programa Ser Família Mulher como exemplos de uma estrutura hoje mais preparada e sensível. “O caminho se faz ao caminhar”, resumiu.

 

O fortalecimento da rede de proteção às mulheres em Mato Grosso ganhou mais um avanço com a ampliação dos serviços digitais da Polícia Civil. Agora, vítimas de violência doméstica podem registrar boletins de ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência de forma totalmente online, por meio da Delegacia Virtual e da plataforma SOS Mulher. Somente em 2025, o Estado registrou 18.223 pedidos de proteção.





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