Jovens mães conciliam maternidade e carreira


A imagem da artista urbana, muitas vezes, é associada à liberdade plena e à vida noturna. No entanto, para uma parcela específica das mulheres no Hip Hop, a realidade é composta por fraldas, redes de apoio e uma “caneta” que se torna muito mais afiada após a chegada dos filhos. Neste Dia das Mães, conversamos com duas expoentes da cena maranhense: Morango Kush, que vive o auge de sua segunda gestação, e Akauanny, que iniciou sua jornada na maternidade ainda na adolescência.

Espera e poder

Aos 27 anos, Tâmara Cristine, conhecida como Morango Kush, transita por um momento de dualidade. Já mãe de uma menina de 6 anos, ela vive a reta final da segunda gravidez. Se por um lado a experiência traz segurança, por outro, o peso da responsabilidade gera novos receios. “Confesso que senti muito mais medo agora, pelo fato de já ter uma criança sob minha responsabilidade”, revela.

A gestação não silenciou a voz

Apesar da apreensão, Morango não permitiu que a gestação silenciasse sua voz. Pelo contrário, ela levou o ventre para os palcos e batalhas até o início do terceiro trimestre. O público, segundo ela, reage com uma mistura de choque e admiração. “Eles te olham com outros olhos, admiram mais pelo fato de você não parar”.

Para ela, a maternidade é um ato político. Como representante da Frente Maranhense de Mulheres no Hip Hop, Morango rebate o estigma de que a vida da mulher “para” ao se tornar mãe. Em sua letra na Cypher Queens in Rap, ela sentencia: “Mãe mulher é MC, um pesadelo pro sistema”. “Quero que minhas filhas peguem a mensagem de que elas já nasceram incríveis! E não precisa ninguém validar isso além delas mesmas”, afirma a rapper.

Da infância ao palco

Se Morango planeja o futuro, Akauanny é o retrato da sobrevivência e do amadurecimento precoce. Mãe aos 15 anos, ela precisou crescer enquanto seu filho também crescia. “Eu era uma criança praticamente”, relembra. Para ela, a arte não foi o ponto de partida, mas o destino de cura após anos de desafios e abusos psicológicos.

Foi em 2020 que Akauanny decidiu que a música seria seu caminho. Se a indústria pode ser cruel, ela encontrou refúgio em projetos sociais no bairro do Bom Jesus Coroadinho. Sua voz, antes tímida, ganhou uma nova textura. “A maternidade abriu outro lugar em mim. Minha voz se tornou mais crua, mais verdadeira”.

A logística da cantora é uma “correria” compartilhada. Entre trabalhos como freelancer, bartender e auxiliar de cozinha, ela conta com o pilar de sua vida: sua avó (que ela chama de mãe).

É essa rede de apoio que permite que ela suba no palco enquanto o filho, hoje já maior, se torna seu fã número um. “Meu filho cantava minhas músicas… até algumas que pessoas nunca nem ouviram. Isso me traz uma felicidade muito grande”.

A herança da Arte

Embora vivam momentos diferentes — uma na expectativa do parto e a outra na lida diária da criação — as falas de Morango e Akauanny convergem em um ponto fundamental: a música é o sustento, mas também o legado.

Morango vê seu som como a “herança” para as filhas, uma forma de garantir uma vida digna. Já Akauanny vê na música a sua própria identidade recuperada. Ambas enfrentam o desafio de “ser mãe” em uma indústria que ainda questiona a produtividade feminina.

Morango admite que o sacrifício de deixar um recém-nascido em casa para fazer um show é uma dor que precisa ser trabalhada, enquanto Akauanny reforça que a rede de apoio é o que mantém a engrenagem girando.

Ao fim da conversa, Akauanny deixa uma mensagem direta para Morango Kush e para todas as artistas que estão gestando agora. “Não desistam nunca. Não deixem a arte morrer. Se potencializem mais ainda. Eu conheço a Morango, admiro a arte dela há anos, é uma mulher muito forte. Tenho certeza que as filhas dela vão ter orgulho demais da mãe e artista que ela é”.

Neste Dia das Mães, a história de Morango e Akauanny nos lembra que a maternidade na arte não é um ponto final, mas um novo e potente capítulo. Elas não são apenas mães que cantam; elas são artistas que, através da vivência materna, aprenderam a rimar com a força de quem carrega o mundo e o futuro nas mãos.



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