O relógio marcava por volta das 14 horas quando Rio Branco parou. Primeiro, vieram sons que ninguém conseguiu identificar de imediato. Depois, o corre-corre, a gritaria, os áudios desencontrados, os telefonemas aflitos acompanhados de mensagens que não eram respondidas.
O nome de um colégio tradicional da capital acreana começa a circular pela cidade ao lado de uma palavra improvável demais para ser vinculada a um local de ensino: tiroteio e educação nunca deveriam formar par.
Na tarde do último dia 5 de maio, o Instituto São José deixou de ser escola. Isso porque se tornou cenário de uma tragédia, algo inédito e dolorosamente histórico para o Estado. Era como se o pânico, o medo, o desespero, a agonia, a dor e luto resolvessem caminhar de mãos dadas, num movimento insuportavelmente sincronizado.
As informações iniciais indicavam que uma pessoa havia entrado com arma no local e matado duas inspetoras; uma estudante de 11 anos e outra funcionária também foram baleadas e felizmente sobreviveram.
Naquela tarde, o Acre descobriu que a violência extrema nos ambientes estudantis – antes vista como realidade distante, para não dizer internacional-, podia estar mais perto. Perto demais.
Informações iniciais
As primeiras notícias chegam deslocadas. Inicialmente, acreditava-se que um “homem armado” havia invadido a escola e trocado tiros com o vigilante. Extra oficialmente, divulgava-se que uma inspetora e um outro servidor tinham morrido no local. Falava-se também em estudantes feridos.

Imagem real aprimorada por IA
Minutos depois, a informação mais assustadora se confirma: o atirador em questão era um adolescente de apenas 13 anos. Soube-se disso de modo rápido, inclusive, porque o próprio garoto havia se apresentado, responsabilizando-se pelo incidente, no Quartel do Comando-Geral da Polícia Militar, localizado a poucos metros da instituição.
A Polícia Militar divulgou que a arma utilizada no crime pertencia ao padrasto do adolescente, o advogado Ruan Mesquita. Ele foi preso ainda na terça-feira (5) e encaminhado à Delegacia de Flagrantes, mas acabou liberado após assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO).
Pânico
Segundo relatos, durante o atentado, o desespero fez com que estudantes subissem no teto do colégio para fugir dos tiros. Nas imagens, é possível notar que eles estão apreensivos, desesperados.
Noutro vídeo, um dos alunos que conseguiu fugir do local é visto acolhido por agentes da base da Patrulha Maria da Penha, localizada na Rua Marechal Deodoro, próxima ao instituto. Visivelmente abalado, o estudante foi amparado pelos profissionais, que prestaram os primeiros cuidados até a chegada de familiares e equipes de apoio.
Aqueles que ficaram no local no momento do incidente se trancaram dentro das salas de aula ao ouvirem os disparos. A informação foi dita por familiares de estudantes, que entraram em contato com a reportagem do ContilNet logo após o início da ocorrência.

Aluno conseguiu fugir do local em meio ao desespero e foi acolhido por agentes da base da Patrulha Maria da Penha. Foto: Reprodução.
Silêncio depois dos tiros
Os procedimentos de perícia e remoção dos corpos começaram após o tiroteio.
O perímetro da instituição foi isolado pelas forças de segurança para permitir o trabalho da Polícia Científica. Do lado de fora, familiares chegavam aos poucos, tentando compreender a dimensão da tragédia.

Parentes chegam para reconhecer as vítimas. — Foto: Juan Vicent Diaz/ContilNet
Foi nesse momento que o horror ganhou rosto definitivo; dois, na verdade: as vítimas foram identificadas como Alzenir Pereira da Silva, de 53 anos, e Raquel Sales Feitosa, de 37 anos, ambas inspetoras da escola.
O reconhecimento dos corpos ocorreu sob forte emoção.
“Enquanto eu estava ao lado do corpo, a filha dela ligava insistentemente”

Ela acompanhou a ocorrência e, por um instante, ficou ao lado dos corpos das duas inspetoras. — Foto: Reprodução
Ela contou que permaneceu por alguns instantes ao lado dos corpos das inspetoras. Quando olhou para o celular de uma das vítimas, viu o aparelho tocar repetidamente.
No visor, aparecia o nome “Filha”.
“Ela deu a vida para proteger as crianças. Enquanto estava lá ao lado do corpo dela, vi a sua filha ligando insistentemente. Mesmo sendo fria nas ocorrências, nesse momento meus olhos lacrimejaram e precisei descer e não olhar o celular tocando. Cena de filme, infelizmente”, escreveu a policial.
O relato mostra algo impossível de traduzir em palavras: o instante em que uma família descobre que a vida mudou de modo irremediável.
Segundo informações apuradas pelo ContilNet, as inspetoras tentaram conter o adolescente nos primeiros segundos da invasão. Elas teriam se agarrado ao estudante numa tentativa desesperada de impedir os disparos e proteger os alunos que estavam na instituição. Ao perceber que não conseguiria se desvencilhar delas, ele atirou.
Elas não conseguiram pará-lo. Morreram antes.

Velas acesas em frente ao Instituto São José marcam luto após tragédia. —Foto: ContilNet
Rio Branco custou a dormir na última terça-feira. Quem conseguiu, dormiu em choque.
“Todos os domingos ela ‘tava aqui fazendo almoço”

Tia Zena trabalhava há décadas no Instituto São José. — Foto: Acervo pessoal/Imagem aprimorada por IA
Alzenir Pereira da Silva trabalhava há décadas no Instituto São José. Para alunos, ex-alunos e colegas, ela já havia deixado de ser apenas funcionária.
Era a “Tia Zena”.
Uma presença constante nos corredores da escola, um rosto familiar. Uma mulher que, silenciosamente, fazia parte da memória afetiva de gerações inteiras. Em entrevista concedida ao ContilNet, a sobrinha e afilhada de Alzenir, Tayla Albuquerque, falou sobre a relação de proximidade construída ao longo da vida com a tia.
“Tia Zena sempre estava comigo, principalmente agora que a minha avó, a mãe dela, está doente. Ela vinha aqui em casa um dia sim, outro não. Todos os domingos ela ‘tava aqui fazendo almoço”, enfatizou, acrescentando que a inspetora deixou dois filhos.
O sepultamento ocorreu no Cemitério Morada da Paz, em Rio Branco.
Na despedida, uma cena resumiu o tamanho da brutalidade daquela perda: um dos filhos de Alzenir, que não estava presente na cidade, acompanhou o enterro por chamada de vídeo. Justamente na terça que antecedia o domingo do Dia das Mães.
“Era uma menina muito dedicada”

Raquel tinha 37 anos. — Foto: Acervo pessoal/Imagem aprimorada por IA
Raquel Sales era casada. Era também mãe, filha, estudante de Enfermagem. Conciliava a rotina entre casa, trabalho e faculdade, uma realidade exaustiva conhecida por milhares de brasileiras.
“O sentimento é de tristeza e de revolta pelo acontecido, uma situação que a gente jamais esperava que acontecesse na nossa instituição”, disse.
“Pensei que minha filha estava morta”
Durante o velório de Raquel, a dona de casa Sueli Galo, mãe de uma aluna, descreveu em detalhes os momentos de tensão. Emocionada, contou que foi uma das primeiras pessoas a chegar ao local e que logo ouviu os disparos.
“Eu achei que estavam consertando o colégio. Quando percebi que era tiro, falei para o porteiro. Ele disse que não, mas eu insisti: é tiro.”
Na sequência, ela acionou a polícia e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Mais tarde, começou a ver alunos descendo em desespero pelas escadas.
“Desceu um aluno bem desesperado. Ele falou: ‘tia, a tia Zena ‘tá morta’. A tia Zena e a tia Raquel. Ele pediu para eu abraçar ele. Foi quando eu entrei em desespero”, contou.
Ao lado de fora, Sueli viu estudantes deixando o prédio. Uma aluna, de acordo com ela, estava com uma lesão na coxa e a roupa rasgada e, enquanto isso, mais crianças chegavam ao pátio em estado de choque. Sem notícias da própria filha, o medo aumentava a cada minuto.
“Eu fiquei esperando a minha filha e comecei a gritar. A sala dela foi uma das que mais demorou a descer. Na minha cabeça, eu pensava: ‘minha filha ‘tá morta’, porque ela não vinha e ninguém falava nada.”

“Na minha cabeça, eu pensava: ‘minha filha está morta’, porque ela não vinha e ninguém falava nada”.
Sueli contou que conhece o adolescente apontado como autor do ataque, ao menos de vista, por frequentar o ambiente escolar há anos com os filhos. “Todo mundo se conhece ali. A gente vai em reunião, busca os filhos, acompanha. Não era um aluno invisível”, disse.
Ao comentar o que poderia ser feito para evitar novos episódios de violência, a mãe defendeu maior atuação conjunta entre famílias, escola e poder público.
“Os professores estão muito abandonados. Quando dão um alerta, muitas vezes não têm resposta. O colégio não pode andar sozinho. Tem que unir forças, governo, secretaria de educação, pais”, afirmou.
Ela também chamou atenção para o papel das redes sociais e das dificuldades enfrentadas pelas famílias no acompanhamento dos filhos.
“A gente não consegue monitorar tudo. Eles dominam a tecnologia mais do que a gente. É uma coisa silenciosa, que está acontecendo sem que a gente perceba”, disse.
A dinâmica do crime
Na noite da terça-feira (5), o governo do Acre concedeu uma coletiva de imprensa para detalhar os primeiros desdobramentos do caso. Na ocasião, as autoridades informaram que havia suspeita de participação ou conhecimento prévio de outros estudantes sobre o atentado.
Segundo a Polícia Militar, após o ataque, o adolescente se entregou espontaneamente à corporação.
A comandante-geral da Polícia Militar do Acre (PMAC), coronel Marta Renata, explicou como aconteceu a apresentação do adolescente no quartel.
Questionada se o adolescente havia demonstrado arrependimento, ela respondeu que ele não fez nenhum comentário relacionado. Além disso, as autoridades também não descartaram a possibilidade de novos ataques.
A PM confirmou que o adolescente entrou armado na escola e, ao ser surpreendido pelas duas inspetoras, atirou contra elas. Apesar de portar três carregadores completos, totalizando aproximadamente 45 balas, o garoto não conseguiu continuar os disparos porque não soube realizar a troca de munição após os primeiros. Mesmo assim, ao menos oito tiros foram efetuados.
“Não saia daqui, duas pessoas foram mortas”
A professora da rede pública e secretária-geral do Sindicato dos Professores do Estado do Acre (Sinpro-AC), Débora Profeta, estava trabalhando próximo ao instituto no momento do atentado.

Débora relembrou o choque dos minutos seguintes ao atentado. — Foto: ContilNet
“Nós estávamos a 200 metros da escola. Ouvi os disparos e pensei que fosse na praça, ao lado da Biblioteca Pública, ou seja, que fosse em frente ao prédio.”
Ao chegar na recepção do prédio onde trabalhava, encontrou uma colega de trabalho extremamente aflita. “Ela já vinha da rua muito assustada, muito abalada, chorando.”
Segundo Débora, a mulher havia saído para manobrar um veículo quando encontrou o adolescente.
“Um adolescente passou avisando ‘não saia daqui, não vai pra lá, duas pessoas foram mortas’, e ela me mostrou o rapaz fardado”, enfatizou.
O rapaz em questão era o próprio autor do atentado, que caminhava em direção ao quartel para se entregar.
Investigações

Sejusp realizou uma coletiva no fim da tarde desta terça para tratar do assunto/Foto: Reprodução
O delegado-geral da Polícia Civil do Acre, Pedro Paulo Buzolin, informou que o celular do adolescente já foi alvo de autorização judicial para extração de dados.
“O Judiciário foi célere e expediu a autorização rapidamente justamente para verificarmos se ele integrava grupos que planejavam ataques ou se trata de um fato isolado”, explicou, confirmando que o padrasto responderá pela ausência de cautela na guarda da arma. “Essa será uma investigação específica, paralela à apuração relacionada ao menor infrator. Teremos duas investigações distintas”, complementou.
Poucas horas depois do tiroteio, a 4ª Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente do Ministério Público do Acre (MPAC) apresentou pedido de internação provisória do adolescente.
A medida está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para casos considerados de maior gravidade. Em coletiva de imprensa concedida na manhã de quinta-feira (7), o MPAC informou que a Justiça decretou a internação provisória do adolescente.
A partir de agora, o processo entra na fase de instrução, etapa em que serão colhidos depoimentos de testemunhas e do próprio adolescente para esclarecer as circunstâncias do ocorrido.
Ações governamentais e mobilização
A governadora Mailza Assis reuniu representantes das forças de segurança para alinhar medidas emergenciais e definir o posicionamento institucional diante da tragédia.

Governo do Acre decretou três dias de luto oficial. — Foto: Pedro Devanir/ Secom
O governo decretou luto oficial de três dias. As redes estadual, municipal e privada suspenderam as aulas temporariamente.
Assistência às vítimas
O governo também anunciou apoio psicológico e social às famílias atingidas.
A Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SEASDH), a Secretaria de Saúde (Sesacre), a Secretaria de Educação (SEE) e demais órgãos estaduais passaram a atuar de forma integrada.

Governo presta atenção às vítimas. — Foto: Seasdh
O secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, João Paulo Silva, explicou que equipes do Centro de Referência em Direitos Humanos foram mobilizadas.
“A equipe de direitos humanos acompanhou os funerais das duas trabalhadoras e prestou todo o suporte necessário às famílias, com o objetivo de prestar apoio e monitorar a situação social decorrente do ocorrido”. Segundo ele, outra equipe passou a acompanhar também as vítimas sobreviventes e toda a comunidade escolar. “Nosso objetivo é oferecer apoio contínuo neste momento difícil”, reiterou.
Já o secretário de Saúde, José Bestene, destacou que o impacto da tragédia vai além das lesões físicas.
“Além do atendimento médico imediato, também será disponibilizado acompanhamento psicológico às pacientes e familiares, porque compreendemos que um episódio tão torturante deixa impactos que vão além das lesões físicas”, enfatizou.
Prefeitura cria grupo para reforçar segurança
A prefeitura de Rio Branco também anunciou medidas emergenciais depois do atentado.
Ao ContilNet, o prefeito Alysson Bestene explicou que o projeto vem sendo planejado desde 2025, quando ainda estava à frente da Secretaria Municipal de Educação (Seme).
“No final do ano passado, a gente fez uma reunião com a Polícia Militar, Gabinete Militar do Município e eu, então, como secretário de Educação. A gente queria implementar nas nossas escolas um projeto que se chama Escola Mais Segura, que envolve, justamente, iniciar um seminário de orientação por palestras, formação dos nossos professores, apoiadores escolares, com orientações básicas de prevenção e combate a qualquer tipo de eventos dentro das escolas”, disse.
O grupo ficará responsável pela construção de um protocolo integrado de segurança escolar, reunindo orientações técnicas, fluxos de atuação e medidas preventivas.

São previstas ações como reforço das rondas escolares, treinamento de servidores. — Fotos: Anderson Oliveira
São previstas ações como reforço das rondas escolares, treinamento de servidores, capacitação de agentes de portaria e implantação de câmeras com reconhecimento facial nas entradas das escolas municipais.
A secretária municipal de Educação, Kelce Nayra Paes, afirmou que a prefeitura está articulando programas e projetos de treinamento e qualificação para os servidores que estão em contato direto com os alunos e toda a comunidade escolar. “Nosso objetivo é fortalecer as ações preventivas e garantir um ambiente cada vez mais seguro e preparado para atender nossas crianças e adolescentes.”
O secretário municipal de Saúde, Rennan Biths, também destacou o reforço do atendimento psicossocial.
“Estamos trabalhando de forma integrada para garantir segurança e acolhimento. A Saúde vai oportunizar atendimento psicossocial para alunos, professores, pessoal de apoio e toda a comunidade escolar”.
Massacre cotidiano
Um boletim técnico elaborado com dados do Ministério da Educação (MEC), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ministério da Saúde e Fórum Brasileiro de Segurança Pública apresenta um retrato do ambiente estudantil brasileiro até 2024: ataques extremos aumentaram drasticamente, casos de agressão explodiram e a saúde mental dos jovens entrou em colapso diante de uma escola que, em muitos casos, não está preparada para acolher e nem proteger.
Entre 2001 e 2024, foram registrados 43 episódios de violência extrema, com um total de 168 vítimas atingidas; 31,55% delas faleceram.
A análise aborda que 100% dos responsáveis eram do sexo masculino; além disso, é revelado que armas de fogo foram utilizadas em 19 casos, causando 36 das 44 mortes analisadas (81,8% da letalidade). Armas brancas foram utilizadas em 20 incidentes; outros meios, em quatro.
O estudo também avalia o crescimento dos casos: de 2001 a 2018, foram registrados dez atentados; em 2022, outros dez; em 2023, 15, o ano com maior incidência de ataques da série histórica, resultando em nove vítimas fatais e 29 feridos.

Em 2011, Rio de Janeiro viveu o ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo. — Foto: Shana Reis
Foram constatadas ainda 13.117 notificações de agressões em instituições de ensino. Entre 2013 e 2023, as violências consideradas interpessoais aumentaram 247,5%, saltando de 3.136 para 10.903.
Além disso, houve um crescimento significativo de casos de automutilação: os números passaram de 210, em 2013, para 2.214, em 2023. A maior parte das vítimas é de meninas (60,6%), já meninos representam 39,4%.
No recorte racial, pessoas negras são maioria (52,5%); brancos, 45,9%; amarelos, 0,8% e; indígenas, 0,8%.
Dentro das salas de aula, o clima de tensão também aparece na percepção dos professores: 46% dos diretores e docentes relataram episódios de bullying entre estudantes; 25,9% das escolas registraram discriminação; e 15,1% dos docentes disseram já ter sofrido agressão verbal ou física praticada por alunos.
Enquanto isso, milhares de jovens convivem diariamente com o medo: 10,8% dos estudantes de 13 a 17 anos faltaram à escola pelo menos uma vez em 30 dias por não se sentirem seguros dentro da instituição. Outros 11,6% se ausentaram por medo do trajeto entre casa e escola.
Em 2021, 1.295 escolas brasileiras, o equivalente a 1,7% das unidades do país, relataram episódios de tiroteios ou balas perdidas no entorno.
E talvez o retrato mais grave esteja justamente na falta de preparo do sistema educacional: aproximadamente 62,2% não possuem protocolos ou planos de emergência para ataques e situações violentas. Os números são alarmantes:
- 70,7% dos professores nunca receberam capacitação para lidar com violência escolar;
- Psicólogos estão presentes em apenas 14,2% das escolas;
- Assistentes sociais aparecem em 8%;
- Seguranças ou guardas patrimoniais existem em somente 21% das instituições; e
- 39,2% das escolas não oferecem espaços de escuta nem canais anônimos de denúncia.
Mesmo assim, parte das instituições tenta reagir:
- 70,1% das escolas desenvolvem projetos contra bullying;
- 50,2% promovem ações sobre racismo;
- 49,1% discutem uso de drogas;
- 42,9% trabalham cultura de paz;
- 24,1% abordam homofobia; e
- 14,8% desenvolvem projetos relacionados ao machismo.
Depois do fim
Os tiros duraram poucos minutos, mas há situações que continuam acontecendo mesmo quando terminam. É que elas permanecem no medo dos pais, na insegurança de estudantes, no trauma silencioso de professores.

Tragédia no Instituto São José mostram um dia que ficará marcado na memória recente acreana. — Foto: Juan Vicent Diaz/ContilNet
Fica naquele barulho de portão escolar fechando. Fica no vazio deixado em duas famílias que agora aprendem a viver sem “Tia Zena” e Raquel.
Rio Branco tenta entender o que aconteceu naquela tarde de maio. E talvez a parte mais cruel das tragédias seja justamente essa: elas não acabam quando o silêncio volta. Elas continuam dentro de quem ficou.
*Material produzido com informações apuradas por Anne Nascimento, Dry Alves, Everton Damasceno, Fhagner Soares, Juan Vinícius, Maria Fernanda Arival, Matheus Mello, Suene Almeida e Wellington Vidal.