Vera Lucy Brandão, 54 anos, indígena macuxi, nasceu na região do Taiano, no município de Amajari, mas foi em Boa Vista que construiu parte de sua trajetória. Hoje, é na comunidade Kauwê, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Pacaraima, que ela conduz um negócio que nasceu da observação e da iniciativa.
Antes da desintrusão da terra indígena, a região contava com plantações de cupuaçu mantidas por produtores agrícolas. Com a retirada desses produtores, as plantações permaneceram. Foi nesse cenário que Vera enxergou uma oportunidade. “Quando aconteceu a retirada dos agricultores, muita coisa mudou, mas o cupuaçu continuou ali, no sítio “PrimaVera”. Eu vi que dava para aproveitar aquilo, não deixar se perder. Foi quando comecei a pensar em transformar esse fruto em alguma coisa diferente”, conta.
Ao mesmo tempo em que decidiu investir na produção, Vera também buscou se preparar. Formou-se em Agronomia pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), levando o conhecimento técnico para dentro da própria realidade. “Eu não quis ficar só na roça para subsistência. Eu quis me profissionalizar, entender melhor o que eu estava fazendo e transformar isso em um negócio”, afirma.
Entre a falta de energia e a criatividade, nasceu a jujuba


A ideia da jujuba de cupuaçu surgiu a partir de um projeto com participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que ensinava formas de aproveitamento do fruto. Mas havia um detalhe que, na prática, impedia a produção. “A receita levava gelatina, e essa gelatina precisava de refrigeração. Só que na comunidade não tinha energia elétrica para manter isso”, explica Vera.
Diante disso, ela adaptou o processo até chegar a uma forma de produção viável dentro da realidade local. “Eu precisei ajustar tudo para o que a gente tinha. Quando consegui produzir o doce sem eletrificação, vi que aquilo podia dar certo”, diz.
No começo, a jujuba era oferecida aos turistas que visitavam a região. “A gente dava como cortesia, para quem vinha conhecer. Só que o pessoal começou a gostar muito, perguntar, querer levar. Foi aí que virou negócio”, relembra.




O produto ganhou o mundo. Já foi levado por turistas para países da Europa, Ásia e América, e chegou a eventos como a COP30, em Belém. Assim nasceu a empresa Yy’ PrimaVera, nome que carrega significado: “Yy’” quer dizer floresta na língua macuxi, enquanto “PrimaVera” traz um duplo sentido, unindo “prima” e “Vera”, em referência ao nome da empreendedora, além de identificar o sítio onde está concentrada a produção de cupuaçu.
Vera hoje é convidada para palestras dentro e fora de Roraima, levando sua experiência como exemplo de empreendedorismo feminino indígena que nasce da realidade local, mas dialoga com o mundo.
Do quintal ao mercado: apoio, família e novos caminhos


O crescimento trouxe novos desafios. Foi nesse momento que entrou o apoio do Sebrae, ajudando a estruturar o negócio e abrir caminhos para a legalização da produção. “O Sebrae está orientando a gente a produzir com mais qualidade, a buscar certificação. Hoje, por exemplo, a produção precisa ser feita em Boa Vista para garantir o selo e ampliar o mercado”, explica Vera.
A produção também deixou de ser individual. Virou trabalho compartilhado. A filha, Laís Brandão, de 26 anos, passou a assumir parte do processo. “Eu comecei ajudando na limpeza do cupuaçu, na embalagem, colando rótulo. Quando a demanda aumentou e minha mãe começou a viajar mais, ela decidiu me ensinar. Hoje eu já produzo também”, conta.
Foi nesse momento que Abgail da Silva, 30 anos, amiga de Laís, entrou no processo e passou a integrar a equipe. “Eu cheguei depois, por meio da Laís. Fui aprendendo e hoje faço parte da produção. Aqui a gente faz de tudo um pouco. O diferencial é que o produto é da nossa terra, algo que não existia desse jeito”, diz.


A receita, elas garantem, não está escrita em lugar nenhum. “A gente não deixa anotado. Está na cabeça. É um segredo nosso”, completa Abgail.
Atualmente, são produzidas cerca de 700 jujubas por mês, com perspectiva de crescimento. Além disso, a empresa também passou a produzir licor de cupuaçu e café, tudo de forma artesanal, com alta procura.
No fim, a jujuba de cupuaçu é prova de que inovação também nasce da floresta — com identidade, conhecimento e coragem para seguir em frente.
Mais informações sobre os produtos podem ser obtidas pelo telefone (95) 98122-5063 ou pelo Instagram @yuprimavera.
Por Jânio Tavares