“Próximo presidente precisa copiar o modelo de Mendes em MT”


O economista Paulo Rabello de Castro defendeu e recomendou ao próximo presidente do Brasil a política de austeridade e equilíbrio fiscal, como a que foi realizada pelo ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) na gestão em Mato Grosso.

Um gestor público não pode errar no atacado. E o Mauro Mendes foi em cima. E foi ele quem me contou a estratégia vencedora, que aliás é um recado bom para o próximo governante do Brasil

 

Ele esteve em Cuiabá para participar do “Seminário Cuiabá 2040: Planejando o Futuro da Capital”, promovido pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL). Rabello é referência na economia liberal. Ele foi presidente do IBGE e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 

Em entrevista ao MidiaNews, ele disse que o acerto de contas com corte das despesas desnecessárias é um princípio básico do mundo empresarial e também da gestão pública responsável, independente se municipal, estadual ou federal.

 

“Um gestor público não pode errar no atacado. E o Mauro Mendes foi em cima. E foi ele quem me contou a estratégia vencedora, que aliás é um recado bom para o próximo governante do Brasil, já negociar com a própria Assembleia, no caso seria com o Congresso Nacional, para a gente copiar o modelo”, explicou o economista.

 

Ele chamou a atenção dos eleitores para ficar atento sobre quem defende o interesse público. “Porque governar Mato Grosso é um negócio. Só que não pode ser um negócio para o bolso do fulano. Tem que ser um negócio para servir o público para fazer o público prosperar. Quem tem que ficar rico é o público”.

 

A avaliação dele vem no momento de críticas à gestão deficitária e sem corte de gastos do Governo do presidente Lula (PT). Rabello, aliás, critica tanto o petista como seu principal concorrente na eleição deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como “aprendizes” na política.

 

Na entrevista a seguir, Paulo Rabello de Castro ainda sugere um papel ativo dos líderes políticos e empresariais e dos cuiabanos para que Cuiabá assuma seu papel de “capital cultural do Centro-Oeste”. Ele também propõe que indústrias liderem a apresentação do conhecimento e de políticas de alta tecnologia para jovens. 

 

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – Como o senhor avalia o que foi feito no Governo de Mato Grosso, com investimentos de 20% da receita corrente líquida. O senhor defende essa prática da economia liberal de cortar custos e fazer aumento da receita pública?

 

Paulo Rabello de Castro – Mato Grosso está de parabéns se a régua de avaliação for o desempenho do Estado na mão do ex-governador Mauro Mendes. Eu tenho por ele um carinho especial, porque eu o acompanhei e com ele colaborei quando ele foi presidente da Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso, a Fiemt. Depois, como pré-candidato, mais de uma vez, à Prefeitura de Cuiabá. E depois pude ver o desempenho dele, não só na prefeitura, como acompanhar desde o primeiro dia a atuação de Mauro Mendes, que eu o chamaria de empresário na política.

 

Acho que ele continua com a cabeça de empresário, o que não é ruim. E até um recado para você que é eleitor do Mato Grosso, considerar que ter empresários, sérios, à frente dos negócios do Mato Grosso, porque governar Mato Grosso é um negócio, só que não pode ser um negócio para o bolso do fulano.

 

Tem que ser um negócio para servir o público, para fazer prosperar. Quem tem que ficar rico é o povo. O Mauro Mendes soube ser esse político de feitio empresarial. Ele não traiu a sua base, montada no conceito de eficiência. Um empresário que não é eficiente não merece o nome de empresário. O Estado, embora não vise ao lucro, também tem que dar resultado. E o resultado que o Mauro bolou foi, primeiro, recuperar financeiramente o Estado.

 

E a sequência foi correta e adequada. A maior parte dos governadores, que são políticos de dinastia, que já nasceram na política, têm esse defeito de origem que é não respeitar a ordem. E aí acaba amassando o produto. A ordem é, primeiro, o reequilíbrio financeiro para, logo em seguida, retomada dos investimentos, que foi exatamente o que aconteceu entre o primeiro e o segundo mandato do Mauro. 

 

Então, é fundamental sublinhar esse acerto dele, que é um acerto no atacado. Você pode até achar que o Mauro errou aqui ou errou lá. Errar é humano. No varejo a gente está sempre errando. Mas um gestor público não pode errar no atacado. E o Mauro foi em cima, logo no início, ele mesmo que me contou da estratégia vencedora.

 

Aliás, é um recado bom para o próximo governante do Brasil, já negociar com a própria Assembleia, no caso teria que ser com o Congresso Nacional, a gente copiar o modelo do Mauro, que negociou com a Assembleia que estava deixando o cargo. Isso, antes da posse.

 

Portanto,  ele, como um bom empresário, começou a trabalhar na véspera de assumir. Isso é fundamental. Portanto, no primeiro dia, ele já tinha um rearranjo do orçamento com os devidos ajustes.

Ele não ficou esperando o Governo Federal e executou milhares de quilômetros de estradas fundamentais para um Estado com a dimensão territorial como Mato Grosso.

 

MidiaNews – E quais cortes de custos ou despesas públicas precisam ser poupadas em um ajuste desses como fez Mauro Mendes?

 

Paulo Rabello de Castro – Ao falar de corte de despesa é um conjunto de uma ou outra rubrica visivelmente exagerada de despesa que pode sofrer algum corte. Mas o conjunto da despesa, que é o que interessa para o Estado ou para o país, nunca precisa cortar nesse nível porque o país está crescendo, assim como Mato Grosso estava crescendo também. Então a despesa cresce e acompanha proporcionalmente. Se houver uma contenção, o que é diferente de corte, uma contenção da despesa, coisa que o empresário gosta de fazer, então ele ajusta um pouco.

 

Outra gasto ou despesa nós vamos até aumentar, como a educação, e vou dar prioridade. É também o transporte, porque o governador Mauro Mendes, por exemplo, aumentou num múltiplo, que eu não poderia dizer de quanto, mas no mínimo quatro a cinco vezes. Devo estar errando, mais para menos, o gasto em infraestrutura rodoviária, por exemplo. Ele não ficou esperando o Governo Federal e executou milhares de quilômetros de estradas fundamentais para um Estado com a dimensão territorial como Mato Grosso. E cujo motor do crescimento é a logística para o agronegócio. Com certeza absoluta.

 

Quero dizer que esse Governo cortou, ou mesmo começou cortando, deu explicação adequada do que de fato um próximo governante tem que fazer. Ele tem que, num Mato Grosso, meramente realizar ajustes. Ajustes ao equilíbrio financeiro que o Mauro está deixando, com dinheiro no caixa, dívida líquida zero, que eu saiba, e não está devendo nada e tem dinheiro no caixa e um valor de investimentos extraordinário.

 

Provavelmente não existirá nenhum outro Estado, mesmo olhando para Estados como Goiás, que é excelente administração recente, Paraná, outra excelente administração recente, talvez não tenham o mesmo índice de desempenho em investimentos como proporção da receita líquida que o Mato Grosso hoje exibe. São os Estados que de qualquer jeito estão ali na briga pelo primeiro lugar.  

 

MidiaNews –  A cidade de Cuiabá está se consolidando na expansão do agro como local de comércio e serviços? O que falta a Cuiabá para se beneficiar do “boom” do agronegócio?

 

Paulo Rabello de Castro – O agronegócio é marca do Estado, não percamos tempo buscando outra explicação. Não precisa também ser especialista, ter estudado livros de economia. A chuva que cai lá no interior e que irriga Mato Grosso, essa grande horta, a produção de grãos e também a produção pecuária extraordinariamente potente, é essa chuva lá na cabeceira que vem escoando. Eu estou falando de um fluxo financeiro, que vem escoando e bate aqui no caixa do Estado, com o ICMS. Mas a soja exportada não paga ICMS por causa da Lei Kandir, diriam.

 

Não paga diretamente no produto, mas toda a renda gerada por esse produtor, na hora que ele compra uma picape, lá vai o ICMS da picape, da máquina idem. Quando ele vem ao shopping gastar porque ele ficou capitalizado, igualmente. De forma que está no segundo andar da captura fiscal. Fora o fato de que existe também o Fethab.

 

Na realidade, o engrandecimento de Mato Grosso provém dessa grande inversão no agronegócio e a capital Cuiabá é quem estabelece, vamos dizer assim, a sede de governo e a sede de serviços, a sede de empresas, e ela é, como disse numa palestra que fiz na CDL de Cuiabá, ela é o ponto de encontro. É como se Cuiabá fosse uma grande feira. Mas uma feira de quê? Galinhas e ovos? Não, é uma feira antiga, não é uma feira tradicional, de comércio e serviços.

 

É uma feira de talentos. Eu vejo pelo lado das pessoas, o serviço atrás de qualquer serviço, da manicure ao serviço de drone, do menos sofisticado, mais corriqueiro, até o mais especializado, são pessoas que sabem fazer. Então, é importantíssima a atividade, por exemplo, de treinamento dessa mão de obra pelos serviços sociais do Sesi, do Sebrae, Seni, da área do agro, do Senac. É essa mão de obra e mais a mão de obra que veio também de grau universitário. E é isso que forma o que Cuiabá é. A força de trabalho.

 

A força de trabalho que tem crescido, para se ter um média, nos últimos seis anos foram abertos em termos de vagas formais, quase 60 mil novas vagas. É grande porque eu estou falando do acréscimo. Se a população inteira de Cuiabá tem 650 mil pessoas, podemos cortar pela metade, porque tem os mais idosos, e tem as crianças e adolescentes que não estão na força de trabalho. Vamos pensar em 350 mil pessoas que estariam na população economicamente ativas, em idade de trabalhar. E economicamente ativas também quase todos, porque há um pleno emprego aqui.

 

Então, na realidade, entre os 300 e tantos mil, se você pensar aí que 60 mil em seis anos dá 10 mil pessoas, na realidade nós estamos falando de mais ou menos um crescimento real de mais de 3% ao ano. É bastante forte. 

 

MidiaNews – Quais outros impactos que o agronegócio permite a uma cidade de comércio e serviços como Cuiabá?

 

Paulo Rabello de Castro – O agronegócio é um ganho muito bom e que vai provocar outras coisas boas. Onde é que essa população quer ir ou estar? Estou falando de uma população nessa área de serviços que ganha dinheiro. É o suficiente financeiramente. Então, ela quer comprar um apartamento, uma sala, dois quartos. E movimenta todo o setor de materiais da construção, o setor de incorporação. Arrasta todos os setores da economia, da infraestrutura, saneamento, águas, que agora estão privatizadas e por isso a gente tem possibilidade de ver, por exemplo, o setor da Águas Cuiabá investindo centenas de milhões de reais.

 

O planejamento, segundo ouvi do diretor-geral da Águas Cuiabá, é de 1,6 bilhão de reais. Esse é um dinheiro machudo. Que circula aqui na economia totalmente, porque um quantitativo majoritário desse recurso é também gasto diretamente aqui, não através da compra em outros lugares. Não tem nada de mal, mas de qualquer maneira é um coeficiente de compras locais extremamente relevante. Isso é uma maravilha. E tudo é setor de serviço que gira, inclusive os serviços ligados ao agronegócio. Mas poderia ser feito mais, muito mais. Está faltando ainda, quem sabe, turbinar esse potencial.

 

 

MidiaNews – O que falta à Cuiabá para atrair mais investimentos, para gerar emprego e renda, receita pública, até mesmo pensando nesse “boom” do agro?

 

Paulo Rabello de Castro – Se a gente tivesse que resumir, eu diria que é Cuiabá se enxergar. E vou dizer isso carinhosamente, no caso não é se enxergar na sua pequenez, porque às vezes também se aplica quando o sujeito tem um enorme talento, um baita potencial, mas é humilde demais, a autoestima não está muito bem calibrada e o sujeito se olha no espelho e não se enxerga. Então Cuiabá tem que se enxergar como verdadeira capital cultural desse Centro-Oeste.

 

A mais antiga, bem mais antiga do que Goiás Velho. Uma capital que provém da mineração do ouro da época dos portugueses. Na realidade, já começa por aí, é uma história que os cineastas locais ainda nem começaram a explorar, a iniciar as rusgas com os Paiaguás, e depois a aculturação dos povos originários com os povos adventistas, os que chegaram, a formação dessa antiga Cuiabá, dessa Vila Real Senhor Bom Jesus, que logo depois, um século depois teve um edital régio, de Dom Pedro I, mandando instituir um Jardim Botânico já com uma visão ambientalista. 

 

E agora o secretário José Afonso Portocarrero, professor emérito de arquitetura, desencavou esse edital e está capitaneando todo o movimento para a gente finalmente ter o Jardim Botânico, 200 anos depois. E nesse título que Cuiabá, eu digo isso com muito amor, não se enxerga porque um negócio desse é uma indignidade para nós que estamos vivendo no momento presente. Após 200 anos e ninguém tomou providência. Dom Pedro I ficou falando sozinho. É claro que foi Dom Pedro I, II e vários outros gestores e presidentes. E líderes, como Joaquim Burtinho, sei lá mais quem. Primeira República, Segunda República, presidente Dutra cuiabano.

 

Cadê o Jardim Botânico? Então cabe a nossa geração começar a enxergar onde que Cuiabá de fato é esse centro geodésico da América do Sul como ponto de encontro e não como centro do nada. Porque centro geodésico é um centro onde existe uma equidistância de todos os pontos limítrofes. Mas isso é uma coisa boa ou ruim? Se for para ser ponto de conexão nós estamos no lugar ideal, no Centro Geodésico da América do Sul.

 

Aqui é uma baixada quente, conhecida pelo resto do Brasil por ser sempre o lugar em que o Jornal Nacional diz que é o lugar que está fazendo mais calor, disputa com o Rio de Janeiro e não tem os atrativos que a minha cidade natal, que é o Rio de Janeiro, tem, apesar de todo aquele tiroteio. 

Cuiabá tem que se enxergar como verdadeira capital cultural desse Centro-Oeste

 

Rabello, qual seria um setor a explorar como atrativo ou investimento para Cuiabá?

 

Paulo Rabello de Castro – Na realidade, nós temos que criar, na realidade desencavar, e usar uma outra palavra moderna, ter a narrativa para Cuiabá. E isso exige todo um planejamento que eu ainda não vejo acontecer por parte dos políticos, vamos dizer, com a assiduidade e com a disciplina que eles deveriam ter tanto para o Executivo Municipal, o prefeito, quanto o Executivo Estadual. Isso é um pouco do que eu ressalvaria. Estou dizendo que nesse sentido entre administrações muito fracas e outras muito criativas, cito duas no plano estadual.

 

Primeiro, o meu amigo saudoso, querido, que é o Dante de Oliveira,  que partiu cedo demais, um homem extraordinário,  que tinha uma visão muito clara de início, tinha uma distorção, uma ocupacionista, meio protoinvasora, depois ele melhorou esse conceito e foi capturar o lado estudioso de Dante Oliveira, engenheiro formado no Rio de Janeiro. Que foi buscar energia para um Estado que não tinha energia nenhuma. Antes mesmo do agro, a energia é o que a gente precisa para a gente, a pessoa física e também para o coletivo produtivo.

 

A partir daí, tivemos depois, outros governos realmente abaixo da crítica, tivemos o Blairo Maggi, a partir de 2003, que incentivou um grande desenvolvimento. Coincidiu com crises do agro, eu até ajudei,  todo um episódio ligado ao Grito do Ipiranga para a solução daquela grave crise financeira. E agora finalmente, Mauro Mendes. Se a gente quiser reproduzir no plano municipal a mesma ordem de grandes realizações, eu realmente ficaria devendo. Dante prefeito de Cuiabá e governador e Mauro Mendes prefeito e governador. É, por acaso, esses dois parecem que são os que se destacam igualmente no processo, mas deveria ter tido mais.

 

As prefeituras, elas estão muito jejunas ainda, primeiro dessa organização financeira, aquilo que eu estava dizendo em relação ao mal. Primeiro você se reestruturar para você não ficar batendo em porta de banco. Pode até pedir uma linha para um BNDES, para uma linha pública, mas não por absoluto estado de necessidade.

 

MidiaNews – Acertar as contas primeiro é essencial para a boa gestão pública, como foi feito em Mato Grosso? E o planejamento de longo prazo, como deve ser feito?

 

Paulo Rabello de Castro – Acertar as contas é fundamento da boa gestão. Inclusive, foi um desafio que eu deixei para governadores anteriores, quase que um projeto que foi encaminhado até para o ex-deputado e presidente da Assembleia Legislativa, José Riva, polêmico, mas muito interessante e inteligente o ex-deputado Zé Riva, que é pai da deputada Janaina, que também depois capitaneou esse projeto. Mas estaria maduro para nós termos, tanto no plano estadual quanto municipal,  uma lei de eficiência na gestão do Estado e uma lei de eficiência na gestão do município.

 

É uma lei de eficiência pública, que é um complemento da lei de responsabilidade fiscal. De qualquer maneira,  fica o desafio para essa lei de eficiência no plano estadual. Vou dizer que com lei ou sem lei, o Mauro foi a própria lei viva, porque ele realizou exatamente os princípios, ele executou princípios que devem estar neste nesse tipo de lei, que uma lei que faz um planejamento de longo prazo. Só para dizer que não estou inventando, a China, a despeito dos autoritarismos políticos, são repreensíveis, não consigo concordar com aquilo, a falta absoluta de consulta ao povo, eles só consultam os comissários, enfim, esse é um problema político deles, lá, da China.

 

Mas eles têm esse aspecto positivo. O governo programa a sua atuação.Todo mundo tem uma noção do plano de cinco anos, de dez, de quinze, vai para lá de 2050.

 

MidiaNews – O exemplo da China de uma programação e um planejamento para serem executados são as referências para a gestão pública moderna?

 

Paulo Rabello de Castro – Planejamento para ser executado, com disciplina. Que transcende aos mandatos. E uma lei boa de eficiência tem que estabelecer um plano cujo horizonte seja mais longo do que o mandato do sujeito incumbente que está ali. Ele tem que, na realidade, fazer eventualmente ajustes.

 

Mas um sujeito que ganha eleição pode simplesmente desfazer tudo que está sendo feito para tentar refazer com o grupo dele, nomeando outros camaradas, etc e tal. Eu acho que essa disciplina é que está faltando. Agora, para isso, a gente tem que enxergar as metas.

 

 

MidiaNews – A disciplina e a definição de metas fazem falta na gestão pública? Por exemplo, em Cuiabá e nos outros municípios?

 

Paulo Rabello de Castro – Mais do que no Estado, porque o Estado, eu acho que ele já está se estruturando para dar bastante resultado nessa direção, que ainda falta. Mas eu acho que esse debate, inclusive, para o próximo governador, deveria trazer essas metas de forma clara um plano de metas para o Estado, para o município, mais ainda porque o prefeito ainda está querendo aprovar o plano diretor.

 

Ora, o plano diretor PDDU, é o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, importantíssimo. Ele é um principal quadro de uma moldura maior que é o plano de desenvolvimento de longo prazo da cidade e da região metropolitana. Não pode excluir Várzea Grande. E não dizer que isso não tem nada que ver comigo. Sim, não tem, não tá jurisdição do prefeito de Cuiabá. Mas tem que conversar. 

 

MidiaNews – É preciso planejamento conjunto na gestão pública das áreas comuns. Como fazer para integrar meio ambiente, saneamento e transporte público na região metropolitana de Cuiabá?  

 

Paulo Rabello de Castro – A minha diretora na minha empresa aqui, ela não mora em Cuiabá, ela mora em Várzea Grande. Todo dia ela comuta, faz esse trânsito. Para ela é normal e para quantas milhares de pessoas isso é normal.  Então vários dos planejamentos têm que levar em conta a região metropolitana. E do ponto de vista temático, são coisas óbvias. Cuiabá é a capital do agronegócio? Não sei.  Aqui não tem nenhuma feira relevante. Agora, por exemplo, esses dias está sendo realizado o Agrishow de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

 

Por que aqui não tem a edição cuiabana dessa feira? E talvez calibrar e definir para uma época de clima mais moderado. Podia ser na saída dessa que se realiza agora em abril no Agrishow, joga para junho, e normalmente é um clima bem gostoso no início de julho. E fazemos uma Agrishow, que pode ser com uma visão diferente, algo da fronteira da tecnologia. Por que não?

 

A gente adota logo o high-tech. Lá em Ribeirão Preto tem high-tech e muito, mas a gente poderia especializar em algo que é muito a cara da juventude cuiabana, pelo que a gente sabe. Junta com a indústria, como a Fiemt se apresentar, e começamos a desenvolver o que há de mais avançado e podemos fazer nessa feira. Porque eu não tenho mandato para fazer nenhuma dessas coisas, estou sendo provocado, mas por que não fazemos a high-tech então internacional e mundial?

 

É trazer para cá os talentos. Trazer não é só máquinas, equipamentos, aplicativos de computação. Não. É trazer pessoas. Cadê o alemão que inventou tal coisa assim? A bioquímica, que se aplica ao agronegócio? Por quê não passar aqui seis meses dando curso sobre a sua especialidade? 

 

Por que não as indústrias? Vou fazer uma provocação porque eu conheço a turma bem, sei que eles são muito generosos. As indústrias e as empresas Maggi poderiam trazer três a cinco, vamos dizer, talentos de nível do Prêmio Nobel para passar aqui em Cuiabá uns meses por ano para interagir, a presença física dessas grandes capacidades seria uma indução fortíssima para o grande público. Começar a acompanhar, vamos dizer, o valor do estudo, do aprendizado.

 

MidiaNews –  O senhor defende que Cuiabá, aliada ao mundo agro, pode se especializar nos negócios e serviços voltados à alta tecnologia?

Paulo Rabello de Castro – Claro, é pegar logo a ponta da junção do agro com o não agro, por assim dizer. O não agro no sentido de que a indústria, a parte que manufatura para o agro e também os serviços da massa cinzenta para o agro. E também o lado, talvez, lado social para o agro. Esse aspecto não pode ser deixado de lado, porque tem agricultura familiar que também pode ser high-tech. Aproveitamento de resíduos, aproveitamento de água. O céu é o limite.

 

Agora eu estou falando só do agro, capital do agronegócio, fazer isso vale. Capital verde, que é um pouco diferente. É Cuiabá tendo os prédios inteligentes mais adaptados mais amigáveis em termos de aproveitamento de água de chuva, de aproveitamento das fachadas para a geração de energia limpa solar. São algumas das alternativas.

As indústrias e as empresas Maggi poderiam trazer três a cinco, vamos dizer, talentos de nível do Prêmio Nobel para passar aqui em Cuiabá uns meses por ano para interagir

 

MidiaNews –  Como é que o senhor avalia a gestão Abilio do ponto de vista econômico e do planejamento urbano da cidade?

 

Paulo Rabello de Castro – Abilio está aprendendo. É um bom estudante. Ele é um cara terceiro grau, é um arquiteto, pelo que sei, muito aplicado. Mas como qualquer um que chega na área executiva, no caso dele, é pela primeira vez. E não tendo passado por secretarias, ele meio que é um paraquedista do setor do Poder Executivo.

 

Ele chegou lá, o povo o mandou por drone para ocupar o palácio da cidade. Acho que ele está na cota, já entrando na extracota do tempo de aprendizado. Agora é bom ele começar a mostrar a que veio. Parar com a circularidade que é ele andar e voltar para outro lugar, em algum ponto que é um pouco a recorrência de algumas atividades dele, insistências em certos pontos.

 

Como, por exemplo, esse de conter a expansão do avanço da cidade para o lado Sul, que justamente por acaso coincide com uma área que ampliamos do Pedra 90. Nesse caso eu tenho que me apresentar como sendo culpado. Por ter sido o cara que inventou aquela contenção, mas uma contenção organizada de uma ocupação que estava ocorrendo e que ocorreu. Ela não foi induzida, ela só foi ordenada.

 

Está tudo lá regular, com as matrículas, e aliás, ele poderia capturar mais IPTU ali se ele tivesse um pouco mais de jogo com os loteadores locais e aumentar a capacidade de investimento de forma amigável com o pessoal que literalmente já vendeu os lotes cujo comprador, por inércia, não passou o título de propriedade porque não acha que vai perder e provavelmente não perderá porque ele já é ocupante do local, mas fica ali fingindo que o IPTU não é com ele.

 

E o IPTU sendo, vamos dizer assim,  ingenuamente cobrado pela procuradoria ao loteador que já não tem nada mais ver com isso. Então você imagina, quantos milhões de reais a prefeitura deixa de arrecadar porque ela fica burocrática mesmo. Não, o dono formal aqui. Que dono formal? É só enxergar que houve uma transação consentida, de instrumento de quitação, o sujeito é ocupante visível e a prefeitura fingindo que é um outro. E só para dar um exemplo, que não é de ouvir falar, é uma coisa que acontece conosco. Estamos em vias, de fazer o responsável substituto. Essa lei até agora não passou.

 

E nós tínhamos que usar isso de forma ostensiva. Eu diria que é por isso que acaba sendo, vamos dizer, uma administração um pouco circular. É como se fosse uma lotação que faz vários pontos e volta para o mesmo lugar. No caso da logística de uma cidade, tudo bem. Mas do ponto de vista de administração pública, nós temos que ter um avanço para frente. Para isso temos que ter metas.

 

Eu não vejo essas metas ainda de forma muito visível. Não só nela, nesse campo do assentamento de população, que vai continuar ocorrendo. Porque o disse que é uma das cidades que ainda mais cresce, ponto de vista da procura de trabalho, esse pessoal quer morar em algum lugar. E não adianta ele dizerem: eu quero que vocês morem para lá. Tem que ter planejamento urbano.

 

Tem que combinar? Quer dizer, na realidade também toda a cidade elege áreas por vocação. Quer dizer, você querer democraticamente ou na realidade idealística e sonhadoramente pensar que aqui você vai fazer um bairrozinho popular daqueles que vão prestar serviços ou a dona fulana que é da classe média alta, e o doutor fulano de tal, que mora numa casa lá no bairro Florais, é uma conversa.

 

Porque são metros quadrados com preços completamente díspares. E a menos que a prefeitura quisesse bancar essa combinação de classes de renda, o que ocorre é que há um trânsito de pessoas entre bairros classe A, B e outros de classe C, D. Todos têm que ser bons para se morar. E dá para fazer isso em condições de metragem quadrada e de situação, vamos dizer, de amenidade social diferenciadas. Mas todos, repito, podem ser bairros muito bom.

 

Vamos estar certo, de que esse bairros vão absorver as águas pluviais, corrigir o curso dos córregos, salvar esses córregos. Mas a principal absorção não é nem do elemento líquido, não, é do elemento sólido do ser humano. Nós temos que ter também uma cidade esponja que absorva com facilidade as pessoas que vêm acorrendo aqui, nas mais diversos níveis de especialidade ou até não especializado, para terem aqui um desenvolvimento humano bastante facilitado, o que não significa assistencialismo não.

 

Bem entendido, significa um acolhimento para que a pessoa tenha os elementos para ela mesmo ir construindo o seu futuro. 

 

 

MidiaNews –  Paulo Rabello, como é que fica o Brasil numa eventual vitória do Lula ou numa eventual vitória do Flávio ou outro candidato da direita?

  

Paulo Rabello de Castro – Nós tínhamos que fazer uma série de considerações para que o Paulo Rabello não parecesse simplesmente um camarada partidarista, ou a favor de A e B. E eu, na realidade, respeito muito o senhor Luiz Inácio, já despachei, como eu disse com ele. Por exemplo, no Grito do Ipiranga, ele estava lá, ele era ainda o Lula do do primeiro mandato. 

 

Essa confusão toda ocorreu ainda em 2005 para 2006.  Portanto, a confusão era grande para o agronegócio e ele foi positivo. Ou seja, eu já vi o Lula atuar e ele é, vamos dizer assim, é corajoso, ele é assertivo.

 

MidiaNews –  Como o Brasil ficaria se Lula ganhar? Como é que ficaria a economia? Ou qual é a tendência dos projetos para a economia se o Flávio Bolsonaro ganhar?

 

Paulo Rabello de Castro – Ele [Lula] tocou os três mandatos dele. Eu vou falar um negócio aqui que é difícil de entender. Mas em homenagem ao teu canal MidiaNews, faço uma avaliação de professor. A primeira vez que eu estive com ele foi sobre o assunto Varig, em 2003. Ele estava há apenas alguns meses no governo. Primeiro ano do primeiro mandato, primeiros meses.

 

E portanto, eu como sou professor universitário já aposentado, lidei com muita gente didaticamente. A gente consegue avaliar pessoas, umas mais, outras menos. O Lula era completamente jejuno (leigo) a respeito de tudo. Nós colocamos a primeira vez um aprendiz na Presidência da República. Um aprendiz inteligente. Mais um aprendiz despreparado no sentido que ele não tinha nem as informações básicas para começar o aprendizado.

 

Não vou dizer mais porque vai dar a impressão que estamos diminuindo. Mas a inteligência emocional dele é absolutamente fora da curva, que compensa em larga medida a falta e carência das informações com as quais ele lida.

 

Portanto, três mandatos depois, e querendo ir para o quarto, ele já está bem mais escolado. Mas bate a questão do tempo de vida, e eu posso dizer por questão própria. E também por uma questão também de princípios de gestão. Qualquer sujeito no primeiro mandato, mesmo sendo altamente ignorante, ele está cheio de ideias, de lições a realizar, no caso foi o Programa Fome Zero, e ele foi lançando coisas, quer dizer, programas para encher as escolas universitárias também, depois baixou muito o nível também do ensino superior, que isso é visível nas estatísticas, mas não importa, ele foi fazendo. 

 

O do segundo mandato, já com a vantagem de ser o quer dizer, o fim daquela explosão do preço das commodities, então a economia o favoreceu, embora tivesse tido no meio o estouro da bolha de Wall Street, em 2008, mas ele conseguiu capitanear. Esse terceiro mandato é lamentável, porque até normal que fosse sofrer, é que ele conseguiu caprichar o lamentável.

 

Na terceira vez que o sujeito vai ser CEO, vai ser o principal executivo de qualquer empresa, é bem pior do que na primeira ou na segunda. Os desafios são outros. Não é que os desafios são outros, o seu tesão por fazer é que é outro. Mas sujeito é mais experiente, mas não, é porque é mais do mesmo. É mais do mesmo.

 

Ninguém tem tanta criatividade assim. E como partido, é totalmente não criativo. O PT tem falado ultimamente sobre o que fazer, então nós não temos nem os quadros, nem as ideias.

O Lula era completamente jejuno (leigo) a respeito de tudo. Nós colocamos a primeira vez um aprendiz na Presidência da República.

 

MidiaNews –  Paulo Rabello, qual é a marca da gestão do terceiro mandato do Governo Lula?

 

Paulo Rabello de Castro – É tentar provar uma equação impossível, que ele pode sapatear na estabilidade financeira, criando mais de um trilhão de reais de déficit financeiro. Mas onde é que está esse trilhão? Parece que o déficit está quase zerado. Sim, o déficit é mentirinha. O déficit é operacional. Porque o déficit financeiro é meio antagonístico desses ganhos exagerados do setor financeiro.

 

Ele devia estar muito bravo em gastar um trilhão, fazer o povo pagar um trilhão. Trilhão, não é bilhão, trilhão de encargos financeiros. Não, fica lá reclamando que o juros está alto, não sei o quê. Só isso, para eu ouvir, já cria uma reprovação de um professor para dar nota no sujeito. Porque como eu lhe falei, dentro da minha cartilha, essa estabilização financeira fiscal é a condição principal do gestor público. 

 

Acertar as contas primeiro, vou poder governar com gestão eficiente. É o que você faz em casa, é o que o nosso cameraman faz, ele também tem lá as contas dele para pagar, e não adianta chegar e querer do patrão que quer mais um reajuste, eu o adiantamento.

 

Ele até para fazer isso uma vez, duas. Depois ele mesmo conclui, se eu continuar assim eu vou mal. Mas não, esse povo e não é só o Lula. Adia o pagamento de precatórios, como o anterior fez, para dizer, está o Bolsonaro. Foram 80 bilhões de reais. É tentar ser justo porque nós, povo brasileiro, não tem que ser nem A nem B coisa alguma. Toda essa turma está querendo ser inquilino lá do hotel Palácio da Alvorada. Hotel e República. É uma república de estudantes.

 

Alguns estudantes, aliás, muito espertos, estudantes de sacanagens. Vamos supor que eles sejam só ignorantes. Mas nós não devemos mitificar ninguém.

 

Quem nós vamos botar lá, independente quem quer que seja, é um risco, é um perigo para nós, porque nós pagamos a conta.

 

MidiaNews –  Como o senhor avalia a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro?

 

Paulo Rabello de Castro – É um outro aprendiz. Quantas vezes ele já esteve à frente na gestão? Disse que ele tinha uma fábrica de chocolate. Eu estou sendo brincalhão porque não precisamos levar tudo a ferro e fogo. Tem aqui um cara que tem um diploma, não só o diploma, mas toda uma experiência administrativa.

 

Ela conta muito. Como aqui, por exemplo, numa disputa, o eleitor olha não só a cara do sujeito, mas olha o currículo, a capacidade do sujeito administrar, saber se ele é bonzinho, se ele é chato, se ele fala bem, se ele fala mal, o que esse cara fez?

 

Inclusive na sua vida pessoal e que indica ou contra indica. No caso do Lula, desde o início tudo é contra indicado, mas é um líder, é um líder de multidões. Vai levar a multidão para onde? Está levando a multidão a enfrentar uma dívida pública que está se aproximando de ser 100% de toda a riqueza criada no Brasil num único ano. Já pensou você dever um Brasil?  Ah, outros países estão devendo mais do que o seu próprio PIB e todos esses estão, inclusive os Estados Unidos, empepinados financeiramente.

 

Nós temos que encontrar pessoas que sejam boas de diagnóstico e execução de soluções. E parar com essa história de ficar querendo gostar de fulano, gostar de ciclano. Portanto, acho que o Flávio tem que fazer um aprendizado rápido, se ele quiser se viabilizar. Ele diz que vai evitar falar de programa. Não, ele tem que enfrentar, dizer quem é que está organizando o programa dele.

 

Nós, por exemplo, no Instituto Atlântico, temos, desde 1994, apresentado planos de estabilidade com crescimento. No plano nacional, Mato Grosso nesse sentido de régua de crescimento, ele é uma exceção, porque ele tem crescido.

 

Mas a média do Brasil tem crescido muito mal, muito sofrivelmente. Então o nosso plano de crescimento, nós temos oferecido como alternativas para vários candidatos. E mais uma vez o Instituto Atlântico se apresenta com uma agenda muito bem organizada, não só na economia, como também no campo institucional.

 

Eu me sinto completamente ambientado nas metas de desenvolvimento e diria que se você quer administrar bem, você, futuro governador, futuro prefeito, prefeita, você tem que ouvir quem vive na cidade. Você tem que sentir o que está tocando na rua, porque o povo não gosta só de pagar conta, como nós temos sido obrigado via impostos.

 

Nós temos que fazer o povo começar a perceber, esses jovens que estão aqui, nosso jovem camera man, ele tem que perceber por ele mesmo que é muito interessante ele ficar por aqui. E muitos não estão achando isso. E olha que Cuiabá está entre as melhores oportunidades do país, que dirá outros lugares. Muitos jovens já querem ir embora.

 

O que diz a estatística nacionalmente? Que pelo menos 50%, se pudesse comandasse bem a língua estrangeira, de preferência, o inglês, que tivesse uma grana, já estaria fora. E por quê? O Brasil é um tão extraordinário, onde a minha geração e a geração dos políticos atuais estão errando? 

 

 





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