Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
No pequeno apartamento alugado do conjunto habitacional São José, na zona sul de Macapá, o cheiro de hambúrguer na chapa e do frango frito passou a disputar espaço com algo invisível, mas poderoso: a esperança. Em meio ao desemprego e às incertezas, Egla e Gabriel Arruda, ambos com 25 anos, transformaram a própria cozinha em ponto de partida para recomeçar.
O desejo de empreender sempre acompanhou o casal, mas quase sempre esbarrou na falta de recursos. Ao longo dos anos, eles tentaram diferentes caminhos: sorvetes artesanais, venda de chopp, abacaxi temperado, bolos, joias e até o mercado financeiro. As iniciativas, embora promissoras em alguns momentos, não se sustentaram. Faltava investimento, estrutura e, muitas vezes, o básico para crescer. Diante disso, precisaram retornar ao trabalho com carteira assinada, como forma de manter a renda e recomeçar.
Porém, a situação se agravou recentemente. Gabriel deixou o emprego por problemas de saúde. Pouco depois, Egla também foi demitida, enquanto enfrentava um período delicado na família, com a mãe doente. Sem renda fixa, decidiram tentar mais uma vez — agora com o que tinham à disposição.

O primeiro empreendimento do casal junto: chopp feito na casa da mãe de Gabriel. Fotos: arquivo pessoal

O casal fazendo juntos curso de sorvete
A hamburgueria nasceu dentro de casa, com Gabriel à frente da cozinha. Apaixonado por cozinhar, mesmo sem formação, ele assumiu naturalmente o preparo. Egla, além de auxiliar na produção e na embalagem dos pedidos, encontrou nas redes sociais uma possibilidade de impulsionar o negócio. Sem contar ao marido, começou a gravar e publicar vídeos com uma estratégia simples, mas intencional: alcançar quem ainda não conhecia o trabalho deles.
“Eu sabia que, se continuasse falando só com quem já conhecia, a gente não ia crescer. As pessoas olhavam e não compravam”, conta.

Empreendendo de casa com sorvete
Durante dias, o retorno foi tímido. Até que, no décimo dia, um dos vídeos do casal empreendedor ganhou alcance. Novos clientes começaram a chegar, muitos dizendo que tinham conhecido a hamburgueria pela internet. O plano de manter tudo em segredo terminou ali. Um cliente comentou diretamente com Gabriel, e pouco depois ele já era reconhecido fora de casa.

Desde pequeno, Gabriel já mostrava interesse pela cozinha
Desde então, o movimento aumentou. A hamburgueria passou a funcionar com delivery e retirada, atendendo por aplicativos, enquanto o casal tenta se adaptar ao crescimento com recursos limitados. Sem transporte próprio, as compras ainda são feitas a pé, e a falta de equipamentos de refrigeração impede ampliar a produção.
Mesmo assim, os planos seguem. A ideia é expandir o cardápio, retomar produtos antigos e, principalmente, estruturar o negócio para crescer de forma consistente. Mais do que estabilidade financeira, o casal fala em propósito.
“Queremos abençoar pessoas com empregos dignos. Vivemos realidades duras no mercado formal e nosso sonho é que nossa empresa seja um lugar de respeito ao colaborador”, afirma Egla.

Empreendendo com vendas de abacaxis temperados com a irmã
Casados há menos de um ano, ela, nascida em Manaus, e ele, amapaense, compartilham mais do que o mesmo espaço. Dividem a insistência em recomeçar, mesmo quando o cenário não favorece.
“A gente acredita que pode mudar de vida”.
Entre tentativas, perdas e recomeços, a hamburgueria improvisada deixou de ser apenas uma alternativa. Tornou-se resistência — e, agora, possibilidade.

Iniciativa ganha força após estratégia nas redes ampliar alcance para além do círculo de conhecidos
Quem quiser fazer encomendas ou conhecer melhor o trabalho da hamburgueria pode acessar o perfil no Instagram @mr_cocofrangoo ou entrar em contato diretamente pelo WhatsApp no número +55 96 98104-1360, onde são recebidos pedidos e fornecidas informações sobre o cardápio e disponibilidade de entrega.