“O Acre existe?” é uma pergunta que acompanha cada morador do estado ao viajar para outras regiões do país. Foi dessa provocação que nasceu, em dezembro de 2019, a Made In Acre, criada para desenvolver produtos que expressam o sentimento e o orgulho de ser acreano.
Há mais de seis anos, a marca não se limita a vender produtos, mas integra um movimento que fortalece e valoriza a identidade do Acre, do Norte e da Amazônia
como um todo. Tornou-se também uma vitrine para artistas locais, reunindo criações de diferentes grupos e cooperativas, além de impulsionar o empreendedorismo feminino e apoiar comunidades tradicionais.
As empresárias Juliana Pejon e Rayssa Alves contam que a ideia surgiu durante uma viagem entre amigas, quando, de forma despretensiosa, criaram camisas com design chamativo para afirmar que eram do Acre. Ao publicarem as fotos nas redes sociais, rapidamente despertaram o interesse das pessoas, que começaram a pedir que elas produzissem as peças para venda.
“A gente sempre diz que afirmar que somos do Acre é quase um evento. A marca nasceu de uma vontade nossa, de uma brincadeira que surgiu em meio à alegria. A partir da ideia de criar uma blusa, fomos percebendo que aquilo poderia se transformar em uma coleção, e depois em uma marca. E quanto mais avançamos,
mais entendemos a missão, a profundidade e a responsabilidade que é a Made In Acre”, explica Juliana.


Marca nasceu como resposta a estereótipos e tornou-se referência no Acre. — Foto: Raylanderson Frota
Na primeira coleção, foram exploradas expressões típicas do Acre, como “acreano do pé rachado”, “maninho” e “gaiato”, todas pensadas para destacar o famoso
“acreanês”. Com o tempo, acompanhando as sugestões e demandas dos próprios acreanos, a marca foi se moldando a esse sentimento coletivo.
“As pessoas dizem: ‘Vocês fizeram eu voltar a ter orgulho de falar que sou do Acre’. Houve um tempo em que esse orgulho existia, mas acabou se perdendo. E muitos reconhecem que a Made In Acre resgatou esse sentimento. Aos poucos, fomos percebendo que estávamos entrando na história do Acre de uma forma que não tínhamos planejado. No início, a ideia era apenas vender produtos, mas entendemos que havia algo muito maior envolvido. A marca carrega nossas vidas,
nossas vivências e valores”, completa Rayssa.


Para as fundadoras, a Made In Acre tem o compromisso de difundir a cultura do
estado. Foto: Cedida
‘Made In Acre é um sentimento’
Mesmo sem perceber, as duas amigas foram dando forma a um movimento que não se limitou ao mercado, pois tornou-se uma missão de mostrar ao Brasil e ao mundo que o Acre não apenas existe e resiste, mas é um estado repleto de riquezas e talentos, capaz de se destacar como referência em sustentabilidade. Nesse
processo, tradição e inovação se encontraram para romper estereótipos.
“Os produtos são consequência, mas não o objetivo principal. Sempre falamos que a Made In Acre é um sentimento. Os resultados aparecem nos produtos, mas não se resumem a eles. Com o tempo, percebemos que tínhamos uma missão com o Acre, quase como se tivéssemos firmado um contrato invisível com o povo”, resume Rayssa ao frisar que hoje entende que a marca é um movimento de valorização cultural.
Juliana explica que muito do estilo de vida das duas moldaram a forma como levam a marca e isso não se trata de mercado, mas sim desse compromisso em contar o que está por trás de cada peça. Por isso, os canais oficiais da loja nas redes sociais mostram detalhes de como tudo é pensado.
O exemplo mais recente foi o lançamento de uma blusa em parceria com o povo Shanenawa, estabelecendo uma conexão com a Amazônia e com a ancestralidade
ao estampar o cocar feito de penas de gavião-real. Esse adorno, símbolo de liderança na comunidade, é usado pelo cacique Tekahayne Shanenawa, da aldeia
Morada Nova.
“É uma criação importante para o nosso povo e para a divulgação do nosso festival, que acontece de 1º a 3 de agosto e vai reunir todas as aldeias, para que possamos mostrar nossa cultura”, disse a liderança.
Para Juliana, a marca reacendeu a vontade de explorar as histórias do Acre e mostrar como essas narrativas fazem parte da identidade de cada acreano. Para
ela, se compreender como habitante de um estado inserido na floresta amazônica é fundamental.
“A gente começou a viajar cada vez mais pelo estado, mergulhar na cultura e, a partir das nossas vivências, coisas que já valorizávamos antes, percebemos: isso
precisa ser falado, precisa ser mostrado. É muito rico. No início, enfrentamos o desafio de uma cultura que ainda tende a valorizar o que vem de fora. Mesmo
oferecendo um produto de qualidade, com preocupação sustentável, como o uso de algodão, muitos achavam o valor alto. Com o tempo, foram entendendo não apenas o produto, mas a importância de mostrar nossas histórias, dar profundidade e exaltar nossos povos”, diz Juliana.
E, nesse caminho, foi essencial receber depoimentos tanto de pessoas que já tinham orgulho do Acre quanto daquelas que passaram a redescobrir esse
sentimento. “Esse movimento nos mostrou que a Made In Acre vai além da moda: é sobre identidade e pertencimento”, completa.


O novo lançamento foi realizado em parceria com o povo Shanenawa, da aldeia Morada Nova, em Feijó. Foto: Divulgação
Orgulho acreano
O servidor público, Felipe Souza acompanha de perto o universo da moda e destaca a importância de valorizar a produção local. Para ele, a Made In Acre reúne atributos que vão além da estética e é isso que o faz ser um consumidor dos produtos.
“Além da criatividade em criar roupas com estilo mais ‘de rua’, toda a pegada de sustentabilidade e a exaltação da cultura acreana são fatores que me fazem
comprar e usar essa marca”, afirma.
Ele conta que gosta de levar peças da marca em suas viagens para outros estados, exibindo frases e palavras que remetem ao Acre.
“Sempre que posso, compro uma nova camiseta, moletom ou boné. É uma forma de mostrar nossa identidade e compartilhar nossa cultura, que é tão rica”, diz.
Na avaliação dele, quando a valorização parte dos próprios acreanos, a marca ganha força para expandir sua ideia além das fronteiras do estado. “Isso pode
influenciar pessoas de outros lugares a utilizar e, quem sabe, se identificar com a nossa cultura”, completa.


Ao incorporarem o artesanato indígena nas produções de fotos e vídeos, as empresárias perceberam o crescente interesse do público. Foto: Raylanderson Frota
Soul Amazônia
As empresárias fazem questão de manter a sustentabilidade como princípio em seus produtos e de fortalecer não apenas os artistas acreanos. Foi com o objetivo
de ampliar essa consciência e alcance que criaram a linha Soul Amazônia, em parceria com a ONG SOS Amazônia, voltada para a conscientização ambiental e
para reunir pessoas engajadas na proteção e preservação da floresta.
Ao adquirir os produtos da linha, você contribui diretamente com a causa. Para Bleno Caleb, coordenador da campanha, o engajamento de marcas em pautas
socioambientais é fundamental para ampliar o alcance da causa.
Ele explica que, quando empresas incorporam a temática ambiental em sua comunicação, ajudam a traduzir assuntos complexos em narrativas acessíveis e
engajadoras.


A linha Soul Amazônia foi criada para dar visibilidade e fortalecer o trabalho da SOS Amazônia. Foto: Cedida
“Isso sensibiliza novos públicos e contribui para a formação de uma consciência coletiva mais crítica e participativa. Além disso, ao se posicionarem de forma
consistente, as marcas influenciam cadeias produtivas, consumidores e até outras empresas, criando um efeito multiplicador que vai além de ações pontuais”, afirma.
Sobre a parceria com a Made In Acre, Caleb destaca que o impacto pode ser mensurado por diferentes indicadores, como alcance de mídia, engajamento digital
e fortalecimento das narrativas sobre a Amazônia em contextos urbanos. Ele lembra que uma das contrapartidas da campanha é a regeneração de uma área degradada de três hectares em Capixaba.
“Com o apoio de empresas como Made In Acre, Oxford e Mutá Vida Leve, vamos transformar esse cenário de pastagem em floresta. É importante ressaltar que
também contamos com doações recorrentes de pessoas físicas”, explica.
Para o coordenador, o fato de a Made In Acre ser uma marca essencialmente acreana reforça o sentimento de pertencimento e estimula o engajamento da
comunidade local.


Cada peça carrega a identidade do Acre e da Amazônia. Foto: Raylanderson Frota
Ao falar sobre como marcas podem se aproximar mais da pauta socioambiental, Caleb ressalta que é preciso compromisso real e alinhamento entre discurso e
prática. Ele afirma que a SOS Amazônia busca parcerias com empresas que integrem a sustentabilidade às suas estratégias e despertem em seus
colaboradores o cuidado com o planeta.
“A SOS atua como ponte, facilitando parcerias e promovendo impacto real, como mostramos em nosso relatório anual de atividades. Temos projetos que vão desde a manutenção da floresta em pé até a regeneração de áreas degradadas e a conservação da biodiversidade, o que desperta ainda mais o interesse das empresas em se unir à causa”, conclui.


Toda a loja é planejada e trabalhada com detalhes que retratam as especificidades do estado. Foto: Raylanderson Frota
Uma vitrine
Com o passar dos anos e a ampliação do espaço físico da loja, a Made In Acre transformou-se em uma vitrine para outros negócios locais. Hoje, o espaço reúne
uma diversidade de produtos feitos no estado, como sabonetes, cafés, cachaças, cocadas e doces, funcionando como um verdadeiro catalisador das potencialidades acreanas.
Segundo Rayssa, a loja acabou se tornando um portal para pequenos produtores e artesãos que muitas vezes não tinham onde expor ou comercializar seus trabalhos.
“Às vezes, alguém nos indica uma pessoa que faz determinado produto e nós abrimos espaço para que ela seja vista. Isso virou parte da nossa missão: mostrar
essas pessoas para o mundo e dar visibilidade ao que produzem”, explica.
Ela lembra que o movimento começou de forma natural, especialmente com os acessórios indígenas. “Não são apenas os produtos de fabricação que fazem
sucesso. Muitas vezes, as pessoas procuram artesanato indígena e não sabem onde encontrar. Foi por meio desse contato direto com os produtores que
conseguimos trazer esses itens para dentro da loja”, completa.


Os acessórios são adquiridos diretamente das mulheres indígenas que vivem do artesanato. Foto: Raylanderson Frota
Ao longo do tempo, a Made In Acre passou a incorporar em suas produções elementos da cultura indígena, especialmente acessórios artesanais. O movimento
surgiu de forma espontânea, quando Juliana e Rayssa começaram a utilizar essas peças em fotos e vídeos da marca.
Juliana lembra que, inicialmente, não havia intenção comercial, mas o público se encantava com os acessórios. “A gente começou a trazer o que chamamos de ‘joias da floresta’, mostrando que não se tratava apenas de miçangas, mas de peças carregadas de significado. Percebemos que, ao dar visibilidade a esses trabalhos, ajudávamos mulheres a vender e a sustentar suas famílias”, explica.
Ela acredita que o espaço da loja acabou se consolidando como um portal de valorização dos artesãos locais. “O nosso trabalho é mostrar que isso é valioso.
Seja o artesanato indígena, o trabalho com sementes ou a marchetaria, tudo isso precisa ser visto e reconhecido. Abrimos espaço para fortalecer esses artistas e incentivar que as pessoas valorizem cada vez mais a produção acreana”, completa.


Coleções resgatam ancestralidade e conectam com a Amazônia. Foto: cedida
Pertencimento
Ao longo dos anos, a Made In Acre consolidou-se como um movimento cultural e socioambiental que vai muito além da moda. Para as fundadoras Juliana Pejon e Rayssa Alves, o maior legado da marca é ter ajudado a ressignificar o orgulho acreano e mostrar que o estado pode ser referência em identidade e criatividade.
Juliana lembra que, no início, havia desconfiança sobre a viabilidade de uma marca que carregasse o nome do Acre. “Antigamente, muitas pessoas não acreditavam que algo ligado à cultura acreana pudesse dar certo. Hoje, ver outras marcas buscando essa inspiração mostra que cumprimos nosso papel”, afirma.


Fundadoras da Made In Acre pensam em expandir o alcance do movimento que criaram. Foto: Raylanderson Frota
Rayssa recorda que, quando anunciaram a ideia, ouviram comentários de que não funcionaria. “Muita gente dizia que não ia dar certo. Mas seguimos acreditando e mostramos que era possível transformar esse orgulho em movimento”, diz.
Para as empresárias, a Made In Acre nasceu de um desejo coletivo das pessoas quererem se vestir com a identidade do estado. “A camiseta foi o ponto de partida,
mas a ideia sempre foi sobre pertencimento”, explica Juliana. Rayssa complementa: “Não foi apenas abrir uma loja. Foi criar algo forte, que representasse nossa história e nossa cultura.”
Hoje, elas enxergam a marca como única em sua proposta, mas também como parte de um mercado em expansão. “O mais importante é que há espaço para todos. Isso mostra que o Acre está crescendo, que as pessoas estão valorizando sua arte, sua identidade e seu mercado”, afirma Rayssa.


Ideia é fortalecer cada vez mais os pequenos negócios, sendo uma vitrine para eles. Foto: Raylanderson Frota
Juliana destaca que o trabalho da marca reflete diretamente suas próprias vivências. “Sempre que encontramos uma cooperativa ou um artesão local,
trazemos para dentro da nossa vida e para dentro da loja. A Made In Acre nos instiga diariamente a conhecer mais sobre o estado e a mostrar essa riqueza para o
mundo”, diz.
O impacto também se reflete no turismo, já que elas contam que diariamente turistas procuram a loja e demonstram curiosidade sobre o estado. “Recebemos
visitantes que chegam curiosos, querendo entender mais sobre o Acre. É impressionante ver como esse interesse cresce”, comenta Rayssa.
Fortalecer cada vez mais
Para Juliana, o futuro da marca está em ampliar experiências e levar a Amazônia para o mundo. “A Made In Acre nasceu de uma dor: a invisibilidade do Acre e do
Norte. Hoje, nosso movimento é fortalecer o Acre, a Amazônia e o Norte inteiro.
Queremos criar experiências que mostrem nossas riquezas culturais e ambientais, sem nos limitar apenas a produtos”, afirma.
Rayssa reforça que o caminho passa por parcerias estratégicas que mostram e valorizam a cultura do povo acreano. “Queremos nos unir a pessoas e marcas que compartilhem desse propósito, para levar nossa história além das fronteiras do estado e até em nível nacional.”


Empresárias reconhecem a rede de fortalecimento dessas pequenas empreendedoras. Foto: Raylanderson Frota
Empreendedorismo feminino
O exemplo de Rayssa e Juliana traduz o compromisso do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em impulsionar o ambiente de
negócios para mulheres por meio de programas específicos.
O que começou como uma brincadeira se transformou em empresa e, hoje, com uma marca já consolidada, torna-se ainda mais relevante que iniciativas como essa apoiem e fortaleçam mulheres que estão iniciando, seja de forma individual ou por meio de cooperativas.
Segundo Kethleen Diniz, analista do Sebrae, os resultados do empreendedorismo feminino já são visíveis no Acre. De acordo com dados oficiais, cerca de 23,5 mil
empreendimentos têm mulheres na liderança, o que representa 25% dos negócios do estado. “O trabalho do Sebrae é justamente ampliar esses números, por isso temos programas específicos voltados ao empreendedorismo feminino, como o Programa Plural”, explica.


De uma brincadeira nasceu a ideia da marca, que hoje fortalece outros empreendedores. Foto: Raylanderson Frota
Ela destaca que o impacto vai além dos números, porque quando uma mulher inicia um negócio, há grandes chances de que ele se torne a principal fonte de renda da família.
“Isso permite sair de uma situação de escassez e construir uma identidade profissional”, afirma.
Segundo Kethleen, muitas empreendedoras começam com algo simples, vendendo o que sabem fazer, e aos poucos transformam esse trabalho em negócios sólidos. “A maior parte das histórias de grandes empreendedoras não começou grande, mas foi crescendo de forma consistente”, conclui.