O Carnaval de São Luís nem sempre teve trio elétrico, grandes palcos e multidões na Avenida Litorânea. Muito antes de se consolidar como um dos maiores eventos do calendário cultural do Maranhão, a festa era marcada por brincadeiras populares nas ruas, encontros em clubes e manifestações que ajudaram a construir a identidade da cidade. Com o passar do tempo, no entanto, o Carnaval mudou, e junto com ele, a forma de brincar, ocupar os espaços urbanos e se relacionar com a cultura local.
As primeiras formas de Carnaval na capital maranhense remontam aos séculos XVIII e XIX, influenciadas por costumes europeus trazidos ao Brasil. Mas, na prática, eram as camadas populares que davam vida à festa, ocupando as ruas com batuques e brincadeiras.
Uma das manifestações mais marcantes desse período foi o entrudo, prática em que foliões jogavam água, farinha e outros líquidos uns nos outros. Com o tempo, essa forma de brincar foi sendo substituída por expressões mais organizadas, como cordões e grupos carnavalescos.
Para o professor e jornalista Euclides Moreira, essas mudanças fazem parte da própria dinâmica social da cidade. “O que mais mudou foi a forma de sociabilidade. A maneira como as pessoas se relacionam também transforma o Carnaval”, explica.
Dos clubes às passarelas
Ao longo do século XX, o Carnaval ganhou novos formatos. Os bailes em clubes passaram a concentrar grande parte da festa, reunindo diferentes grupos sociais em espaços fechados. Paralelamente, surgiram as turmas de samba, que mais tarde dariam origem às escolas de samba. Com a institucionalização dos desfiles e a criação de concursos, o Carnaval começou a se organizar de forma mais estruturada, ainda mantendo forte ligação com os bairros e com a cultura popular. O DJ Arsênio Filho, lembra desse período.
“As pessoas se preparavam para os bailes, se encontravam. Era um Carnaval mais próximo, mais de grupo”, recorda. “Era muito baile, muito clube. A gente tocava para um público que estava ali vivendo aquele momento”, afirma.
Virada dos anos 90
A mudança mais significativa veio a partir dos anos 1990, quando o Carnaval começou a ocupar novos espaços da cidade. A expansão da orla e a consolidação da Avenida Litorânea como área de lazer abriram caminho para um novo modelo de festa. A chegada dos trios elétricos e de eventos inspirados no Carnaval baiano alterou o eixo da folia, levando grandes públicos para a região e mudando a dinâmica do evento.
“O trio elétrico foi um divisor. A partir dali, o Carnaval ganhou outra cara”, afirma Pepê Júnior. Para DJ Arsênio Filho, essa mudança também fragmentou a experiência da festa. “Hoje você tem várias opções ao mesmo tempo. Antes, todo mundo ia para os mesmos lugares”, observa.
Nas últimas décadas, o Carnaval de São Luís cresceu em estrutura e visibilidade, impulsionado por investimentos públicos e pela presença de atrações nacionais. A festa passou a movimentar o turismo e atrair públicos cada vez maiores. Mas esse crescimento também trouxe questionamentos.
“O Carnaval virou um produto turístico. Isso trouxe estrutura, mas tirou o protagonismo das manifestações locais”, avalia Euclides Moreira.
Segundo ele, há uma desigualdade na forma como diferentes expressões culturais são tratadas. “Algumas manifestações recebem apoio, enquanto outras seguem lutando por espaço”, afirma. Além da estr